[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 11

Já a caminho de casa, peguei a carteira de cigarro que estava no painel do carro e por mais que eu tentasse parar era quase impossível, principalmente quando algo conseguia me deixar completamente irritado, como foi a pouca conversa que tive com Hermes. Tudo bem que ele havia avisado que o tempo seria curto, porém, todas as vezes que nos encontramos é a mesma história, poucas respostas e muita, mas muitas perguntas largadas, deixando-me às escuras em minhas pesquisas, tendo que descobrir tudo sozinho, ou com pessoas estranhas, como foi com Rubens.

– Droga de isqueiro! – gritei, ao jogar o zippo de lado, buscando o acendedor do carro. – Ma-ra-vi-lha! Agora nem o acendedor está funcionando!

Com cigarro, mas sem isqueiro não seria possível chegar até meu apartamento. Movido pelo vício, parei o carro em frente à primeira padaria que encontrei. Aproveitei para comprar pães, frios, um isqueiro e, por que não, mais uma carteira do bom e velho marlboro light.

– Não, pagarei no cartão. – respondi.

Sacola na mão, comprovante no bolso, sai da padaria para, enfim, fumar meu cigarro tranquilamente. Porém, ao chegar no pequeno estacionamento para pegar meu carro, as únicas coisas que encontrei foi um punhado de vidros quebrados.

– Tá de sacanagem, não é?! – desabafei, com o cigarro no canto da boca.

Olhei para os lados à procura de alguém que pudesse ter visto o furto, mas por mais que olhasse, só carros passavam. Sem muito o que fazer, liguei para a polícia e solicitei uma viatura, a qual me encaminhou até à delegacia mais próxima.

Após algumas horas de perguntas, fui liberado com um simples papel e uma promessa de investigação. Porém, carona que seria bom, nada! Estava à mercê de algum transporte público ou – a possibilidade escolhida – ligar para o Denis, pra que pudesse me buscar.

– Alô, Denis? – perguntei ao estranhar a voz.
– Não, é a Ana. O Denis está largado no sofá. – respondeu. – Está tudo bem?

Provavelmente ela reparou, pela minha voz, que algo não estava bem.

– Olá, Ana. Então… – comecei.
– Você está brincando!? Foi para durante 15 minutos pra eles te levarem o carro?
– Exatamente! Eu também custo a acreditar nisso, já fiz o boletim de ocorrência, e como já está tarde, pensei que o Denis pudesse vir me buscar aqui na delegacia.
– Acho difícil! – brincou. – Tivemos um almoço em família e ele acabou bebendo além da conta. Agora está lá, roncando alto demais, tenho até medo que os vizinhos reclamem.
– Eu imagino. – ri ao responder. – Então tá bom, vou acabar pegando um táxi mesmo, daí eu falo…
– De forma alguma! – interrompeu. – Dê-me uns 15 minutos que eu pego você, sem problema algum.
– Tem certeza, Ana? – perguntei acanhado. – Não quero atrapalhar, vai que o Denis acorda, poderá ficar preocupado por você ter saído a essas horas da noite.
– Imagina! Estou com os meus pais, eles vieram para passar o final de semana, posso pedir para meu pai me acompanhar.
– Nossa, estou atrapalhando o teu final de semana. Esquece, eu pego um táxi. – respondi.
– Para! Já está decidido. Meu pai já está me esperando na porta, dentro de uns 15 a 20 minutos estaremos aí.

Acanhado, consegui responder um simples e rápido obrigado, que foi acompanhado por um “não se preocupe”, de Ana.

Somente depois de alguns minutos, após o nervoso e o acanhamento por fazer a esposa do meu melhor amigo me buscar, que parei para avaliar o estrago. Exatamente, o estrago que aquele roubo havia causado. O carro, rádio e notebook o seguro cobriria, mas o livro que meu pai deixara, esse estava perdido para sempre. Notícia que consumiu quase os 20 minutos de espera. E o pior era que eu havia esquecido de especificá-lo no Boletim de Ocorrência feito minutos atrás, ou seja, se, por acaso, acharem esse livro, talvez nunca mais volte para as minhas mãos. Confuso, porém, esperançoso de que fossem encontrar o carro, voltei à delegacia e procurei o delegado que havia me atendido.

– Olá, com licença.
– Pois não? – respondeu o escrivão.
– Na correria, esqueci de mencionar um item importante que estava no carro. Será que há alguma forma de acrescentar esta informação no Boletim de Ocorrência?
– Infelizmente, essa informação somente com o delegado. – respondeu.
– Claro! – confirmei. – Posso conversar com ele?
– Não, acabou de sair para fazer uma diligência.
– Ah, obrigado. – respondi contrariado.

Impossível não ficar irritado com uma situação dessas, mas, como teria que ser somente com o delegado, desisti e fui esperar Ana do lado de fora da delegacia.

A rua estava vazia quando Ana chegou – 5 minutos após minha conversa com o escrivão.

– Ana, não sei nem como te agradecer por isso.
– Não tem que agradecer nada! Foram tantas as vezes que eu vi você chegar em casa trazendo o Denis nos ombros, portanto, nem comece com bobagens, por favor.

Ana tinha razão, não foi uma nem duas vezes que levei seu marido para casa, depois de uma noite no bar, com os amigos. Você pode estar imaginando o Denis como um alcoólatra, mas não é verdade. Denis sofreu uma lesão no fígado quando era criança, e hoje ele é muito fraco para a bebida.

– Mas, conte-nos o que aconteceu, o que levaram com o carro? – perguntou ela.
– Pra falar a verdade, somente um livro que meu pai havia deixado pra mim.
– Mas era um livro importante? – perguntou, antes de ser foi interrompida por seu pai.
– Se era importante, Ana? O rapaz acabou de dizer que foi o pai dele que deu. Claro que o livro é importante.
– Ah, eu sei, mas vai que era um livro comum, algo que podemos comprar em uma livraria ou sebo. Às vezes não é por que deixaram pra gente que é importante, não é verdade? – retrucou acanhada.
– Verdade, Ana. – tentando acalmar os ânimos. – Mas esse era insubstituível, sem dizer que tive o prazer de pegá-lo hoje, somente.
– Nossa, então a perda foi grande. – respondeu.
– Infelizmente… Bom, só espero que a polícia consiga encontrar o carro, pois as chances do livro estar nele são grandes, pois não tem valor algum de mercado, só sentimental.
– Sendo assim, vamos torcer pra que tudo dê certo. – disse, sorrindo pelo retrovisor.

No entanto, antes que alguma outra palavra fosse dita, meu celular anunciou um número desconhecido.

– Alô? … Sim. … Acharam!? … Claro, estou a caminho!
– Acharam o carro? – perguntou Ana.
– Sim! – respondi. – Agora eu tenho que ir até a delegacia para verificar o carro. Será que você pode me deixar na esquina, parece que ainda tem alguns táxis lá.
– Táxi? De forma alguma! – já procurando um retorno.

Como ainda estávamos próximos da delegacia, não foi preciso nem 5 minutos para estar de volta, e do estacionamento já dava pra ver o meu carro parado.

Entrei apressado pelas portas da delegacia, o escrivão, quando viu a cena, logo me chamou a atenção, informando que não era permitido correr dentro do prédio, eu, que já pouco me importava com a opinião dele, disse que haviam me ligado pois meu carro fora encontrado.

– Sim, nós ligamos para o senhor. – respondeu. – Queira me acompanhar, por favor.

Após todas as explicações do delegado e das assinaturas que fui obrigado a dar, levaram-me até meu carro. A primeira coisa que fiz foi procurar pelo livro, pois, como havia dito, o restante o seguro cobriria, no entanto, a única coisa que estava faltando no automóvel, além do vidro quebrado, era o livro.

– Doutor, o carro foi encontrado ou apreendido? – perguntei ao Delegado.
– Encontramos ele estacionado em um shopping da zona oeste.
– E a pessoa que estava com ele não foi encontrada?
– Não, infelizmente não. – respondeu. – Recebemos uma ligação do segurança do estacionamento, pois ele suspeitara do vidro quebrado, mas não localizamos a pessoa que estava dirigindo. A única informação que tivemos foi de uma suposta testemunha que nos deu uma descrição de um homem na meia idade, cabelos ralos, barba cumprida e roupas escuras. O senhor conhece alguém com essa descrição? – perguntou.

Não foi preciso ter uma descrição completa para saber quem era o suspeito: Rubens!


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