[Conto] A Vergonha – Der Anfang

Há exatos 72 anos, teve início uma das maiores e mais sangrentas guerras que o mundo moderno já presenciou: A Segunda Guerra Mundial. Uma data que, na minha opinião, não deve ser esquecida, pois, “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” Ernesto Che Guevara.

Devido à data de hoje, resolvi escrever um conto com três partes, espero que gostem da primeira. Amanhã teremos a segunda parte, aguardem!

Johnen Hütter era um jovem austríaco, filho único da família Hütter, nascido em 1921. Quando jovem, seus pais, impulsionados pelo medo causado pela primeira guerra mundial, resolveram partir para os Estados Unidos em busca de uma nova vida.

Johnen sempre fora educado nos padrões americanos, porém, nunca deixou de sentir falta das montanhas nevadas e dos verdes campos; uma imagem que guarda até hoje, de seus fins de tarde. Talvez motivado por essa lembrança, Johnen sempre questionava seu pai:

– Pai, porquê não voltamos para a Áustria, ainda mais agora que parece estar tudo melhorando!
– Melhorando? – perguntava seu pai com um tom irônico. – A única melhora que tivemos foi termos vindo para cá, Johnen.
– Mas pai, dizem que a Alemanha está se tornando um país forte, a comando de um autríaco chamado Adolf Hitler.
– Sim, já ouvi falar deste autríaco e não foram só coisas boas, meu filho.
– Bobagem! – respondia. – Esses noticiários que não dão boas notícias, só isso!
– Talvez.

Johnen estava com 15 anos quando o partido nazista conseguiu a sua primeira vitória, ao reintegrar Sarre – um antigo território alemão que tivera suas jazidas exploradas pelos franceses, durante 15 anos ininterruptos – essa vitória o enchia de orgulho, principalmente por ter sido uma vitória conquistada pelo tão falado Adolf Hitler. Contentamento que não se restringia somente a Johnen, mas também a alguns amigos da escola; tanto americanos quanto europeus possuíam alguma simpatia perante o chanceler da Alemanhã, e alguns deles, inclusive Johnen, já haviam lido seu livro intitulado: Mein Kampf.

No entanto, por mais que Johnen tentasse, seu pai não voltaria para a Áustria tão cedo, ainda mais em momentos tão delicados como os que estavam passando a Europa. Mas uma coisa ele não poderia negar, a Alemanha estava se fortalecendo, tornando-se um país estável e grandioso, após a subida do partido nazista ao poder. Porém, devido ao medo de que seu filho pudesse ingressar numa carreira militar, como tantos que ele ouviu falar, Karl Hütter já havia se decidido, ficaria nos EUA, mesmo que isso significasse nunca mais ver sua terra natal.

A vida da família Hütter, nos EUA, não era fácil. Karl trabalhava como entregador de jornais durante a manhã e no período da tarde se esforçava para poder ganhar um pouco mais como faxineiro nos escritórios da 5º avenida. Já sua mãe, a senhora Johann Hütter, trabalhava em casa como costureira, fazendo pequenos reparos nas roupas dos moradores da vizinhança. Johnen, por outro lado, trabalhava numa pequena fábrica de calçados, ganhando alguns trocados para seus gastos pessoais, pois o dinheiro que seus pais ganhavam servia para as compras necessárias e para a pequena economia que o senhor Hütter mantinha, em caso de futura necessidade; costume desenvolvido por um ex-combatente da primeira guerra mundial. E assim era a vida da família Hütter.

Johnen, diferente de seus pais, sempre mostrou um lado mais revolucionário e ambicioso; um típico adolescente que não seguia muito os conselhos de seu pai. Não havia uma semana em que o jovem não voltasse pra casa com algum machucado no rosto, resquícios de constantes brigas que disputava nas ruas de Nova York.

– Quantas vezes já te disse para não arranjar brigas por aí? – perguntava a senhora Johann. – Quantas?
– Sinto muito, mãe, mas quando me chamam de alemão safado eu não me contenho!
– Tente! – respondia. Olha como você está!?
– Você deveria ver a cara do americano, ficou bem pior. – dizia com um sorriso sarcástico.

Seu pai, que voltava muito tarde para casa, poucas vezes soube das brigas do filho, e quando sabia, era o primeiro a tentar aconselhar o filho para que não fizesse esse tipo de coisa. Porém, Johnen abusava de sua estrutura alemã e acabava por impor a sua vontade perante os pequenos, algo que havia aprendido com as histórias do Mein Kampf.

Impulsionado pelas ideias antissemitas e racialistas, Johnen, já com seus 18 anos, formou um grupo para promover a divulgação das ideias nazistas trazidas por Hitler, cuja aceitação se fez clara nos primeiros meses, chamando a atenção de seus pais.

– O que é isso, Johnen? – perguntava seu pai, ao ver alguns folhetos contendo o símbolo do partido nazista.
– A nova era, meu pai. – respondia.
– Não, não, não… Não quero esse tipo de informação dentro da minha casa! – exaltava-se.
– Por quê? O senhor tem vergonha de pertencer a uma raça superior?
– Raça superior?! De onde você tirou essa ideia?
– Daqui! – respondeu, entregando o livro para seu pai.
– Mas isso é uma bobagem sem tamanho! Não existe isso de raça melhor que a outra, meu filho! A única raça que existe é a humana. Por favor, esqueça essas coisas… por favor! – dizia com um desânimo na voz.

Contudo, por mais que o senhor Hütter tentasse, Johnen se tornava cada dia mais engajado, divulgando ainda mais a ideia de uma raça superior, sobrepujando todo e qualquer jovem que não pertencesse à sua raça. Até que, numa tarde de domingo, logo após a missa, Johnen se excedeu e acabou batendo em um pequeno rapaz de descendência judaica, deixando-o inconsciente a ponto de ter sido levado ao hospital, deixando o senhor Hütter muito desapontado com o próprio filho.

– Foi isso que eu te ensinei? Tratar as outras pessoas como se fossem pequenos insetos?
– Na verdade, nem todas são insetos. Alguns são vermes imundos! – retrucava.

Essa resposta foi a gota d’água para que seu pai tomasse uma atitude que nunca imaginou ser possível.

– Chega! Não criei um ditador! Fiz de tudo para criar um filho do qual pudesse me orgulho, mesmo que fosse limpando pratos em qualquer lanchonete de esquina. – desabafou.
– Está me expulsando de casa, pai?
– Não, de forma alguma! – disse. – Terás que fazer uma escolha, meu filho: os ideais nazistas ou sua família.

Sem dar nenhuma resposta a seu pai, Johnen juntou algumas roupas, guardou os livros, despediu-se de sua mãe e, com um olhar frio, despediu-se de seu pai, que se conteve para não derramar as lágrimas que transbordavam em seu peito.

Alguns dizem que foi coincidência, outros que foi uma pura causalidade, no entanto, Johnen deixou a casa de seus pais no mesmo dia em que foi oficializada a Segunda Guerra Mundial, no dia 01 de setembro de 1939, aos seus 18 anos.


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