[Editorial] O Mais do Mesmo – De Escritor a Autor sob Demanda

Escrever um livro sempre será um desafio. Primeiro vencemos os bloqueios mentais, os traumas e as angustias geradas pela própria história; depois, através de muito sufoco, buscamos as Editoras e seus Mercados Editoriais; e, por fim, a publicação. Um percurso doloroso e cheio de incertezas, levando-nos a desistir logo nas primeiras páginas.

O caminho até parece simples, se não fosse o Mercado Editorial, com suas seleções e determinações do que deve ou não ser lido – entenda: publicamos o que nos convir. Quantas vezes já não me encontrei em uma livraria procurando algo para ler e o que mais via eram livros com temas idênticos sobre ângulos diferentes; e não digo dos ângulos de visão, que muitas vezes são ofuscados por gigantescos painéis com a imagem de capa ou do autor, mas, de histórias praticamente iguais que nos colocam goela abaixo.

Infelizmente, hoje, vemos, não mais uma nova fase literária, mas, a onda do momento. Isto é, autores que escrevem através de um roteiro pré-programado, uma fórmula, por assim dizer: Comece com um menino solitário, se possível, órfão. Adicione alguma situação complicada nos primeiros capítulos. Tente manter uma identificação entre o leitor e o personagem. Envolva-o. Transforme o personagem em um herói e… BUM! Sucesso! E assim, o escritor deixa de ser um escritor para se transformar em um autor sob demanda.

Bons tempos aqueles…  que escrever era um prazer, e ser lido era uma consequência. Hoje, para ser lido, o escritor tem que adaptar, em suas histórias, aquilo que o leitor é induzido a ler. Ou seja, se hoje temos bruxos, escreva sobre bruxos. Amanhã, se o “hit” do momento for vampiros, bom, escreva sobre vampiros. E assim, caminhamos para as prateleiras cheias do “mais do mesmo”.

Quantas vezes, não vemos essa história se repetir no decorrer das páginas? Mais parece uma fábrica de histórias do que uma aventura rumo ao desconhecido. Poderia jurar que se trocarmos o ambiente e o nome dos personagens, muitos livros apresentariam o mesmo roteiro. …em time que está ganhando…

Você pode pensar: Mas é assim mesmo, o mercado acaba ditando as regras e não vejo problema algum nisso. O problema é que, com a quantidade do “mais do mesmo” perdemos a capacidade de identificar o que é bom ou não. Perdemos a capacidade de criticar, chegando ao absurdo de dizer que um livro é melhor ou pior que o outro! Poxa, se são todos iguais, qual é a diferença? A narrativa? Os elementos utilizados? Dizer que “Eu sou o número 4″ é melhor que “A pirâmide vermelha” e pior que “Percy Jackson e Os Olimpianos” é o mesmo que dizer: Não gosto de laranja, mas amo o seu suco.

Se cada povo tem o governo que merece, por que deveria ser diferente com os livros? Saber ler não é sinal de alto nível de educação, assim como ler vários livros não é sinal de inteligência – do latim intelligentia, de inteligens = inteligente. Intelecção: intus legere actionem = ler dentro da ação, compreender dentro.

Contudo, a verdade deve ser dita, o prazer em escrever, às vezes, supera esses detalhes que encontramos pela frente: problemas financeiros, pessoais ou, até mesmo, os editoriais. Mas, escrever sob demanda deve ser uma grande chateação para os verdadeiros escritores.

 “Conhecemos mais os livros que as coisas, e ser sábio consiste em saber coisas e não livros.”

Jaime Balmes


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