[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 11

Já a caminho de casa, peguei a carteira de cigarro que estava no painel do carro e por mais que eu tentasse parar era quase impossível, principalmente quando algo conseguia me deixar completamente irritado, como foi a pouca conversa que tive com Hermes. Tudo bem que ele havia avisado que o tempo seria curto, porém, todas as vezes que nos encontramos é a mesma história, poucas respostas e muita, mas muitas perguntas largadas, deixando-me às escuras em minhas pesquisas, tendo que descobrir tudo sozinho, ou com pessoas estranhas, como foi com Rubens.

– Droga de isqueiro! – gritei, ao jogar o zippo de lado, buscando o acendedor do carro. – Ma-ra-vi-lha! Agora nem o acendedor está funcionando!

Com cigarro, mas sem isqueiro não seria possível chegar até meu apartamento. Movido pelo vício, parei o carro em frente à primeira padaria que encontrei. Aproveitei para comprar pães, frios, um isqueiro e, por que não, mais uma carteira do bom e velho marlboro light.

– Não, pagarei no cartão. – respondi.

Sacola na mão, comprovante no bolso, sai da padaria para, enfim, fumar meu cigarro tranquilamente. Porém, ao chegar no pequeno estacionamento para pegar meu carro, as únicas coisas que encontrei foi um punhado de vidros quebrados.

– Tá de sacanagem, não é?! – desabafei, com o cigarro no canto da boca.

Olhei para os lados à procura de alguém que pudesse ter visto o furto, mas por mais que olhasse, só carros passavam. Sem muito o que fazer, liguei para a polícia e solicitei uma viatura, a qual me encaminhou até à delegacia mais próxima.

Após algumas horas de perguntas, fui liberado com um simples papel e uma promessa de investigação. Porém, carona que seria bom, nada! Estava à mercê de algum transporte público ou – a possibilidade escolhida – ligar para o Denis, pra que pudesse me buscar.

– Alô, Denis? – perguntei ao estranhar a voz.
– Não, é a Ana. O Denis está largado no sofá. – respondeu. – Está tudo bem?

Provavelmente ela reparou, pela minha voz, que algo não estava bem.

– Olá, Ana. Então… – comecei.
– Você está brincando!? Foi para durante 15 minutos pra eles te levarem o carro?
– Exatamente! Eu também custo a acreditar nisso, já fiz o boletim de ocorrência, e como já está tarde, pensei que o Denis pudesse vir me buscar aqui na delegacia.
– Acho difícil! – brincou. – Tivemos um almoço em família e ele acabou bebendo além da conta. Agora está lá, roncando alto demais, tenho até medo que os vizinhos reclamem.
– Eu imagino. – ri ao responder. – Então tá bom, vou acabar pegando um táxi mesmo, daí eu falo…
– De forma alguma! – interrompeu. – Dê-me uns 15 minutos que eu pego você, sem problema algum.
– Tem certeza, Ana? – perguntei acanhado. – Não quero atrapalhar, vai que o Denis acorda, poderá ficar preocupado por você ter saído a essas horas da noite.
– Imagina! Estou com os meus pais, eles vieram para passar o final de semana, posso pedir para meu pai me acompanhar.
– Nossa, estou atrapalhando o teu final de semana. Esquece, eu pego um táxi. – respondi.
– Para! Já está decidido. Meu pai já está me esperando na porta, dentro de uns 15 a 20 minutos estaremos aí.

Acanhado, consegui responder um simples e rápido obrigado, que foi acompanhado por um “não se preocupe”, de Ana.

Somente depois de alguns minutos, após o nervoso e o acanhamento por fazer a esposa do meu melhor amigo me buscar, que parei para avaliar o estrago. Exatamente, o estrago que aquele roubo havia causado. O carro, rádio e notebook o seguro cobriria, mas o livro que meu pai deixara, esse estava perdido para sempre. Notícia que consumiu quase os 20 minutos de espera. E o pior era que eu havia esquecido de especificá-lo no Boletim de Ocorrência feito minutos atrás, ou seja, se, por acaso, acharem esse livro, talvez nunca mais volte para as minhas mãos. Confuso, porém, esperançoso de que fossem encontrar o carro, voltei à delegacia e procurei o delegado que havia me atendido.

– Olá, com licença.
– Pois não? – respondeu o escrivão.
– Na correria, esqueci de mencionar um item importante que estava no carro. Será que há alguma forma de acrescentar esta informação no Boletim de Ocorrência?
– Infelizmente, essa informação somente com o delegado. – respondeu.
– Claro! – confirmei. – Posso conversar com ele?
– Não, acabou de sair para fazer uma diligência.
– Ah, obrigado. – respondi contrariado.

Impossível não ficar irritado com uma situação dessas, mas, como teria que ser somente com o delegado, desisti e fui esperar Ana do lado de fora da delegacia.

A rua estava vazia quando Ana chegou – 5 minutos após minha conversa com o escrivão.

– Ana, não sei nem como te agradecer por isso.
– Não tem que agradecer nada! Foram tantas as vezes que eu vi você chegar em casa trazendo o Denis nos ombros, portanto, nem comece com bobagens, por favor.

Ana tinha razão, não foi uma nem duas vezes que levei seu marido para casa, depois de uma noite no bar, com os amigos. Você pode estar imaginando o Denis como um alcoólatra, mas não é verdade. Denis sofreu uma lesão no fígado quando era criança, e hoje ele é muito fraco para a bebida.

– Mas, conte-nos o que aconteceu, o que levaram com o carro? – perguntou ela.
– Pra falar a verdade, somente um livro que meu pai havia deixado pra mim.
– Mas era um livro importante? – perguntou, antes de ser foi interrompida por seu pai.
– Se era importante, Ana? O rapaz acabou de dizer que foi o pai dele que deu. Claro que o livro é importante.
– Ah, eu sei, mas vai que era um livro comum, algo que podemos comprar em uma livraria ou sebo. Às vezes não é por que deixaram pra gente que é importante, não é verdade? – retrucou acanhada.
– Verdade, Ana. – tentando acalmar os ânimos. – Mas esse era insubstituível, sem dizer que tive o prazer de pegá-lo hoje, somente.
– Nossa, então a perda foi grande. – respondeu.
– Infelizmente… Bom, só espero que a polícia consiga encontrar o carro, pois as chances do livro estar nele são grandes, pois não tem valor algum de mercado, só sentimental.
– Sendo assim, vamos torcer pra que tudo dê certo. – disse, sorrindo pelo retrovisor.

No entanto, antes que alguma outra palavra fosse dita, meu celular anunciou um número desconhecido.

– Alô? … Sim. … Acharam!? … Claro, estou a caminho!
– Acharam o carro? – perguntou Ana.
– Sim! – respondi. – Agora eu tenho que ir até a delegacia para verificar o carro. Será que você pode me deixar na esquina, parece que ainda tem alguns táxis lá.
– Táxi? De forma alguma! – já procurando um retorno.

Como ainda estávamos próximos da delegacia, não foi preciso nem 5 minutos para estar de volta, e do estacionamento já dava pra ver o meu carro parado.

Entrei apressado pelas portas da delegacia, o escrivão, quando viu a cena, logo me chamou a atenção, informando que não era permitido correr dentro do prédio, eu, que já pouco me importava com a opinião dele, disse que haviam me ligado pois meu carro fora encontrado.

– Sim, nós ligamos para o senhor. – respondeu. – Queira me acompanhar, por favor.

Após todas as explicações do delegado e das assinaturas que fui obrigado a dar, levaram-me até meu carro. A primeira coisa que fiz foi procurar pelo livro, pois, como havia dito, o restante o seguro cobriria, no entanto, a única coisa que estava faltando no automóvel, além do vidro quebrado, era o livro.

– Doutor, o carro foi encontrado ou apreendido? – perguntei ao Delegado.
– Encontramos ele estacionado em um shopping da zona oeste.
– E a pessoa que estava com ele não foi encontrada?
– Não, infelizmente não. – respondeu. – Recebemos uma ligação do segurança do estacionamento, pois ele suspeitara do vidro quebrado, mas não localizamos a pessoa que estava dirigindo. A única informação que tivemos foi de uma suposta testemunha que nos deu uma descrição de um homem na meia idade, cabelos ralos, barba cumprida e roupas escuras. O senhor conhece alguém com essa descrição? – perguntou.

Não foi preciso ter uma descrição completa para saber quem era o suspeito: Rubens!

[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 10

Antes que as perguntas começassem, Miguel me conduziu até o sofá, pedindo a Rita, sua esposa, que trouxesse alguma bebida quente; um chá, disse ele. E, enquanto Rita estava de saída para a cozinha, colocou-me sobre as costas uma manta azul escura que cobria o velho sofá.

– Meu rapaz. – começou Miguel. – Estás louco em ficar parado nessa chuva? Por que não tocou a campainha assim que chegou à porta? – perguntou. – A não ser que queria pegar alguma doença, claro. – brincou, enquanto aguardava Rita com a bebida quente.

Miguel e Rita foram amigos pessoais de meu pai, um casal em que ele sempre confiou seus pensamentos e perdas. Tamanha era a afinidade, que foram eles as primeiras pessoas que o ajudaram após a morte de minha mãe, e, eventualmente, auxiliaram durante a minha infância; apesar de não ter recordações desses momentos. Meu pai sempre dizia que Miguel era um amigo de altíssima confiança, uma pessoa que ele sempre pôde contar nos momentos mais difíceis de sua vida.

Minha vontade era fazer com que Miguel parasse com o interrogatório, mas foi Rita que conseguiu interrompê-lo, ao aparecer com três canecas de chá.

– Miguel, não vê que o rapaz está abalado? Pare com essas perguntas e vá buscar uma muda de roupas. Se não me engano, estão no armário do meio. – disse. – Suba e pegue-as o mais rápido possível, por favor.

Miguel olhou para Rita, ele sabia que ela só estava tentando me deixar mais confortável, por isso, subiu as escadas e foi buscar as roupas.

– Não se preocupe, meu rapaz. – disse ela. – Miguel é um tanto protetor, se é que me entende. – brincou. – Vamos, tome um pouco do chá, ele irá te ajudar a se sentir mais confortável, acredite. Só tome cuidado por que está…
– Quente! – gritei.
– Exatamente. Eu tentei te avisar. – sorriu, ao ver que Miguel já estava de volta com a muda de roupas nas mãos.
– Aqui. – disse Miguel. – Use o quarto de hospedes para se trocar.

O máximo que respondi foi um simples “obrigado” ao deixar a caneca sobre a mesa de centro, pegando as roupas e indo em direção ao quarto. Ao me levantar, Miguel quis me acompanhar, achando que eu não conhecia o caminho, mas fui obrigado a responder:

– Não precisa, Miguel. Conheço a casa.

Miguel e Rita se olharam e soltaram um sorriso discreto enquanto eu caminhava até o final do corredor.

Ao entrar no quarto, percebi que as lembranças que tivera de meu pai ainda permaneciam comigo, principalmente pelo ao ver a disposição da mobília; tudo estava como antes, era como se houvesse voltado no tempo, porém, desta vez, somente nas lembranças – dois acontecimentos no mesmo dia seriam demais para uma pessoa só.

As roupas de Miguel, apesar de folgadas, possibilitaram meu retorno à sala sem que molhasse o assoalho, sofá e os próprios anfitriões.

– Está vendo, Miguel, até que não ficaram grandes. – disse, Rita.
– Como se fizesse alguma diferença, não é verdade? – respondeu. – O rapaz estava congelando. Agora ele está mais agasalhado e quem sabe não pegue uma gripe.

A discussão estava prestes a iniciar se não fosse a minha pequena interrupção.

– Não sei nem como agradecê-los. – disse. – Miguel, a roupa está perfeita, não precisa se preocupar. – afirmei, tentando acabar com a discussão. – E você, Rita, já se preocupou demais: as roupas, o chá. Não tenho como agradecê-los.
– Que isso, querido. – disse ela. – Agora, venha, sente-se conosco. Faz tanto tempo que não conversamos.

Realmente, a última conversa que tivemos foi durante a venda da casa, que ocorreu há mais de 7 anos. Porém, infelizmente, as guinadas da vida acabaram por colocar as antigas amizades de lado, forçando minha atenção somente para a área profissional, o que gerava um certo desconforto, principalmente pelo fato deles terem sido tão simpáticos a ponto de me acolherem dessa forma tão aconchegante.

– Agora que você já está um pouco mais corado, diga-me: O que você estava fazendo parado na chuva? – perguntou Rita.

– Não sei dizer ao certo, Rita. – respondi. – Eu estava a caminho do meu apartamento quando, de repente, encontro-me em frente a vossa casa, parece que fui trazido até aqui pelas lembranças de meu pai.

– Interessante. – disse Miguel. – Faz-me lembrar das histórias de seu pai.
– Que histórias, Miguel? – perguntei, com um tom de curiosidade.
– Uma certa vez. – começou. – Estávamos conversando sobre sua pesquisa e ele comentou que havia certos momentos em que ele simplesmente aparecia em algum local sem que fosse sua intenção.
– Aparecia? Como assim? Ele estava em um lugar e depois em outro? – perguntei, tentando extrair qualquer informação que pudesse me ajudar com as viagens que estava presenciando.
– Não! De forma alguma. Era como se suas lembranças o levassem àquele determinado local, como se seus pés acompanhassem suas memórias ao invés de acompanhar suas vontades.
– É, parece que eu e meu pai temos muito em comum, afinal de contas.
– Sem sombra de dúvidas, meu jovem. – confirmou Miguel. – Mas conte-nos, casou, tem filhos?
– Não, nada disso. Por enquanto estou arrumando a minha vida profissional.
– Uma pena… – interrompeu Rita. – Filhos são uma benção divina. Infelizmente, não tivemos essa sorte. – completou, com um certo descontentamento no olhar.
– Mas temos um ao outro, minha querida, e somos felizes assim. – disse Miguel, ao segurar a mão da esposa.
– Verdade, meu querido. – respondeu, com os olhos marejados.

Enquanto Miguel e Rita ainda consolavam um ao outro, levantei e fui vasculhar os livros dispostos na estante da sala, alguns bem parecidos com os que meu pai possuía, livros sobre história, principalmente.

– Bela coleção que vocês têm aqui, Miguel. Faz-me lembrar os antigos livros de meu pai. – disse, interrompendo o momento dos dois.
– Sim, sim… Tínhamos um amor pelos livros, isso é verdade, meu jovem. – respondeu. – Aliás, acredito que tenho um livro aqui que pertence a você. – disse. – Encontramos não faz nem 2 semanas.
– Pertence a mim, por quê? – perguntei.
– Bom, pelo fato de estar embrulhado e com um bilhete de teu pai. – respondeu. – Nós o encontrámos no sótão, estávamos pra te ligar, mas acabamos esquecendo. – disse.
– Ele estava muito bem guardado. – completou Rita. – Aliás, poderia até dizer que estava escondido, pois estava no fundo de uma caixa de enfeites de natal. Talvez seja um presente esquecido? – supôs, com um sorriso nos lábios.

Miguel até narrou a cena, explicando os detalhes de como o haviam encontrado, brincando com as possíveis formas de como ele fora esquecido dentro da caixa.

– Vá lá, Miguel, pegue o livro pro rapaz. – insistiu Rita. – Antes tarde do que nunca, não é? – sorriu ao olhar pra mim.

Miguel subiu as escadas e trouxe o embrulho nas mãos.

– Só espero que não seja um livro infantil. – brincou.

Como Miguel havia dito, realmente existia uma anotação no envelope, ainda lacrado, que dizia: Ao meu pequeno prodígio. Sem muita cerimônia, abri o envelope.

“Meu filho, desculpe por não entregá-lo pessoalmente, mas acredito que este livro será de grande ajuda. Com amor, teu pai.”

Rapidamente, abri o embrulho e, ao ver o símbolo na capa, assustei-me. Era nada mais, nada menos que o símbolo da terra. Fiquei ali, observando o símbolo do livro, lembrando do que havia acontecido comigo na Biblioteca de Duat. Lembrei-me até da marca que essa viagem deixara em meu braço, mesmo que já não oferecesse nenhum incomodo, ainda era capaz de senti-la em impressa em minha pele.

– Está tudo bem, meu rapaz? – perguntou Miguel.

Se não fosse por Rita, não teria prestado atenção à pergunta de Miguel.

– Sim, estou… – respondi.
– É que ficaste tão distante depois que abriu o embrulho. – comentou. – Aliás, sobre o que trata o livro?
– Não sei ao certo. – omiti, e virando o livro pra ele, perguntei. – Por acaso, Miguel, você sabe alguma coisa sobre esse símbolo?

Após Miguel ter pego o livro nas mãos e ter olhado bem para o símbolo, virou-se para Rita e perguntou:

– É o símbolo da Terra, não é?
– Sim. Lembra muito aquele pingente que Lúcia carregava, não?
– Minha mãe? – interrompi.
– Sim, sua mãe, meu jovem. – respondeu Rita.
– É verdade! Ela tinha um símbolo igual a esse, em seu colar. – confirmou Miguel. – Lembro-me muito bem desse pingente, ela sempre o carregava.
– Alguma vez vocês perguntaram porquê ela usava esse pingente?

Mas a resposta que obtive foi um duplo não.

– Talvez você encontre o significado nesse livro, não?
– É o que eu espero, Miguel. – respondi.

A conversa se desenrolou, ambos contavam histórias sobre minha mãe, de como ela era bonita, cheia de vida e, por fim, do trágico acidente que acabou com sua vida. Histórias que meu pai já havia me contado diversas vezes; coisas comuns, mas que, pra mim, era uma delícia de ouvir. Porém, como a hora já havia avançado demasiadamente, e precisava voltar pra casa, especialmente para analisar o livro que ganhara, fui obrigado a cortar seus devaneios, caso contrário, não teria oportunidade de ler aquele livro que despertara minha curiosidade.

– Miguel, Rita, obrigado pelas roupas e pela ótima conversa, mas está ficando tarde, e é melhor eu pegar o caminho de volta ao meu apartamento.
– Claro, claro. – respondeu Rita. – Mas não fique muito tempo sem aparecer, por favor.
– Não ficarei, fiquem tranquilos. – respondi. – Pode deixar que as roupas eu entrego na próxima visita.
– Não precisa se preocupar, meu rapaz. – disse Miguel.

Assim, após me despedir dos velhos amigos, peguei as roupas molhadas que Rita havia colocado em uma sacola e segui rumo ao carro, porém, não sem antes dar um último aceno de despedida, o qual foi retribuído em sincronia por ambos.

Ao entrar no carro, coloquei o livro no banco do passageiro, olhando-o mais uma vez antes de ligar o carro. No entanto, bastou que eu retirasse os olhos da capa para que aquela sensação de atravessar os véus da Maya reaparecesse. Meus olhos perdiam o foco enquanto as imagens se transformavam em um pequeno quarto, ocupado somente por uma mesa e a figura de Hermes.

– Hermes? – indaguei.
– Como você está? – perguntou. – Fiquei preocupado desde o nosso último encontro. Não sabia se iria conseguir conversar com você novamente, meu Senhor.
– Por que não conseguiria, Hermes?
– Depois do que aconteceu na Biblioteca, achei que seria impossível. Essa marca em seu braço, não deveria sumir! Alguma coisa aconteceu para que te deixassem voltar, mesmo que seja por pouco tempo.
– Por que seria por pouco tempo? – perguntei.
– Veja, meu senhor. – começou. – Enquanto essa marca não sair por completo, o vosso tempo neste lado é muito curto, porque proíbe a entrada de quem o possuir.
– É, foi o que imaginei, principalmente depois da conversa que tive com Rubens. – retruquei.
– Com quem, meu Senhor?
– Rubens. – repeti. – Um amigo de meu pai.

Apesar de Hermes ter, supostamente, confirmado que o conhecia, não demonstrou estar contente com o que havia dito, dando uma longa pausa na conversa para depois continuar.

– Sim, claro. – desconversou. – Você procurou os livros como eu havia dito, meu Senhor?
– Sim. E foi neles que acabei encontrando o telefone de Rubens. – Aliás, por que não disse que meu pai também era capaz desse tipo de viagem, Hermes?
– Meu Senhor, infelizmente não poderia te contar desde o início. Prometi a teu pai que…

Porém, antes que Hermes terminasse a frase, estava de volta ao assento do carro, olhando o painel como estivera antes, prestes a virar a chave. E, sem pensar muito, mesmo sabendo que estava sozinho no carro, gritei:

– Não, de novo não!

Irritado, liguei o carro e fui pra casa, na esperança de descobrir qualquer coisa naquele livro que meu pai havia deixado, já que seria difícil obter respostas com quem quer que seja!

[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 9

Uma das coisas que não teria como reclamar do café paulista era o atendimento. O garçom, sempre bem disposto, trazia os pedidos no menor tempo possível, algo que facilitava a permanência no mezanino, ainda mais que era um lugar onde se permitia fumar. Porém, o barulho excessivo já atrapalhava a leitura do livro que Rubens emprestara. O Fluxo de clientes era intenso, alguns procuravam cadeiras para se sentarem, outros estavam só de passagem, amontoando o balcão, causando uma poluição visual e sonora que impressionava até os menos atentos. Estava impossível permanecer naquele local, principalmente se o objetivo era a pesquisa.

Assim, cansado daquela algazarra, chamei o garçom e pedi para que  fechasse a conta, a qual paguei diretamente no caixa, fazendo questão de que mantivesse os dez por cento, pois ele realmente merecia aquela doação remuneratória, mesmo que não fosse obrigatória. Meu último pedido foi para que  trouxessem meu carro; eu queria aproveitar o resto de sábado para uma última pesquisa. Talvez pudesse encontrar outras informações nos livros de meu pai, algo que não estivesse no livro que Rubens havia me emprestado.

Já no carro, a caminho de casa, as lembranças de um passado distante, onde eu e meu pai ainda morávamos juntos, inundou meus pensamentos com as pequenas coisas sobre sua vida: experiências profissionais; conquistas amorosas; e outras situações tão comuns quanto a qualquer pessoa. Lembranças que há muito tempo não compartilhava comigo mesmo. Porém, uma lembrança em particular era a mais recorrente, talvez por ser uma lembrança compartilhada e não vivida. Era a história de como meus pais haviam se conhecido, como minha mãe o havia feito o homem mais feliz durante 3 anos, interrompidos por sua morte súbita em um acidente de carro.

Ele sempre dizia que minha mãe era uma mulher muito bonita – o que não posso negar, visto as fotos que ele guardava junto com seus pertences mais queridos: livros e anotações. Todos guardados em uma bolsa antiga, que ocupava uma das prateleiras de um armário, em meu apartamento.

A sua beleza era somente um fato em toda a história, pois o mais interessante era os detalhes do primeiro encontro. Meu pai sempre dizia que o encontro dos dois ocorreu como um “acaso do destino”, ou coincidência, brincava. Mas na verdade, ele sempre acreditou que eles foram destinados a ficarem juntos.

Lembrei-me de uma conversa que tivemos, onde ele contava os detalhes do encontro.

– Meu filho. – ele sempre começava a conversa assim. – Sua mãe, era uma mulher muito bonita. – dizia. – Além de seus penetrantes olhos castanhos, tinha algo nela que cativava qualquer pessoa. E não digo que cativava pela beleza somente. Não. Algo em sua voz, em seu jeito, em sua delicadeza tinha o poder de prender a atenção de qualquer pessoa, fosse ela homem ou mulher. Até hoje não sei como ela havia se interessado por mim. – afirmava.

A verdade deve ser dita, meu pai não era um rapaz bonito, muito pelo contrário. Ele não tinha nada de cativante. Cabelo desarrumado, óculos grandes e uma forma peculiar de se vestir, tornava-o um exemplar, no mínimo, comum.

Ele continuava:

– Foi em um jantar promovido por um de meus amigos professores que vi sua mãe pela primeira vez. Era uma noite agradável, ideal para o uso de roupas leves, e sua mãe, aproveitando essa deixa, apareceu com um longo vestido prata deslumbrante. Ela estava tão linda, meu filho.

Ele sempre suspirava ao lembrar de minha mãe.

– Era impossível não notá-la! Porém, o que destoava em toda aquela pintura era um livro velho que ela trazia nas mãos. Só depois descobri que o livro fora escrito por dos professores que tive na faculdade, e que estava presente no jantar, naquela noite. Sua mãe buscava um autógrafo, meu filho.

Se tinha alguma coisa que atraia a atenção de meu pai, mais do que uma linda mulher, era um exemplar de um livro. Ele seria capaz de narrar a história só de olhar o título.

– Eu estava lá – continuava. – Parado, aguardando o início do jantar quando o professor, autor do livro, nos apresentou, dizendo que tínhamos muita coisa em comum, pois ela também era uma admiradora de história antiga.

As poucas histórias que ouvia sobre a minha mãe me fizeram imaginá-la como uma historiadora, apesar de ter a aparência de uma aristocrata, todos diziam que ela era uma excelente pesquisadora e, acima de tudo, uma ótima arqueóloga, mesmo que não praticasse mais, depois do casamento.

– Ah, meu filho. – dizia. – Não preciso dizer que nós passámos a noite inteira conversando sobre história, discutindo sobre temas tão profundos que nem os professores mais graduados queriam discutir. Ela despertava uma paixão em mim, tanto intelectualmente quanto amorosa. Era uma mulher surpreendente. Surpreendente.

Eu adorava ouvir suas histórias. Era como se suas palavras nos aproximassem, como se eu também fizesse parte desse passado romântico dos dois, não somente como filho, mas como um amigo.

– Enfim, foi uma paixão avassaladora. Conversávamos até altas horas, virávamos  noites seguidas, discutindo, rindo, analisando e pesquisando. Éramos dois apaixonados pela história, pelas civilizações antigas, pelas sociedades. Por tudo!

Lembro que a sua paixão era tanta, que nessas horas ele sempre levantava, gesticulava com os braços como se estivesse recitando um poema para uma multidão.

– Ah, que saudade dessa época. – desabafava, já sentado no sofá. – E numa dessas noites, meu filho, na biblioteca pessoal de um amigo, não me contive. Ajoelhei aos seus pés, e olhando bem no fundo de seus olhos, pedi-a em casamento. – dizia, com um brilho nos olhos. – Alguns podem pensar que faltou romantismo no pedido, meu filho, mas confesso que não haveria hora melhor. Aquila era a nossa vida. Os anos que se seguiram, meu filho, foram os melhores de minha vida! Se não fosse aquele acidente de carro…

Essa era a parte da história em que meu pai sempre derramava algumas lágrimas. Eu imaginava como havia sido difícil criar um filho sem o auxílio da mãe. Viver todos esses anos afundado nos livros, evitando o convívio social, achando que ele nunca mais amaria ninguém como amo a minha mãe – uma história triste, se querem saber. No entanto, apesar da dor terrível que ele sentia, conseguia ser um pai presente, sempre preocupado com a educação de seu filho, batalhando todos os dias para que eu tivesse tudo o que eles sempre sonharam.

A chuva, que castigava os vidros do carro, disfarçava as lágrimas em meu rosto. A saudade tinha me consumido por inteiro, mantendo-me tão concentrado em tempos de outrora que perdi a noção do tempo, assim como o rumo de casa.

Talvez tivesse sido a chuva, prejudicando a visibilidade, ou as lembranças da vida que tive que me levaram diretamente até a antiga casa onde eu e meu pai havíamos passado o restante de sua vida; uma casa antiga, herança dos meus avós, que por algum motivo, seus novos donos, amigos da família, não haviam feito nenhuma alteração na fachada, mantendo-a como se ainda estivéssemos lá.

Eu estava tão absorvido pelas lembranças que fiquei durante quase uma hora a observar aquela antiga casa, foram tantas as recordações, que fiz questão de saboreá-las como uma criança ao experimentar pela primeira vez um delicioso chocolate. Conflitos, saudades, jantares e risadas. Confesso que minha vontade era sair embaixo daquela chuva, caminhar até a porta da casa, abri-la e viver novamente tudo o que já havia vivido: as brigas, os momentos de solidão do meu pai, enquanto permanecia na biblioteca durante a noite, ou qualquer outra lembrança que surgisse durante o processo. No entanto, se eu fizesse isso, provavelmente iria sair escoltado pela polícia até a delegacia mais próxima, por tentativa de invasão domiciliar.

Como não queria este transtorno, resolvi me apresentar ao novo dono, pois, apesar de serem conhecidos de minha família, o único contato que tive foi durante a venda do imóvel.

Determinado, saí do carro em direção à porta. Subi os primeiros degraus da entrada, olhei bem para a casa como se desejasse que meu pai abrisse a porta, toquei a campainha três vezes. Mas antes que a porta fosse aberta, aquela experiência tomou conta dos meus sentidos: olhos começaram a embaçar; as imagens turvas começaram a preencher o ambiente até que a porta fosse aberta.

– Filho?
– Pa-pai? – disse assim que meus olhos voltaram ao normal.
– O que está fazendo aqui? Achei que você iria dormir na casa da Ana!
– Como é possível? – perguntei, mas parece que meu pai não havia entendido a pergunta, pois ele narrou uma história sobre eu ter ido até a casa da Ana.
– Possível? Você disse que dormiria na casa da sua namorada, ou já mudou de namorada e eu não estou sabendo?

Eu olhava para meu pai sem saber o que dizer.

– Oras, não fique aí parado. – disse. – Entre!
– Lucas, está tudo bem? – perguntou, uma voz dento da casa.
– Vamos, entre, meu filho. – disse, como se quisesse voltar rapidamente sua atenção à visita. – Sim, está tudo bem. Dê-me alguns minutos que já continuamos.

Ter meu pai diante de meus olhos era o que eu havia pedido, mas ainda assim não entendi o que estava acontecendo, como seria possível algo assim? Essa sensação fez sumir tudo o que eu havia aprendido durante esses últimos dias. Já não sabia se era sonho ou era realidade. A única coisa que eu queria era permanecer durante mais alguns minutos com ele.

– Vamos, meu filho! Até parece que viu uma assombração. – brincou ao me pegar pelo braço e trazer pra dentro de casa, e, quase sussurrando, disse – Só preciso que me faça um favor.
– Cla-claro. – gaguejei. – Qual o favor?
– Estou com um convidado importante e preciso conversar com ele a sós. Preciso que você me espere no quarto até que te chame, tudo bem?

Sem muito o que responder, apesar das diversas perguntas que pipocavam em minha mente, balancei a cabeça, afirmando que o esperaria no quarto.

– Sabia que você entenderia. – passando a mão nos meus cabelos. – Agora suba e aguarde.

Eu nunca havia recusado um pedido seu, mas a curiosidade falou mais alto. Ainda mais agora, que não era mais um adolescente, apesar de estar no corpo de um adolescente. E seguindo meus instintos, abri a porta do quarto para tentar ouvir sobre o quê conversavam.

– … já disse! Ele é muito novo!
– Mas ele … Lucas.
– Não!
– Lucas, querendo você ou não, esse é o …. . Você não tem como ….. Quanto mais cedo ele souber, melhor.

O barulho da chuva impedia que os detalhes da conversa fossem percebidos, ouvindo somente algumas passagens.

Tomado por uma enxurrada de adrenalina e curiosidade, me atirei corredor adentro, permanecendo escondido atrás da porta da sala, fazendo o mínimo de barulho para que não notassem a minha presença.

– Tente entender. Não posso fazer isso com o meu filho. Ele não está preparado.
– Lucas, essa é… – parando subitamente. – Que barulho foi esse, Lucas?

Por um descuido, antes que ele terminasse a frase, deixei cair um vaso de plantas que estava na mesa do corredor, denunciando a minha presença.

– Quem está aí? – dizia meu pai.

Mas antes que meu pai viesse constatar a minha presença, fui arrastado de volta à porta da casa, como se nunca tivesse saído de lá. Um velho amigo de meu pai, que comprou a casa, estava parado na minha frente, olhando-me assustado.

– Está tudo bem? Você está pálido! – disse ao segurar meu braço. – Venha, entre antes que pegue uma pneumonia.

[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 8

Apesar de ter escolhido a mesa ao fundo, a preocupação de Rubens era com a entrada do café, seus olhos percorriam toda a entrada, analisando todos que entravam, como se esperasse por alguém.

Rubens, assustando-o com a mais simples das perguntas, deixou um dos livros cair no chão.

– O que vão beber? – perguntou o garçom.
– Um café. – respondeu.
– Um cappuccino. – respondi.

O silêncio estava me matando. Tinha tantas perguntas a fazer, mas Rubens estava tão apreensivo que não permitiu uma abordagem direta, parecia se preocupar somente com os papéis, livros e com quem entrava e saia do café. No entanto, tomei coragem e fiz a pergunta mais inocente possível, pois, talvez assim ele me desse atenção.

– Rubens? – chamei. – O que são todos esses papéis? – perguntei, rompendo o silêncio. – É algum tipo de pesquisa que você está fazendo, ou têm alguma ligação com esse encontro?

Como um arqueiro, que acabara de acertar o centro do alvo, secretamente eu triunfava por ter chamado a atenção de Rubens, que olhou pra mim e disse:

– Tudo! – apressou-se. – São informações. Informações que passei ao teu pai.
– Informações? – perguntei. – Do quê você está falando.

Porém, antes que Rubens começasse a explicar o que havia dito, fomos interrompidos pelo garçom.

– Com licença… aqui temos o cappuccino do senhor e o café. – dizia ao colocar os pedidos sobre a mesa. – Os senhores gostariam de mais alguma coisa? – perguntou.

Rubens tomou à frente, acenando negativamente com a cabeça, sem ao menos dirigir-lhe um olhar, indicando que não queria mais nada e, provavelmente, que não gostaria de ser importunado novamente. – totalmente grosso, se me permite a observação.  Eu, por outro lado, tentei ser um pouco mais gentil com ele.

– Não, obrigado. – respondi. – Se precisarmos de mais alguma coisa chamaremos.
– Perfeitamente. – disse ao se afastar.
– Então. – continuei. – Você estava dizendo…

Por mais que eu gesticulasse, tentando chamar sua atenção, Rubens olhava atentamente para os alfarrábios que trouxera. Parecia procurar alguma informação que fosse útil, pois manteve-se calado até encontrar respostas à pesquisa que conduzia.

– Aqui! – exclamou. – Acho que isso poderá responder alguma de suas perguntas.

Estendi as mãos, buscando segurar o livro, trazendo-o mais próximo para ver do que estava falando, enquanto seu dedo marcava o parágrafo.

Mas, assim que peguei o livro, não pude deixar de notar a ilustração no lado direito da página.

– A Biblioteca de Duat!? [parte 5] – disse em voz alta.
– Como disse? – perguntou, ao levantar-se de seu lugar, vindo em minha direção. – Você disse: Biblioteca? Foi isso?

A vontade com que Rubens demonstrava seu interesse fez com que me recuasse; sentindo medo do que havia falado. Parecia que seu interesse era única e exclusivamente acerca da ilustração, como se esse fosse o real motivo desse encontro; buscar informações ao invés de fornecê-las.

Tentando consertar meu erro, disse que mais parecia uma entrada de uma biblioteca, ou museu. Porém, pelo olhar de Rubens, a pergunta havia sido retórica, somente. Ele tinha ouvido o que eu disse sobre a ilustração, o que me deixou mais preocupado ainda.

– Sim, parece, mas não era isso que eu queria te mostrar. – voltando ao seu assento. – Veja o sétimo parágrafo da página ao lado. Este aqui. – apontando com o dedo.

Comecei a ler com os olhos, mas minha curiosidade aumentava a cada palavra. Fiz uma pausa, olhei pra Rubens e recitei a última oração do parágrafo.

“Aquele, que em sonho ou acordado, transcender os véus da Maya, terás o direito de seguir o caminho da iniciação.”

– Maya? – indaguei. – O que isso quer dizer, Rubens?

Procurando em seus papéis, Rubens puxa uma folha contendo alguns rabiscos e anotações, entregando-a para que eu olhasse, começou a explicação.

– Maya é um termo filosófico hindu, que, neste caso, quer dizer ilusão. Ou seja, essa passagem nos dá uma diretriz; aquele que vencer a ilusão terrena terá o direito de seguir o caminho da iniciação, e se tornar um iniciado…

Enquanto Rubens ainda terminava sua explicação, não pude deixar de lembrar dos “sonhos” que tive; de como eles eram reais. A impressão era que eu havia atravessado o que os hindus chamavam de Maya, pois, as imagens se tornavam embaçadas, como se houvesse algo encobrindo. [parte 1]

– … assim, os seus atributos são: o poder de cegar com ilusões, ou revelar a verdade. – concluiu.
– Interessante. Mas no que isso responde a minha pergunta?
– Não foi assim que você descobriu o meu telefone? Em uma anotação de seu pai sobre um sonho que ele havia tido? – perguntou, olhando-me com espanto. – Você disse isso quando conversamos ao telefone, não? Que meu número estava junto a uma anotação de teu pai.
– Sim. – confirmei.
– Eu e seu pai conversamos muito sobre aquele sonho, meu jovem.
– Mas que sonho foi esse? – perguntei. – Aliás, onde vocês se conheceram? – mas Rubens nada disse.

Imaginando que o sonho de meu pai pudesse ter algo relacionado com o que eu havia tido, perguntei a Rubens, quase implorando: [parte 6]

– Ok, mas o que isso quer dizer? – ainda sem entender, perguntei. – Quer dizer que meu pai, em seu sonho, tinha vencido os véus da Maya? – e sem esperar a resposta, completei. – Então ele era um iniciado?
– Não, infelizmente não – disse com os olhos baixos. – Seu pai, meu jovem, teve somente uma visão de um outro lugar, nada mais do que isso.
– Que lugar?!
– Ele não se recordava de todos os detalhes. Disse que essa ilustração ao lado era tudo o que conseguia lembrar.
– E o que é essa ilustração? – tentei ser o mais discreto possível, ainda mais depois da euforia de Rubens.
– Supostamente uma biblioteca. Mas alguns acreditam que… – parando subitamente. – Acreditam que seja uma enorme biblioteca.

Essa pausa havia me preocupado. Dava a impressão que Rubens sabia muito mais do que estava falando; sabia sobre meu sonho, sabia sobre a biblioteca. Parecia que estávamos disputando como duas crianças num cabo de guerra, pra ver quem cederia primeiro.

– E o que tem de tão especial nessa biblioteca? – indaguei.
– Não sabemos. As únicas informações que temos está neste livro que você tem em mãos.

Parei sobre o livro, olhava de perto a ilustração, tentando colocar as ideias em ordem e, se possível, obter outras informação sobre a Biblioteca de Duat. Algo que corroborasse com o que Hermes havia me dito, quando lá estive. Porém, Rubens estava certo, só havia aquela ilustração e algumas frases soltas que indicavam a possível existência de um plano sutil, onde essa biblioteca estava localizada.

– Não tem nada mais? – perguntei. – Somente essas informações?
– Infelizmente. Isso foi tudo o que conseguimos até agora. Teu pai foi o único que, como ele disse, “viu essa ‘biblioteca'”.

Ainda pensando em meu pai e nas coisas que ele nunca havia me revelado, não pude deixar de notar que Rubens usava sempre o “nós” quando eu perguntava sobre a pesquisa feita, e aquilo estava me incomodando, já não era a primeira vez que ele demonstrava existir outras pessoas. Fiquei tão curioso que não resisti à pergunta:

– Nós!? – indaguei. – Nós quem, Rubens?
– Nós… como assim, nós!? Eu e seu pai, oras. – disse, num tom debochado. – Quem mais poderíamos ser?

Pela expressão no rosto de Rubens, vi que o havia incomodado, pois passou de uma posição de completo relaxamento para uma mais atenta, como se procurasse alguma forma de defesa, ou uma explicação além da verdade. Infelizmente, aquela resposta não sanou minha dúvida, o sorriso de Rubens não me convencera, deveria haver mais alguém naquele “nós”.

– Claro! – concordei. – Quem mais!?

Desconfortável, Rubens levantou o braço e chamou o garçom.

– Pois não? – perguntou.
– Você tem uma daquelas tortas holandesas? – perguntou sorridente.
– Claro, senhor. – confirmou. – Somente uma?

Rubens olho para mim, na espera de alguma resposta, mas dessa vez quem não queria ser importunado era eu.

– Sim, somente um pedaço, por favor. – respondeu ao garçom, lançando uma pergunta logo em seguida. – O que você tanto olha nesse livro?

Eu estava tão envolvido que mal pude ouvir o que Rubens acabara de perguntar, obrigo-o a fazer novamente a pergunta.

– Hum… Desculpe, o que você perguntou?
– Estou curioso pra saber o que você tanto está olhando nesse livro, além do que já te disse?
– A quantidade de símbolos. – respondi.
– Ah, sim. São muitos, realmente. – afirmou. – Algum em particular?

Rubens demonstrava muito interessado em saber mais do que estava perguntando. Sua expressão mudara de um simples olhar jovial para um olhar atento, como se esperasse alguma confirmação minha.

Como não queria dar nenhuma resposta afirmativa, apontei para um símbolo qualquer para ver sua reação.

– Este aqui. O que quer dizer?

Pela expressão de descontentamento no rosto de Rubens, pude ver que minhas suspeitas estavam corretas. Mas antes que começasse a explicação, fomos interrompidos novamente pelo garçom.

– Com licença. – requisitou o garçom. – Aqui está a torta holandesa que o senhor pediu.
– Obrigado.
– O senhor gostaria de mais um cappuccino? – perguntou, virando-se pra mim.
– Não, uma água já basta, por favor. – respondi.

Assim que o garçom nos deixou, Rubens retomou sua explicação.

– Este é o símbolo do Ourorobos (ou oroboros), ele representa um ciclo interminável. Ou melhor dizendo, o início e o término de um ciclo.
– Interessante… E este? – apontando para o símbolo do infinito.
– Estás dizendo que não sabe o que é esse símbolo? – perguntou.
– Bom, sei o significado dele na posição horizontal, mas na posição vertical eu nunca havia visto. – retruquei.

Rubens respirou fundo e esperou que o garçom deixasse a água na mesa.

– É conhecido, também, como o símbolo do infinito. Alguns acreditam que tenha a mesma função de Ourorobos, demonstrando o momento do nascimento como a parte de cima e a morte representada pela parte inferior.
– Nossa! Somente por virá-lo as pessoas já dão outra interpretação. – disse. – E esse aqui? – perguntei.

Porém, dessa vez fiz questão de apontar para um símbolo realmente importante. O símbolo que estava na capa do livro proibido na Biblioteca de Duat, aquele com os quatro símbolos [parte 6], dos quais só sabia o significado de dois. E como suspeitara. Foi apontar o símbolo para que Rubens arregalasse os olhos, demonstrando profundo  interesse.

– O que quer saber sobre esse símbolo, meu jovem?
– Oras, o mesmo que queria saber sobre os outros. – respondi. – O que ele quer dizer?

Rubens me olhou profundamente, era como se me analisasse por completo. Senti um incomodo no ombro conforme Rubens me olhava. Até produzi um movimento involuntário. Era como se o símbolo da Terra, marcado em meu ombro [parte 6], estivesse incomodado com os olhares de Rubens. Mas também poderia ser somente um reflexo.

– Este símbolo remete a uma lenda antiga. – começou. – Diziam os mais antigos que esse símbolo ilustra a capa do livro da Grande Obra. Um livro proibido aos seres humanos, até mesmo aos iluminados. Somente seres divinos podem tocá-lo ou lê-lo; seres que já não mais pertencem ao ciclo atual, seres que já cumpriram seu papel na humanidade e que agora trabalham para a criação de um outro ciclo. – terminando a explicação. – Mas, claro, são lendas. – completou, Rubens. – Não há prova alguma de que esse livro exista.
– E porquê essa é a ilustração da capa?
– Entendemos que… – deu uma pausa, mas logo completou. – … eu e seu pai, que refere-se à criação do mundo, assim como narra o Gênesis. Antes era o nada, este nada se focou em um ponto, desenvolveu dois lados (positivo e negativo) e, após isso, deu-se início ao ciclo de vida e morte.
– Então o primeiro símbolo representa o nada; o segundo representa o ponto, a idéia; o terceiro os pólos; e o quarto o ciclo da vida e morte? – perguntei, tentando entender a explicação.
– Exatamente isso! Por isso que a lenda chama o livro de: O Início da Obra. [parte 5]
– Mas este último símbolo não representa o símbolo da Terra, pelos romanos?
– Não só o símbolo da Terra, mas a roda da vida, dos incessantes nascimentos e mortes pelos mundos. Ou seja, a Terra seria o lugar necessário para que esses ciclos fossem possíveis.
– O planeta terra? – interrompi.
– Não. Terra, aqui, significa solo, matéria, ou se preferir, o mundo material. – respondeu.

Não foi fácil de assimilar tantas informações, porém, algumas já faziam sentido, apesar de não conseguir acreditar naquilo. Pelo que Rubens estava dizendo, eu era um iniciado que toquei o livro proibido e fui trazido de volta ao mundo material, eis, portanto, a marca que trago no braço. Porém, uma única coisa não fazia sentido era o porquê meu pai tinha tantas anotações sobre isso?

No entanto, antes que eu começasse com novas perguntas, Rubens disse:

– Imagino que você esteja imagindo o porquê de seu pai ter pesquisado isso durante tantos anos, não?

Meus olhos não seriam capazes de enganar a ninguém.

– Era exatamente isso que gostaria de saber! – disse, empolgado.
– Temos muito o que conversar, meu jovem… muito! – afirmava, como alguém que gosta de deixar os outros curiosos. – Mas hoje já não é possível. Está ficando muito tarde e acredito que todas essas informações ainda estão sendo processadas para serem absorvidas.

Rubens tinha razão, haviam sido tantas informações que eu mal conseguia colocá-las em ordem. Precisaria de mais tempo para absorver tanta coisa.

– Rubens, realmente, preciso pensar sobre tudo isso, pois não estou conseguindo ver relação alguma com as anotações de meu pai. É como se ele tivesse passado a vida inteira em busca de um sonho.
– Entendo. Mas saiba que seu pai foi de grande auxílio nessa pesquisa. – acrescentou. – Aliás, por que você não fica com esse livro? Talvez ele te dê mais respostas.
– Nossa! – exclamei. – Isso seria ótimo! Tem certeza disso? – perguntei.
– Claro. Fique com ele, e quando nos encontrarmos novamente, traga-o de volta.
– Sim, farei isso! – concordei. – Cuidarei bem do livro, não se preocupe.
– Não tenho dúvidas disso. – disse, enquanto juntava os outros papéis e livros que havia trazido. – Bom, meu rapaz, está na minha hora. Foi um prazer conhecê-lo.
– Claro, está tarde. – confirmei. – O prazer foi meu, Rubens. – estendendo a mão para cumprimentá-lo.
– Então, nos vemos em breve. Certo?
– Sem dúvidas! – confirmei.

E com um aperto firme de mão, Rubens saiu rumo à rua, desaparecendo em meio aos clientes que se aglomeravam no balcão do café paulista. Deixando-me completamente anestesiado pelas informações e preocupado com o interesse que Rubens demonstrava com as minhas perguntas.

– Gostaria que fechasse a conta, Senhor? – perguntou o garçom.
– Como? Não, ainda não. Pode trazer mais um cappuccino, por favor.

Mas antes que ele fosse embora, perguntei:

– Com licença, onde eu posso fumar um cigarro?
– Temos uma área de fumantes logo no piso de cima.
– Então que seja no piso de cima, por favor.

Assim, peguei o livro e meu celular, saquei o maço de cigarros e subi escada acima.

[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 7

Eu ainda não estava dormindo, apesar de Denis já ter encontrado seu lugar no mundo dos sonhos, animado com a conversa [parte 6] que havia tido com Rubens, apesar dos poucos detalhes e mistérios envolvidos. Porém, mesmo tendo durado pouco tempo, já havia servido ao seu propósito: aliviar a tensão sobre o assunto.

No entanto, o que ainda não conseguia entender era o símbolo em meu braço, principalmente pelo fato de ter aparecido após o guardião tê-lo tocado com sua lança. Isso, sem mencionar, também, os sonhos que estava tendo, alguns acordado [parte 1], outros dormindo [parte3]. Tudo isso ainda não fazia tanto sentido para mim, mas estava confiante em encontrar respostas com Rubens.

Denis dormia como um perfeito bêbado: largado, segurando a garrafa prestes a derramar seus últimos goles no carpete de madeira. Por um lado não me preocupei, pois, ele não iria acordar pelas próximas 8 horas, o que me daria tempo suficiente para folhear um pouco mais dos livros de meu pai.

Um, dois, três… sete livros foram retirados das prateleiras, alguns de sua coleção, outros da minha. Tais como: Simbologia Ocultista; A Doutrina Secreta, de Helena Petrovna Blavatskaya; O Verdadeiro Caminho da Iniciação,  Ocultismo e Teosofia, ambos de Henrique José de Souza. E outros mais corriqueiros, como A Mitologia Grega – um estudo aprofundado; O Grande Livro dos Mitos Gregos, de Robert Graves, entre outros.

Alguns desses livros traziam passagens interessantes, mas não consegui encontrar nenhuma que retomasse o significado do símbolo – talvez o sono houvesse me impedido. Confesso que era uma leitura pesada. Assim, os livros que mais me chamaram a atenção foram aqueles referentes aos mitos gregos, pois tinham uma ligação direta com aquela imensa Biblioteca do mundo de Duat. Aliás, algo que realmente havia sido bem interessante, principalmente pelas explicação de Hermes: “A biblioteca de Duat, meu Senhor, dispõe de todos os registros da humanidade. Qualquer coisa que foi escrita, desenhada, anotada, publicada, até aquelas que nunca conheceram a outros olhos que não fosse o de seu autor, estão aqui”. E pensando sobre isso, adormeci confortavelmente na poltrona da sala.

Enfim, acabei deixando os livros de lado, deixando o sono entrar tranquilamente, como uma terapia, meus olhos fecharam bem devagar, dando tempo para relaxar o corpo inteiro. E, desta vez, o sono havia transcorrido como sempre; sem perturbações, foi fechar os olhos e acordar somente com o barulho que Denis produzia na cozinha.

– Por acaso… você tem alguma coisa pra ressaca? – murmurou.

Eu ainda sonolento, nem dei muita atenção à pergunta, estava mais preocupado com a dor nas costas devido à péssima posição que dormi, do que com os problemas dele.

– Tenho! Água. – respondi.
– Acho que vou precisar de alguma coisa mais forte. – disse, enquanto vasculhava a geladeira atrás de um suco.
– Que horas são, Denis? – disse, ao levantar rapidamente.
– Horas? Não faça a menor ideia, mas acho que já passou do meio-dia.
– Meio-dia!? Porra, por que tu não me acordou? – perguntei, levantando a voz
– E como eu iria saber que você precisava acordar cedo? – respondeu. – E se possível, tem como falar um pouco mais baixo? Minha cabeça está explodindo.
– Também, com o tanto de cerveja que você bebeu ontem!
– Nem me lembre… Mas, por que da pressa, vai a algum lugar?
– Marquei uma reunião como um fornecedor, às duas da tarde, no Café Paulista. – mentindo sobre o real motivo, continuei. – Aliás, você sabe onde fica?
– Café Paulista… café paulista… Não. Não faço a menor ideia.
– Que saco! Vou acabar me atrasando. – desabafei. – Aliás, você está com o teu iPhone?
– Sim, está aqui. – disse ao retirá-lo do bolso. – Ei, pega leve, isso não é brinquedo! – resmungou irritado com a minha atitude, ao puxá-lo com tudo.
– Diz aqui que fica no Itaim Bibi. – informei. – É, parece que não será difícil de chegar.

Denis fez um sinal que sim e continuou bebendo sua água, segurando-se na pia com a outra mão. Eu, ainda com seu iPhone, verifiquei o horário, e Denis tinha razão, já passava do meio-dia. Aliás, faltava 15 minutos pra uma – com certeza eu iria me atrasar.

Preocupado, deixei o celular sobre o balcão e fui direto pro quarto me arrumar; um banho rápido era o que precisava para acordar, nada mais. Voltando pra sala logo em seguinda, encontrando Denis do mesmo jeito que o havia deixado: encostado na pia, tomando água.

– Denis, preciso sair. – disse. – Você vai ficar por aí, ou quer uma carona?
– Se tu me deixar em alguma farmácia, eu agradeço. – murmurou. – Preciso comprar algum remédio pra acabar com essa dor de cabeça, caso contrário, Ana irá me encher com a história de que não devo beber, que eu…
– Ok. – interrompi. – Tem uma farmácia no caminho, mas preciso que você venha comigo agora! Vamos! – quase precisando arrastá-lo para fora do apartamento, pois, seu novo andar iria, com certeza, me atrasar ainda mais.
– Vamos! – gritei.
– Estou indo, estou indo… – impaciente, disse. – Chame o elevador enquanto isso.

Denis não estava nada bem, a bebedeira não havia lhe caído bem. No carro, ele não parava de resmungar, dizendo que estava enjoado e que precisava dormir o dia inteiro, continuando com suas lamúrias até a hora que parei em frente à drogaria.

– Qualquer coisa, só ligar, Denis.
– Ok. Valeu pela carona. – e virando-se, disse. – Ah, boa reunião.
– Obrigado.

Saí acelerado do estacionamento. Faltava poucos minutos para às duas, e, com certeza, não iria chegar a tempo, a não ser que o trânsito ajudasse – como era sábado, estava com esperanças de que isso acontecesse. No entanto, não foi bem isso que aconteceu, o universo estava conspirando contra mim, pois, um acidente estúpido tinha acontecido a três ruas do meu destino, interrompendo a passagem para os outros carros, o meu incluído.

Foram 2 minutos – longos minutos -, até que a rua fosse liberada pra passagem, tempo suficiente para pensar em abandonar o carro e ir a pé. Mas deixei essa ideia de lado e continuei esperando, chegando ao café com 10 minutos de atraso, imaginando se ainda encontraria Rubens.

Saindo do estacionamento, corri até o local para procurar Rubens, que, aliás, poderia ser qualquer homem de meia idade, visto que, em momento algum da conversa, não havíamos mencionado como era a nossa aparência. Olhei o bar inteiro, procurando alguém que encaixasse na minha descrição mental: meia idade, cabelos ralos, barba cumprida e roupas escuras. Porém, todos que estavam por ali, tinham por volta dos seus 30 anos, mesma idade que eu. Não tendo outra solução, procurei um garçom para ver se ele havia visto alguém que se encaixasse nessa descrição. E, eis o que ele me respondeu:

– Olha, o único senhor que se encaixa nessa descrição, estava aqui há alguns minutos, chegou cedo e saiu daqui ainda agora. – disse ao olhar pra rua. – Veja, é aquele senhor que está atravessando a rua.

Ao virar, acompanhando a direção que ele apontou, vi aquele senhor se encaixar perfeitamente nos traços que havia imaginado:meia idade, cabelos ralos, barba cumprida, roupas escuras, porém, com papéis e mais papéis embaixo do braço, com um óculos de armação grossa equilibrado no nariz. Minha reação não foi outra, a não ser gritar.

– RUBENS!?

O suposto Rubens, parou ao ouvir o chamado, virou-se lentamente, como se não imaginasse que o estavam chamando. Mas, ao virar-se por completo, olhou bem pra mim. Tentando segurar seus papéis em um só braço para ajustar os óculos, com muita dificuldade, acenou, dando a entender que ele era o Rubens que eu procurava.

Assim, segurando seus livros com as duas mãos, como alguém que tem medo de ser roubado ou coisa parecida, atravessou a rua rapidamente, olhou pra bem pra mim, sem uma longa introdução, e disse:

– Você lembra muito o teu pai.
– Ainda bem…

Eu iria continuar, mas logo fui interrompido por Rubens, que olhou atentamente para a rua, depois para o café e, muito preocupado, disse:

– Venha. Será melhor se formos para aquela mesa ao fundo. – entrando sem esperar uma resposta.

Sem ter a oportunidade de sugerir outra mesa, segui Rubens até o fundo do café, observando os cuidados que com que ele escolhera a mesa: no fundo, afastado dos outros clientes. Um lugar muito reservado e com pouca iluminação natural.