[Editorial] Escritor x Personagem

Escritor x PersonagemPara os iniciantes e os escritores experientes, a briga entre escritor e personagem é algo real. Tão intenso que muitas vezes confundimos escritor com personagem. Teses e mais teses já foram escritas para tentar provar que tal personagem é, na verdade, o escritor que se colocou em sua história.

Diferente da relação leitores x personagem, a relação escritor x personagem é mais profunda. Sentir-se envolvido é a parte fundamental de uma história, colocar-se no lugar do personagem é importantíssimo para o escritor, principalmente quando precisamos cativar o leitor através de nossos personagens. Uma situação complicada e, certas vezes, psicologicamente radical, pois, ao criarmos um personagem, passamos a ele uma parte de nossa personalidade, de nossas emoções, misturando realidade com a ficção dele, tornando o real em uma história realística. Sentimos, portanto, como se cada frase, cada parágrafo e cada sentimento tivesse realmente acontecido; damos “vida” ao personagem quando retirando um pouco de nossas experiências, sentimentos e emoções para criar nossos heróis, protagonistas e qualquer outro personagem de nossas histórias.

Contudo, o peso dessa responsabilidade pode nos afundar em uma história que muitas vezes deixa de ser fictícia para se tornar a nossa realidade. Criamos situações, frequentamos ambientes parecidos com o que ele frequentaria, e até forçamos uma situação para puxar um diálogo que gostaríamos de ouvir de uma pessoa real. Ou seja, deixamos de viver nossas vidas para vivermos a realidade do personagem. E é aí que mora o perigo, pois estaremos entrando em uma realidade que não é nossa, mas de nossos personagens.

Colocarmo-nos em seu lugar é a melhor maneira de criarmos um personagem cativante; trazendo emoção e veracidade aos seus atos. Você pode tentar fugir o quanto quiser desse envolvimento, mas se você quiser criar bons personagens, você precisa transferir alguma de suas experiências, e só conseguirá isso aquele que consiga observar as relações humanas com olhos clínicos, ou tê-las vivido. Porém, sempre separando o que é realidade do que é ficção, a fim de evitar alguns problemas, seja com a família ou com os amigos. Estudo e boas leituras também serão fundamentais, porém, se você tiver experimentando aquela sensação ou aquele momento, quem sairá ganhando é o seu personagem, e os leitores, claro.

Assim, ter em mente que o personagem é o escritor e o escritor é o personagem, além de dar assunto para teses de mestrado, doutorado e livros sobre o tema, é uma das formas de se criar uma boa história; convincente e ao mesmo tempo interessante. Pois, como já expliquei, para se criar um personagem cativante é preciso que ele seja “real”, profundo.

Como um ator que, ao interpretar um papel, deixa a barba crescer, emagrece, muda de roupas e até de personalidade, o escritor também precisa “viver” um pouco da vida do personagem. Não é necessário mudar o visual, mas encaixar suas experiências naquele que será o personagem da tua história. Por isso, acredito que para ser um bom escritor, não basta escrever, precisamos viver, mantendo uma linha muito tênue entre escritor e personagem.

Comments

  1. Realmente é assim que me sinto quando escrevo, é preciso interargir, é preciso sentir o personagem, para poder tocar a alma do leitor.Alessandra Benete.

    • Alessandra, não sei de você, mas eu já passei noites em claro discutindo com personagens.
      E no final das contas, não é que o personagem venceu a disputa?!
      Hoje eu tenho “medo” de conversar com ele… eheheh

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