[Conto] E de repente é Natal

– Vamos, Fernanda. Tem mais crianças na fila.
– Mas eu nem fiz o pedido pro Papai Noel, mamãe.
– Tudo bem. Mas seja rápida, temos que voltar pra casa.
– Tá bom! – respondeu desanimada. – Papai Noel, …

Carmen era mãe de 5 filhos: João, de 19 anos; Lucas, de 17; Catarina, de 14 anos; Paulo, de 12 e Fernanda, de apenas 5 anos. Antônio, seu marido, havia morrido há 1 ano, deixando sua esposa e filhos somente com as dívidas no banco. E se não fosse a ajuda de João e Lucas, Carmem não seria capaz de manter as despesas com a casa, ainda mais o pesado aluguel.

Naquele dia – 23 de dezembro – de tanto que Fernanda havia insistido, Carmem deixou de lado seus trabalhos culinários, algo que sempre rendia alguns trocados no final de ano, para levar sua filha ao shopping para ver o papai noel. Esse era o único pedido de Nandinha, ela não queria presentes, somente queria ver o Papai Noel. E um “vamos, mamãe” era suficiente para amolecer o coração amargurado de Carmem.

Antes de se levantar do colo do Papai Noel, a pequena Fernanda olhou para as barbas do bom velhinho, e não contendo a curiosidade, puxou suas barbas, antes mesmo que o senhor que interpretava o papel pudesse evitar o futuro estrago.

– Você não é o Papai Noel!

Carmem entrou em pânico! As assistentes do papai noel tentaram resolver o problema, mas, para Fernanda, nada mudaria aquele momento; ele não era o papai noel que ela estava procurando e isso faria toda a diferença.

– Vamos, mamãe. Ele não é o Papai Noel. – disse Fernanda, ao tocar as mãos de sua mãe.

O toque suave de suas mãos trouxeram Carmem de volta à realidade. Mas o olhar triste de Fernanda ainda a perturbava. Carmem poderia aguentar a falta de dinheiro, as dívidas e até mesmo a falta de alguém para compartilhar os problemas, mas ver que sua filha estava decepcionada, isso ela não conseguia suportar. Rapidamente, Carmem pensou em algo que pudesse mudar o triste olhar de Fernanda.

– Nanda, o que acha de passarmos na loja de brinquedos? Acho que vi uma boneca bem bonita na vitrine!
– Tudo bem. – respondeu.
– Tenho certeza que você irá achá-la linda.

Mesmo com o pouco entusiasmo de Fernanda, Carmem seguiu até a loja, levando consigo a esperança de que não teria problemas com o cartão de crédito.

– Não disse? Vê como ela é bem bonita?
– É sim! Bem bonita, mamãe!
– Vamos vê-la de perto?
– A gente pode?
– Claro que podemos! Vamos!

Assim que entraram, uma senhora de seus 68 anos veio recepcioná-las. Ela chegou perguntando sempre o mais óbvio, se elas estavam procurando algo específico. Porém, antes que Carmem pudesse falar alguma coisa, a senhora virou os olhos para Fernanda e perguntou:

– Por que você está triste, meu anjo?
– Não foi nada…

A senhora virou a cabeça para Carmem e a olhou como se esperasse uma resposta.

– Nanda, acho que aquela não é a única boneca que eles têm na loja. Por que você não vai na frente e depois me mostra as mais bonitas?

Enquanto Fernanda corria pelo corredor, Carmem respondeu a pergunta daquela senhora.

– E ela acreditava que aquele era o Papai Noel? – perguntou a senhora.
– Creio que sim. Ela nunca disse nada, sempre pedia para ver o papai noel.
– Entendo. Mas não se preocupe, ela vai começar a brincar com as outras crianças e logo logo ela colocará um sorriso nos lábios.
– É o que eu espero…

A senhora estava certa. Carmem encontrou Fernanda brincando com outras duas meninas que também estavam na sessão das bonecas.

– Veja, mamãe! Encontrei outra mais linda!
– Verdade. Ela é bem bonita. Acho que é mais bonita que aquela da vitrine.
– É sim! É muito mais bonita!

Mesmo com a repentina melhora de Fernanda, Carmem sabia que a filha ainda estava triste, algo que só uma mãe poderia notar.

– Viu? Ela já está mais sorridente. – disse a senhora.
– Está sim, graças a Deus. – e abaixando-se para conversar com a filha, perguntou. – Será que ela ficaria feliz de ir pra casa com a gente, Nanda?
– Deixa eu perguntar… Ela disse que ficaria muito feliz em ir pra casa comigo. Ela disse que é muito escuro de noite, e ela tem medo, mamãe.
– Então, está decidido! Vamos levá-la pra casa. Mas, qual o nome dela, Nanda? Você já perguntou?
– É Juju. E aquela é a Nandinha. E a outra é a Polly.
– E quem irá pra casa com a gente?
– A Juju, mamãe.
– Ótimo, também achei que a Juju fosse a escolhida. Bom, dê tchau para as suas amiguinhas e vamos levar a Juju para casa, Nanda.

Esperando que Fernanda se despedisse das amiguinhas, Carmem revirou a bolsa à procurar de um cartão de crédito que pudesse arcar com os 250 reais de Juju. Um valor que estava muito acima do que ela havia imaginado. Mas, depois do que acontecera, não poderia negar esse presente. E com a boneca nas mãos, Fernanda e Carmem foram para a fila do caixa.

Assim que foram chamadas, Carmem e Fernanda se dirigiram ao caixa. Ao efetuar o pagamento, Carmem reparou que uma luz piscou sem parar no caixa, algo que logo chamou a atenção do gerente. Carmem logo ficou preocupada, talvez aquele cartão não fosse o correto. Suas mãos começaram a tremer, e olhando para Fernanda com a boneca, seus olhos começaram a encher-se de lágrimas.

– Olá. Eu sou o gerente desta loja.

– Olá. – respondeu Carmem.

– Não sei se vocês sabem, mas o shopping está fazendo um sorteio interno, o cliente natalino de número 100 mil ganhará uma casa totalmente mobiliada, e os lojistas iriam fornecer roupas, utensílios, um mês de compras no supermercado entre outras necessidades que o ganhador precisar para começar na nova casa. E eu tenho o prazer em dizer a vocês que as ganhadoras deste sorteio são… Vocês! Parabéns! Nós só precisamos que a senhora…

O gerente não teve tempo de terminar a frase e Fernanda já estava correndo pelos corredores do shopping. Carmem, desesperada, saiu em disparada atrás da filha.

– Nanda! Nanda! Fernanda!?

Apesar dos gritos de sua mãe, Fernanda e Juju correram pelos corredores, parando somente quando chegaram à poltrona do Papai Noel. Carmem, ao alcançá-la, não entendia o que estava acontecendo, Fernanda estava abraçada ao falso papai noel, o mesmo que há minutos atrás ela havia dito que era falso. Tentando ouvir o que ela dizia ao papai noel, Carmem tentou se aproximar.

– Obrigado, Papai Noel. Obrigado! – disse Fernanda

Carmem, ao ouvir aquele obrigado, não se conteve e começou a chorar silenciosamente. Limpando as lágrimas só quando sua filha veio ao seu encontro.

– Por que você o agradeceu, Nandinha?
– Porque ele realizou o meu desejo, mamãe.
– E qual foi?
– Que o natal desse ano fosse diferente.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Carmem, que não conseguiu evitar a pergunta.

– Mas e a barba dele, Nandinha?
– Deixa de ser boba, mamãe! Está muito quente, ele deve ter raspado.


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