[Conto] A Lanterna e o Livro

Aquele pequeno vilarejo tinha um costume estranho. Nos dias que antecediam a chegada do inverno, normalmente em dezembro, todos os moradores penduravam uma lanterna no antigo carvalho, deixando-o totalmente iluminado, costume tão antigo que alguns diziam que servia para espantar os maus espíritos, outros diziam que a luz guiava os viajantes. Porém, na verdade, ninguém sabia ao certo como ele surgiu, só sabiam que não poderiam falhar, mantendo-se assim durante várias gerações, onde pais e filhos produziam as lanternas, enquanto as mães e filhas se encarregavam de seu ornamento.

Antônio era um senhor de 35 anos, encarregado da fabricação de todas as lanternas e pai de dois filhos, Mariana de 13 anos e Matheus de 14 anos. Matheus, desde seus 8 anos de idade, já sabia como preparar o fogo para moldar as lanternas, adquirindo uma habilidade de fazer inveja a qualquer morador do vilarejo.

- Vamos, pai! O inverno está chegando, precisamos separar os moldes, pois esse ano faremos as melhores lanternas que esta vila já viu! – dizia.

Matheus era o orgulho de Antônio, que sempre demonstrava uma enorme satisfação ao exibir as lanternas produzidas por eles. Às vezes, até comentava:

- Se não fosse meu filho…

Porém, apesar da alegria que Matheus lhe dava, Antônio não podia dizer o mesmo de Mariana, uma menina extrovertida, curiosa e leitora compulsiva, lendo até etiqueta de roupa, quando lhe faltava livros. No entanto, apesar da curiosidade, não a utilizava para aprender as técnicas de decoração que sua mãe, Joana, desenvolvera ao longo dos seus 26 invernos como decoradora de lanternas.

- Peça-me qualquer coisa, mas não para decorar essas estúpidas lanternas. Explique-me porquê temos que colocá-las no antigo carvalho que eu ajudarei. – respondia irritada.

Essa discussão constante, deixavam Antônio e Joana muito tristes, não era atoa que Antônio sempre dizia: Se não fosse meu filho…. Entretanto, apesar das reclamações, Mariana sempre acabava ajudando sua mãe, pois, não gostava de vê-la trabalhando até tarde da noite, mesmo que isso significasse fazer algo que fosse totalmente contra seus tenros princípios, que por horas serviam de impulso para lançar críticas à devoção de seu irmão.

- Você é doido em fazer essas lanternas! Não vê que é uma bobagem, Mat?

Matheus, mesmo sendo um ano mais velho que sua irmã, nunca questionou sua irritação, sempre fora muito calmo e dedicado à tradição. Ele acreditava que Mariana um dia iria ceder e parar de fazer tantas perguntas.

- Não faço só pela tradição, Mari, faço porque gosto. Sinto-me bem ao fazê-las.
- A mim, faz-me bem ler um bom livro. Aliás, que tal você ler este aqui? – disse, ao oferecer o livro a Matheus.
- Uma outra hora. respondia.

Essas pequenas discussões sempre aconteciam às vésperas do início do inverno, de um lado, um filho devoto, do outro, a cética. E, assim, ano após ano elas se repetiam, até que no outono de seus 34 anos, Joana perdeu a vida para uma forte pneumonia, deixando dois filhos e Antônio, seu devoto marido, arrasados.

Porém, com o avanço do outono, não era possível manter o luto por muito tempo; as lanternas deveriam ser fabricadas. Assim, pai e filho começaram sua produção, guardando um especial carinho pela lanterna que serviria para homenagear Joana, que este ano não poderia cumprir com sua tarefa de enfeitar as lanternas, deixando este legado a sua filha que, logo após a morte da mãe, já havia afirmado que não iria decorá-las. Mas como sabiam que ela sempre dava o braço a torcer, eles mantiveram suas expectativas. Assim, dia após dia, lanternas eram fabricadas em tempo recorde.

Restando uma semana para o tão esperado dia, a vila encontrava-se em estado de atenção. Os tradicionais enfeites da senhora Joana já não estavam expostos em seu ateliê, a legatária, Mariana, estava quase todos os dias, embaixo de uma árvore, lendo seus tão queridos livros, atitude que trouxera algumas perguntas:

- Antônio, como estão os enfeites?
- Sua filha está novamente lendo livros?
- O que será dessa vila, agora que não temos mais Joana?

A tensão estava instalada. De um lado os cidadãos, de outro Mariana a ler livros.

- Sim, já os estou preparando, não se preocupem. – dizia.
- Não se esqueça, esses enfeites são fundamentais, caso contrário…
- Caso contrário o quê? O que irá acontecer se não forem feitos? – perguntava.
- Ninguém sabe ao certo, mas todos sabemos que não podemos falhar.
- Sempre a mesma história… – retrucava.

Faltando três dias para o início do inverno, Antônio, não suportando o medo, foi procurar sua filha. Sedento por informações, ele abre a porta com toda a força e se depara com gigantesco pedaço de tecido sobre a mesa, do mesmo jeito que Joana havia deixado, meses antes,  Louco de raiva, Antônio vasculho o ateliê inteiro à procura de um enfeite, mas não encontrou. Desesperado, sai em busca de Mariana, chamando Matheus para acompanhá-lo.

- Vamos, meu filho, precisamos encontrar sua irmã, e rápido!

Durante toda a noite, pai e filho procuraram Mariana em todos os lugares possíveis. Porém, sem sucesso, após uma madrugada de procura, voltaram devastados para casa. Antônio já não sabia mais o que fazer, muito menos que tipo de explicação daria aos moradores. Assim, cansado e completamente frustrado, foi se recolher, esperando que um milagre pudesse salvá-los.

Matheus, ainda na flor da idade, continuou procurando Mariana, saindo pelas ruas a perguntar:

- Bom dia, a senhora viu minha irmã?
- Não, não a vejo desde ontem de manhã.

(…)

- Bom dia, o senhor viu minha irmã?
- Não a vejo faz alguns dias. À propósito, como andam os enfeites? – perguntavam.
- Estão lindos, melhor do que os do ano passado. – respondia.

Não havia um indivíduo que não fora questionado por Matheus, mas as respostas eram sempre as mesmas, ou não a tinham visto ou tinham, porém, ninguém a via desde ontem pela manhã. Frustrado, e já no final da tarde, Matheus voltou para a casa.

- Encontrou, meu filho? – perguntava Antônio.
- Não, pai… – respondeu desolado.
- O que vamos fazer agora?
- Acho que é melhor contar a verdade a todos.

Com muito pesar, Antônio marcou uma reunião com os moradores, que compareceram em massa, visto se tratar de um assunto urgente, conforme Antônio havia anunciado.

- Boa noite, meus amigos…

Após o anúncio, o desespero tomou conta da pequena vila, famílias preparavam algumas mudas de roupa, outra já haviam pego o que podiam, entrado em suas carroças para tentar a sorte em qualquer outro lugar que não fosse aquele. Em pouco tempo, a vila estava deserta. Mesmo Antônio e seu filho já haviam largado tudo e acompanhado a romaria a caminho do desconhecido, deixando tudo para trás, até mesmo as lanternas; transformando o antigo vilarejo em uma vila fantasma, enquanto numa cidade, bem longe do vilarejo, Mariana sorria, aconchegada em sua cama, olhando para o livro que havia oferecido a Matheus, cujo o título era “A Farsa das Lanternas”.

Nenhuma notícia foi ouvida acerca de seus moradores. Sabe-se, no entanto, que um casal de namorados, fugindo da fúria dos pais, encontrou abrigo no vilarejo, e devido às histórias contadas pelos seus pais, o casal, no primeiro inverno, pendurou sua primeira lanterna no antigo carvalho.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

  1. Adoreeei!
    Muito bom!
    Mas queria que eles ficassem no vilarejo, para assim eles (e nós, leitores) podermos descobrir se o costume das lanternas era besteira ou se realmente poderia trazer algo de ruim! Mas você adora deixar a gente curioso né? :P

    Muito bem escrito, e como sempre, fiquei imaginando o vilarejo com todas as lanterninhas acesas!

    Beijokas!

    • Sei bem esse sentimento, Manu!
      Aliás, até eu estou curioso pra saber o que as lanternas fazem, pena que a inspiração não veio nesse sentido… eheheh

      Obrigado pelos elogios, mesmo!
      Beijão e vê se não some! ;)

    • Seja bem-vinda de volta, Mila!
      Espero que essa volta seja duradoura!

      Muito obrigado, eu também fiquei um tempo afastado, mas estou voltando aos poucos.
      Beijão e obrigado pelo comentário!