[Editorial] Diga-me o que lês

Por várias vezes fui questionado: Quantos livros você leu no último mês? E eis a minha resposta: O suficiente para não me tornar um viciado.

Engana-se quem pensa que ler muito é um indício de inteligência, conhecimento ou cultura. Ler é fundamental, com certeza. Devemos deixar de lado essa ilusão de que quem lê muitos livros é uma pessoa sensacional, admirável, inteligente e culta.

Hoje, a necessidade que muitos têm em espalhar pelos dois cantos (twitter, facebook) o quanto estão lendo, lerão ou leram, é mais uma necessidade de autoafirmação do que inteligência. É uma vontade absurda de dizer ao mundo: Veja! Estou lendo. Sou culto, viu!?

A cultura não deve ser baseada na quantidade de livros lidos, mas pela capacidade que o indivíduo possui em transformar aquilo que leu em algo produtivo. Ou seja, aplicar o conhecimento no dia a dia.

Eu já ouvi dizerem que ler é uma forma de aprimorar o conhecimento da língua portuguesa. Confesso que fico espantado com esse tipo de afirmação. Raramente vejo alguém verificando se as estruturas das frases estão corretas, procurando saber se a oração é subordinada substantiva apositiva e, por isso, deveria ter uma vírgula; ou se o sujeito estava oculto. Outros já disseram que a leitura aumenta nosso vocabulário. Bom, essa eu sou obrigado a acreditar.

Ter o costume de ler nos permite conhecer não só novas palavras, mas mantermo-nos atualizados com a grafia de certas palavras que não utilizamos com frequência, evitando escrevê-las de forma incorreta. Porém, gramática? Não, essa só tem um jeito de aprender: bons livros didáticos, bons professores e muita força de vontade.

Devemos levar em conta, também, que apesar de podermos aumentar nosso vocabulário, se não utilizarmos as palavras que aprendemos, não adiantará de nada conhecê-las. O nosso cérebro trabalha com a repetição, isto é, para acrescentarmos palavras novas ao nosso rol, não basta apenas conhecê-las, temos que aprender o seu significado e sua utilização, para que possamos utilizá-las em nosso dia a dia sem que seja algo robótico ou premeditado.

Portanto, não se deixe levar por aqueles que dizem que quanto mais você lê, mais você aprimora o teu conhecimento. A verdade é que a leitura só terá esse efeito se a levarmos a sério. Isto é, se aprendermos com ela, e não com a quantidade de livros que lemos. Quantidade não é qualidade, já disseram.

A leitura deve ser acima de tudo um prazer, não uma competição. Quando competimos, as chances de nos decepcionarmos são altas, principalmente quando vemos alguém que lê 15 livros em um mês. Aliás, ler mais do que quatro livros por mês, na minha opinião, deixa de ser um prazer para virar um vício. Ler um livro por semana ou dois por mês é saudável, é divertido. Pois, como disse, devemos aprender com o que lemos, e aprendizado leva tempo.

Assim, se você é daquelas pessoas que perguntam quantos livros fulano ou sicrano leram, lembre-se: Uma pessoa inteligente não está interessada na quantidade, mas nas indicações de boas leituras. Portanto, deixe de competir e vá se divertir. Faça como o Menino das Letras - Admirável Mundo das Letras.

Comments

  1. Nossa, falou tudo hein? Detesto esse povo que fica se achando dizendo que leu trocentos livros num mês, se achando melhor do que os outros por causa disso!
    Como você mesmo disse no texto, quantidade não é qualidade!

    Ótimo texto!

    • Eu também odeio, Manu.
      Poxa, pouco importa o quanto eu li, o importante é a qualidade dos livros que eu leio.
      Antigamente, a quantidade de livro escritos era bem menor e nem por isso o povo é menos inteligente ou culto, muito pelo contrário.
      Mas, infelizmente, ainda temos pessoas que acreditam que ler 100 livro por ano é algo bonito… tsc tsc tsc.

      Beijão e obrigado pelo comentário.

  2. Fábio, boa noite! :)

    Saudades tuas e das tuas histórias. Às vezes somos obrigados, pelas circunstâncias, a ficar afastados dos nossos prazeres.

    Gostei muito do teu texto e concordo com quase tudo. Não estou de acordo quando dizes “Confesso que fico espantado com esse tipo de afirmação. Raramente vejo alguém verificando se as estruturas das frases estão corretas, procurando saber se a oração é subordinada substantiva apositiva e, por isso, deveria ter uma vírgula; ou se o sujeito estava oculto.”

    Eu penso que, quando lemos, não estamos minimamente preocupados com a gramática ou técnicas de escrita. Mas o nosso cérebro, quer queiramos quer não, vai guardando a informação. É por isso que mais tarde conseguimos rapidamente identificar um bom ou um mau escritor, ou verificar os progressos que fulano ou beltrano faz na escrita. Penso que ler não nos vai tornar em peritos na língua portuguesa, mas para os que não têm contacto com essa disciplina desde o secundário, como é o meu caso, é muito importante.

    Beijos, meu querido! Aproveito para te desejar um Ano Novo com tudo renovado e muita paz. Felicidades!

    • Luísa, que saudade dos teus comentários!
      Verdade, tem horas que temos que deixar um tempo só pra nós, infelizmente.

      Lú, realmente, acho que fui muito radical quando escrevi essa passagem. Confesso que nem imaginei essa tua situação, foquei mais na minha revolta do que no próprio sentido da leitura.
      Enfim, não tenho como ficar me justificando. Foi uma falha, mas que já foi anotada! :D
      Obrigado, Lú!

      Um FELIZ NATAL e um EXCELENTE Ano Novo!
      Beijão, minha querida! :*

  3. Achei muito interessante a dica que aliás, serviu muito para mim. Obrigado!

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