Com Amor, Flamenco

Pelas ruas estreitas da Espanha eu escutava a melodia ao fundo. Não me chamou atenção a princípio; achei que fosse o rádio de um carro, mas logo reparei que vinha duma casa que já havia ficado para trás. Resolvi voltar. Ao chegar não me anunciei; entrei e fiquei à espreita. As pessoas dançavam que dava gosto. Aquele flamenco choroso, calmo… swingado que não mais se escuta hoje em dia, exceto pelas mãos de Al Di Meola.

Sentados, os homens mantinham suas bóinas à mostra, provavelmente mais velhas que eu. Seus violões, tão afinados quanto desgastados, me fizeram brotar um sorriso – mesmo eu sendo um fundo poço de melancolia. O sol que entrava, pela janela, iluminava a parede de tijolos rústicos e também os rostos calmos daquela roda de Domingo. Quase como se vê nas praças brasileiras tomadas por senhores jogando seu carteado ou dominó.

Peguei-me ali, simplesmente fascinado pelo ritmo. Já tinha escutado flamenco muitas vezes, mas, com certeza, ver alguém dar vida a isso era primoroso. Óbvio, as mulheres que dançavam eram estonteantes; sobrinhas ou netas da maioria dos homens que tocavam como vim a descobrir depois. Das saias rodadas, aquele vermelho que rivalizava com a força do dourado vindo da janela… era uma mistura de êxtase e mistério, que até hoje não sei explicar. O calor do mediterrâneo me deixava cansado.

Deixei de espiar para tomar lugar à mesa, quando um dos senhores me viu fascinado pelo som – nunca fui um bom músico, mas, com certeza, saberia arranhar uma ou duas cordas, como eles me explicaram. E foi então que, arranhando algumas notas, aparece aquela mulher num vestido vermelho repleto de babados e um leque na mão. A música me vinha naturalmente, tão comum quanto um dia de domingo, que toquei para ela. Ela parecia dançar para mim. Antes pelo sol, agora pela belza, meus olhos estavam cegos por aquela mulher.

O leque na mão e o coque no alto da cabeça não eram dignos de uma apresentação luxuosa, muito mais do que pedia o lugar onde estávamos. Como passe de mágica, ela sumiu após a apresentação. A hospitalidade das pessoas impedia-me de procurá-la imediatamente.

Depois de mais uns cinco copos de vinho – que eu não sei como podia ser tão bom -, as pessoas começaram a confraternizar mais entre si. Deixaram-me um pouco de

lado e saí para fumar meu cigarro. Na sacada do primeiro andar, enquanto observava La Barceloneta com o mediterrâneo à minha frente, senti que alguém se aproximava. Não me dei ao trabalho de olhar. Porém, quando ela ficou na minha frente, despojada do coque e do vestido rodado, não tive outra saída, rendi-me àqueles olhos negros como jabuticaba e a sua pequena boca. Após dizer que havia dançado com todo o amor para mim, um estranho que estava ali, sem nem ela saber o porquê, lhe ofereci um cigarro.

Juntos, ficamos discutindo sobre tudo. Desde o bairro onde estávamos até às praças brasileiras, que eu tinha por enorme saudade no peito…

A conversa fluía como se fôssemos velhos amigos. As cadeiras, mesmo parecendo tão velhas quanto os senhores e seus violões, nos convidavam a sentar, e sem resistência alguma, sentei-me para observá-la falando, que, junto ao mar, mais parecia perfeita tradução de uma pintura a óleo.

A noite caia e a casa continuava animada e, pedindo licença àquela belíssima mulher, levantei-me para procurar o senhor que havia me convidado para participar da roda de música – precisava me despedir.

Não foi difícil encontrá-lo. Os acórdes daquele antigo violão eram como mapa para encontrá-lo. E sem muita conversa, ele fez um convite irrecusável: pediu-me que ficasse – sabia que meus amigos não ficariam irritados se não aparecesse em casa aquela noite. Assim, pude continuar a conversa com a minha querida espanhola por um bom tempo.

Não contente pelo tempo que tivemos juntos, ofereci para acompanhá-la até sua casa, quando descobri que aquela era a sua casa, e que o senhor havia me convidado a pedido dela. Naquele momento, pude sentir a pele do seu rosto enquanto a agradecia pela gentileza. Não fiz menção a mais nada, além de um beijo de agradecimento. Aquele beijo que recebi, foi como se lavasse a alma. Simplesmente, esqueci tudo que estava a minha volta. Era estranho o poder daquele beijo, mas não questionei. Achei maravilhoso, para dizer o mínimo. O abraço e o carinho que senti, faziam com que o mundo parecesse existir melhor e mais colorido.

Fomos até seu quarto. A noite quente e de céu estrelado, calorosa como a Espanha, foi meu manto de seda. Acordei com um beijo. A cama parecia perfeita, os lençóis tinham o cheiro do sol, e ela… linda como na noite anterior.

Na sacada, tive novamente a certeza de que ela pertencia ao meu mundo. Os pássaros pareciam cantar em seu nome quando a vi chegar. A revoada foi incrível. E ali, naquele cenário paradisíaco, morreram todas as buscas que fiz na vida. Morreram todas as incertezas que tive um dia. Foram por terra todas as dúvidas que passavam pela minha cabeça.

 

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