[Conto] A Vergonha – Der Sturz

Há 72 anos, teve início, meio e fim uma das maiores e mais sangrentas guerras que o mundo moderno já presenciou: A Segunda Guerra Mundial. Uma data que, na minha opinião, não deve ser esquecida, pois, um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. Ernesto Che Guevara.
Devido às datas de início e de fim da segunda guerra mundial, resolvi escrever um conto com três partes, anteontem tivemos a primeira parte, ontem a segunda parte e hoje temos a parte final. Espero que tenham gostado. 😉

Mesmo Johnen tendo sido incorporado ao serviço militar alemão, suas funções como soldado eram as mais diversas possíveis, sendo obrigado a limpar pratos, banheiros e até uniformes. Atividades estas que duraram seis longos meses, tempo suficiente para que seus superiores pudessem dispor de maior confiança.

E, em outubro de 1943, Johnen tomou o lugar de Müller, ex-intérprete morto em um bombardeio feito pela RAF, como o novo membro das comunicações alemãs.

Seu trabalho era impecável, muito melhor que no seu posto anterior, pois, desta vez, suas intenções, acreditava ele, estavam do lado certo, defendendo a raça pura, a fim de colocar um ponto final nos ataques inimigos.

– Sim, Senhor! – dizia, sempre que era chamado para prestar seus serviços ao terceiro Reich.
– Johnen, quais são as informações sobre os ataques inimigos?
– Senhor, ao que tudo indica, as forças aliadas estão ganhando terreno na Itália, Senhor!
– Itália… Aquele maldito Mussolini! Não sabe defender seu próprio país, agora temos que direcionar nosso exército para aquela região! Scheiße!

Enquanto seu comandante resmungava, Johnen recebia uma mensagem de Berlim:

“Possível ataque aéreo na região.”

– Senhor, recebemos uma mensagem de Berlim.
– Onde está? – estendendo o braço para recebê-la. – Perfeito… Passe essa informação aos soldados de campo, e rápido!
– Sim, Senhor!

Apesar das tentativas aliadas em dominar a região de Bordeaux, após a “Operation Frankton”, nenhum outro ataque foi massivo naquela região, deixando os soldados confortavelmente instalados, em outras palavras, gastos desnecessários, como tratavam os generais em Berlim.

Assim, após uma semana de calmaria, Johnen recebeu outra mensagem de Berlim, porém, desta vez indicava um deslocamento da inteligência para uma área mais ao norte da França, pois, devido ao avanço da forças aliadas na Itália, se objetivo era conter a invasão aliada mais ao norte e, assim, proteger as principais entradas da Alemanha.

– Vamos, soldados, hora de recolher acampamento, vamos ao norte!

Rapidamente, Johnen saiu de seu posto para obedecer as ordens de seu comandante. Porém, no dormitório, encontrou alguns soldados que os ajudariam no transporte até a nova região.

– Não, nossas forças estão sendo dizimadas na Itália. – respondeu um dos soldados.
– Dizimadas? – perguntou outro.
– Sim. Os ataques massivos estão surtindo efeito. E parece que os aliados estão ganhando território a cada dia.
– E como não fomos informados disso? – perguntou Johnen.
– Eles não falam muita coisa… Sabemos disso pois temos amigos que foram trazidos para os hospitais de campanha. Eles disseram que os aliados estão a caminho de Monte Cassino.
– Eles estão chegando quase em Roma? – espantou-se, Johnen.
– É o que dizem! – respondeu o soldado.

Johnen sentiu um pequeno calafrio. Sabia que se os aliados tomassem a Itália, o próximo passo seria dominar o sul da frança e, então, a Alemanha. Por um momento, este pensamento lhe fez ficar preocupado. No entanto, ele não estava ali para se preocupar, mas para fazer seu trabalho em prol do terceiro Reich.

Durante todo o percurso até o norte da França, Johnen ouvia as mais absurdas notícias, principalmente quando os soldados estavam bêbados devido a comemoração das festas de final de ano.

– Se eu pudesse, teria fugido com meus pais!
– Pois é, não teria sido uma escolha difícil, mas como saberíamos que entraríamos em guerra tão cedo?
– Verdade!
– Do que vocês estão falando!? – perguntou, Johnen. – Aqueles impuros não entendem porquê fazemos isso, eles acreditam que todos somos iguais, mas não somos! Somos alemãe! – vibrava.
– Sim, somos, mas acredite quando digo que, no campo de batalha, a única diferença que possuímos é o lado que escolhemos lugar.
– Exato! – disse outro soldado. – Nosso sangue tem a mesma cor do deles, morremos com os mesmos ferimentos. O que muda, realmente, são as fardas.

Por mais que Johnen quisesse discutir, todos os soldados, que ali estavam, eram partidários daquelas ideias. Nenhum mais acreditava que a história da raça superior era verdadeira, mas continuavam a lutar pela pátria, não mais por um ideal. Além do mais, se não o fizessem, seriam mortos pelos próprios comandantes.

– Deixemos de lado essas histórias, hoje é natal, vamos aproveitar que não há bombardeios para comemorar!

E nos embalos festivos, Johnen se juntou aos companheiros para beber e comer como se fosse um dia qualquer, porém, sem nenhum tipo de ameaças.

Os dias que se seguiram foram revigorantes, pois os ataques haviam diminuído, força das festas de final de ano. Algo que nenhum dos lados gostaria de enfrentar, nesse momento, seriam mortes justamente nessa época.

Assim, com os baixos níveis de combates, Johnen e seus companheiros conseguiram chegar à cidade pretendida, próximo as praias da Normandia, porém, seu posto estava localizado em uma cidade mais no interior, na qual fornecia informações tanto às praias quanto ao interior.

Mas, no dia 4 de janeiro, logo após as festas de final de ano, quando tudo parecia mais calmo, Johnen ouve, na transmissão diária de Berlim, que a batalha por Monte Cassino havia começado, o que lhe trouxe de volta a tão dura realidade da guerra: não há paz até que ela seja declarada.

Johnen já estava desacreditando que os alemães iriam ganhar a guerra, pois, todas as informações que recebia eram de que os aliados estavam conquistando mais e mais territórios, colocando os soldados alemães para correr interior a dentro.

Nunca, em momento algum de sua vida, Johnen duvidou da soberania alemã, mas nos últimos dias de inverno do mês de janeiro de 1944, sua confiança já não era a mesma. Já não ouvia mais os pronunciamentos de Hitler com tanta frequência, parecia que até o grande ditador já não depositava mais esperanças em suas tropas, era como se estivesse órfão; um inverno que nunca havia sentido antes.

Devido às baixas temperaturas e a pouca comida que lhes era fornecida, Johnen acabou permanecendo de cama durante dois dias, os quais foram compartilhados única e exclusivamente com a sua solidão; nem se quer um soldado veio até ele para saber se estava tudo bem. A impressão que teve era que ali ele era somente mais um, e se não pudesse ajudá-los, não os deveria atrapalhar.

Sua volta ao posto trouxe um pouco de ânimo, mas as informações que recebia não eram nada animadoras; as conquistas aliadas cresciam, e as vitórias alemãs se resumiam a poucos dias, até que os aliados conseguissem avançar sobre eles.

– Johnen, relatório! – dizia seu comandante.

Durante todo o mês de fevereiro, seu comandante não lhe trazia nenhuma notícia satisfatória, tudo que requisitava eram os relatórios. Johnen já não estava tão animado quando começou a fazer parte da guerra; já não sentia a mesma confiança.

Mas foi em março que os ânimos de seus companheiro, assim como o seu, voltaram. A ocupação da Hungria pelos alemães foi significativa na melhora dos ânimos dos soldados, sem contar que trouxe uma repercussão negativa para o exército vermelho, o que fez Johnen voltar a ser o que era.

– Não disse? Estamos conquistando bons territórios. – dizia.

Mesmo sem saber que a Hungria não fazia parte dos bom território neste momento, Johnen acreditava que aquela conquista era fundamental, indo totalmente contra seus colegas, que afirmavam ser a Itália um excelente território.

– Não se preocupem, iremos deter as forças aliadas em Monte Cassino, vocês verão! – falava todo empolgado.

E na manhã do 19 de maio, Johnen ouviu pela primeira vez, nas informações enviadas, que os soldados alemães em Monte Cassino foram obrigados a recuar, dando como conquistado o tão estratégico local que seus companheiros diziam. Essa notícia fez Johnen voltar às suas desconfianças, pois, para ele, alemães não recuavam.

– Como assim, recuar?
– Simples, rapaz. – disse um soldado veterano. – Se não podemos vencê-los, devemos morrer ou entregar o território. O que você acha que deveríamos fazer?
– Lutar! – afirmava.
– Vejo que você nunca esteve em uma batalha, não é, intérprete? Ver seus companheiros morrendo sem expectativa de sucesso é como assistir um filme sabendo o final.
– Mas e a luta pela pátria, pelos ideiais?
– Muito bonito no papel! – disse, ao jogar o Mein Kampf sobre a mesa. – Aprenda: palavras são bonitas no papel, mas nas trincheiras, a morte é silenciosa. Nada do você ou qualquer outra pessoa diga irá melhorar a situação de quem está prestes a morrer.

Aquelas palavras foram certeiras. Johnen nunca havia participado efetivamente da guerra, sua única função era interceptar informações aliadas e traduzi-las, ou participar de um interrogatório de algum prisioneiro.

Johnen já não sentia a mesma firmeza vinda de seus oficiais, a palavra de ordem era o medo estampado nos rostos dos soldados. Uns acreditavam que os aliados não ficariam parados somente na Itália, mas que forçariam sua entrada pela frança, também, forçando o exército alemão a recuar ainda mais para o interior da Europa, confinando-os às fronteiras da Alemanha.

Nesse momento de tensão, em 01 de junho de 1944, Johnen intercepta uma transmissão de um poema de  Paul Verlaine, desconhecido por ele, mas conhecido, por um prisioneiro francês que ainda vivia nas prisões alemãs.

Interrogado, o prisioneiro não soube dizer o que aquele verso significava, mesmo após uma sessão de tortura intensa, ele nada falou.

– Mate-o! – ordenou o oficial presente.

E, com um tiro certeiro na nuca do prisioneiro, a ordem fora cumprida.

Johnen nunca havia visto tamanho terror. Por mais que imaginasse, ver a realidade da guerra era cruel. E num lapso de memória, pôde ouvir as palavras de seu pai:

– Foi isso que eu te ensinei? Tratar as outras pessoas como se fossem pequenos insetos?

Realmente, aquele prisioneiro francês, que nem soldado era, fora morto sem o mínimo de preocupação; um tiro, uma vida, um corpo.

Johnen já não era o mesmo. Suas convicções já não estavam tão firmes quanto antigamente. Os relatos dos soldados sobre o campo de batalha eram tenebrosos, corpos e mais corpos empilhados como se fossem um monte de roupa suja, mas relutava a entregar os pontos, afirmava, sem muita convicção, que aquilo era necessário, com se estivesse tentando convencer a si mesmo.

– Não, temos que prevalecer. Se são impuros devem morrer. – repetia em voz alta.

Os dois dias seguintes à morte do camponês, fizeram Johnen sentir um certo medo da morte, algo que nunca havia sentido antes, nem no rigoroso inverno que assolou suas noites em claro, em janeiro passado. Suas noites de sono eram repletas de sonhos tenebrosos. Sonhava que estava no campo de batalha e, fugindo dos inimigos, recebia um tiro certeiro na nuca, e antes que pudesse se dar como morto, lembrava das palavras do soldado, “a morte é silenciosa nas trincheiras”.

Ao acordar na manhã do dia 05 de junho, Johnen tomou um belíssimo café da manhã, com pão e um leite aguado, iguarias de um intérprete de guerra, sendo chamado ao posto por um de seus oficiais, que o requisitou para fazer parte de um outro interrogatório com soldados ingleses.

– Pergunte a ele sobre o poema, Johnen! – ordenou.
– These lines – reproduzindo a gravação. – were broadcast on 1 June 1944. What that means? Answer!

Mas o soldado nada dizia, apenas sorria para Johnen.

– Pergunte novamente!

A pergunta fora feita várias e várias vezes; uma sessão de espancamento e lá vinha a pergunta. Mas tudo o que o soldado fazia era sorrir para Johnen. Irritado com a não cooperação, seu oficial dá uma ordem, porém, desta vez foi uma ordem direta para Johnen.

– Mate-o.
– Eu, Senhor?! – perguntou.
– Sim, está na hora de você aprender o que é matar alguém! Vamos, faça o que lhe é ordenado, soldado!

Sem nunca ter pego em uma arma, Johnen segura a “Luger” que lhe foi oferecida, aponta para o soldado, e antes que o matasse, ele proferiu suas últimas palavras:

– In the war, there is no good or bad, there is only hope.

Ao ouvir suas últimas palavras, Johnen hesitou, o que não deixou seu comandante satisfeito.

– Já disse, mate-o!

Mas Johnen não conseguiu puxar o gatilho.

– Dê-me isso!

E com outro tiro certeiro na nuca, o soldado jazia inerte aos pés de Johnen. O sangue que escorria de seu ferimento chegou a atingir suas botas, manchando de vermelho o preto padrão de suas botas.

O resto do dia havia se passado sem muitas informações válidas, somente algumas mensagens não tão satisfatórias de Berlim, informando que eles deveriam seguir para uma cidade mais próxima das praias. Assim, quando a noite chegara, Johnen já estava instalado numa cidade bem próxima à praia, fazendo o que sempre fazia: traduzir mensagens. Porém, novamente, às 22:15 do dia 05 de junho, Johnen se deparou com outra mensagem que não conseguiu traduzir, sabia que era francês, mas seus conhecimentos estavam restritos ao inglês e alemão.

– Senhor, recebemos mais uma mensagem francesa.
– Scheiße! Berlim já se pronunciou?
– Dizem que faz parte de um poema francês, Senhor.
– E o que quer dizer?
– A tradução que enviaram não quer dizer nada, Senhor.
– Nada? Então porquê estão enviando essas mensagens?
– Não sei, Senhor!
– Mantenha-me informado sobre qualquer novidade, soldado.
– Sim, Senhor!

Johnen permaneceu em seu posto durante toda a madrugada, sendo substituído às 4:50 da manhã. Como tinha costume de fazer, olhou para os céus na tentativa de ver alguma estrela, mas, a pouca luz que aquela madrugada ofereceu, Johnen pôde ver alguns pontos brancos no céu, não eram estrelas, mas tiros de armas antiaéreas que disparavam contra aviões aliados. As explosões dos aviões forneciam um clarão necessário para que pudesse ver vários pontos negros no céu, pontos que cobriam parcialmente a explosão dos aviões. Assustado, Johnen correu para avisar seu comandante, mas antes que pudesse chegar à tenda, foi alvejado na coxa esquerda por um tiro de um paraquedista que acabara de pousar a 2 metros de distância, e ao se virar, viu que o soldado pertencia às forças aliadas. Sua tentativa de comunicação foi interrompida pelo “nein” que saiu sem querer, e antes que o americano disparasse o tiro final, suas últimas palavras foram:

– In the war, there is no good or bad… – sem esperar que ele terminasse a frase, o soldado da 101ª divisão da Airborne disparou um tiro em sua garganta.

Sufocando, Johnen lembrou-se da frase, “nas trincheiras, a morte é silenciosa”.

 

Indico o seriado “Band of Brothers” para os amantes da Segunda Guerra Mundial:

 

 

DVD Band of Brothers – 6 DVDs

 

Adaptado do best-seller de Stephen E. Ambrose, Band of Brothers conta a história da Companhia Easy, 506º Regimento da 101ª Divisão de paraquedistas do exército norte-americano. Na manhã do Dia D, os homens da companhia de elite saltaram na França, lutaram na batalha de Bulge e renderam o quartel general de Hitler em Berchtesgaden.
Com produção executiva de Steven Spielberg e Tom Hanks, também co-diretor, baseada nas entrevistas dos sobreviventes, diários e cartas dos soldados, a produção relata as experiências dos homens que conheceram a coragem e o medo, sofreram incontáveis baixas e acabaram tornando-se lendas.

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Ficha Técnica

Título Original: Band of Brothers
Tempo: 773
Ano de Lançamento: 2010
Elenco: DAMIAN LEWIS & DAVID SCHWIMMER & NEAL MCDONOUGH & COLIN HANKS & KIRK ACEVEDO & EION BAILEY & MICHAEL CUDLITZ & DALE DYE & RICK GOMEZ & FRANK JOHN HUGHES & RICHARD SPEIGHT
Direção: TOM HANKS
Produção: STEVEN SPIELBERG
Legendas: Inglês, Português, Espanhol, Chinês, Tailandês, Coreano, Bahasa-Indonésio
Idiomas / Sistema de som:

  • Inglês – Dolby Digital 5.1
  • Espanhol – Dolby Surround 2.0
  • Formato de tela: Widescreen


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