[Conto] Jack, o Estripador

Antes de começar este conto, algumas informações necessárias:

  1. O Conto é baseado em fatos reais e inspirado pelo Podcast LXXVI – Jack, o Estripador, do Escriba Café, produzido por Christian Gurtner, premiado por dois anos seguidos como o Melhor Podcast do ano, pela escolha do Júri.
  2. Os textos em destaque fazem parte da transcrição do Podcast LXXVI, previamente autorizados pelo Autor.
  3. A narrativa é feita pelos olhos do assassino, desde o planejamento até a execução do assassinato de Elizabeth Stride e Catherine Eddowes.
  4. Para mais informações, veja no final do conto a ficha técnica. E não deixem de ouvir o Podcast LXXVI, pois o trabalho feito por Christian Gurtner é excelente.

 

 

Manhã do dia 10 de setembro de 1888, 8h da manhã, uma segunda-feira.

Apesar de ser verão, a manhã chuvosa deixava a tristeza e melancolia espalhados pelo ar, algo, com o qual, Londres já estava acostumada desde o último dia 31 de agosto de 1888, quando o terceiro assassinato fora anunciado: Prostituta é Assassinada em Whitechapel. A notícia da morte de Mary Ann Nichols – prostituta e alcoólatra -, nas ruas mal iluminadas de Whitechapel, teria passado despercebida senão fosse pela notícia desta manhã: Corpo Mutilado é encontrado novamente nas ruas de Whitechapel.

“De acordo com as palavras do Dr. George Bagster e do Dr. Philips, que analisaram o corpo no local do crime às 6:30h da manhã:

“O braço esquerdo foi posicionado sobre o seio esquerdo, as pernas estavam abertas e o rosto virado para o lado direito. O corpo estava terrivelmente mutilado. Havia um profundo corte em volta do pescoço, o que pareceu uma tentativa frustrada de decapitar a vítima. O abdômen estava completamente aberto. O intestino da vítima fora retirado e posicionado ao lado do ombro direito. O útero, a porção superior da vagina e os ovários também foram retirados, mas não foram encontrados. Os cortes foram precisos e indicavam que quem os fez possuía grande conhecimento em anatomia humana, e que todos os cortes pareciam ter sido feitos com o único objetivo de retirar os órgãos desaparecidos”

Os investigadores concluíram que a vítima fora estrangulada até ficar inconsciente e então teve sua garganta cortada.”

A notícia alastrou-se como fogo. Essa morte, somada a outras duas (Emma Elizabeth Smith e Martha Tabram), possibilitaram a criação de especulações em todas as rodas de conversa:

– Eu disse, é o mesmo assassino! – anunciava o Senhor Conway.
– Não pode ser! – respondia outro. – Como uma única pessoa teria coragem de cometer tais atrocidades?
– O Diabo! – gritava uma senhora. – Salvem-se todos!

No entanto, a polícia já não tinha tanta certeza de que os quatro assassinatos foram cometidos pela mesma pessoa. Na verdade, acreditavam que os últimos dois foram, sim, cometidos pelo mesmo assassino, pois não possuía ligações diretas com os dois anteriores.
Assim, as investigações se focaram nos últimos dois crimes, alguns suspeitos foram detidos e interrogados, porém, liberados por falta de provas contundentes; uns não se encaixavam na cena, outros não dispunham de habilidades suficientes para cometer tal atrocidade. Fatos que davam à polícia mais trabalho em suas investigações.
Porém, para aquele homem, esta manhã, em particular, estava repleta de alegrias, pois, seus crimes haviam despertado o horror e medo na população. Para aquele homem, as conversas que ouvira nos bares, traziam um único sentimento: o prazer.
Sentado, ele lia e relia a notícia, observando as reações das pessoas enquanto saboreava seu café da manhã. A cada “assassino” que lia, seu peito inflava, trazendo consigo o prazer de ser o desconhecido mais procurado pela polícia, a pessoa que todos discutiam, criticavam e, alguns, até apoiavam, porque, para certas pessoas, prostitutas deveriam ser queimadas como bruxas. Mas, para ele, ser severo com aquelas mulheres tinha uma única explicação: as prostitutas estavam sempre dispostas a um passeio pelas ruas pouco iluminadas, ou quase escuras de Whitechepel.

– Uma xícara de café, por favor. – pediu.

O atendente, sem delongas, começou o assunto:

– O senhor viu que absurdo? Mais uma prostituta mutilada. Está cada vez pior a vida neste lugar. – desabafou. – Primeiro os imigrantes, depois as prostitutas e agora esses assassinatos! Como posso ter um estabelecimento aqui?

Ele observava e ouvia o que o rapaz tinha a dizer, mas manteve-se quieto, pois, mais parecia um desabafo do que uma conversa.

– E o senhor, como morador, o que acha disso? – perguntou. – Acredita que é o mesmo assassino dos outros dois anteriores?

Apesar de não gostar de ouvir a comparação entre os assassinatos e suas obras de arte, uma coisa ele não poderia deixar de concordar: dar crédito a uma única pessoa, pelos assassinatos anteriores, aumentava o medo da população. Por isso, ainda com o jornal em mãos, olhou bem para o rapaz e respondeu com toda a simplicidade que encontrou:

– Sinceramente? – argumentou. – É possível, mas pode não ser o mesmo.
– Por que não seria? – perguntou, ao ver a certeza com que ele respondia.
– Simples, meu caro. – começou. – Se realmente for o mesmo assassino, perderemos a fé na polícia. – e, aguardando alguns segundos, continuou. – Pois até agora nenhum desses crimes foram solucionados.
– Credibilidade? Qual a credibilidade que a polícia tem neste lado da cidade? Vivem aqui somente a escória londrina, com o quê eles estão preocupados em solucionar!? – desabafou.

Aquele comentário já valia sua vinda ao bar. Saber que todos pensavam o mesmo que ele, não tinha preço! Tais comentários aumentavam ainda mais a certeza que tinha de nunca ser pego. Mas, somente aquele comentário era pouco, precisava ouvir mais; precisava se gabar de seus trabalhos.

– E o senhor, concorda que é uma atrocidade, como alguns estão dizendo? – perguntou, tentando, ao máximo, não transparecer a felicidade que a palavra “atrocidade” lhe causara.
– Sem dúvida alguma, meu senhor! Tudo bem que são prostitutas e estão sujeitas a qualquer tipo de sofrimento, mas serem mutiladas, isso é doentio! – esbravejava, chamando a atenção de alguns outros clientes.

O pobre atendente nem poderia imaginar como aquelas palavras lhe traziam alegria. Como a raiva em seus olhos o colocavam em um estado de êxtase. Tamanha era sua alegria que, sem nem pensar, levou a mão junto ao bolso do sobretudo para tocar a faca afiada, ainda suja com o sangue de sua última vítima. Sua vontade era voltar correndo para casa e admirar mais uma vez os troféus conseguidos na noite anterior: um útero, os ovários, a porção superior da vagina e, o que ninguém sabia, um frasco contendo o sangue da vítima. Mas, manteve-se calmo e continuou a conversa com o atendente.

– Sim, sem dúvida. – concordou.

Ela já havia terminado seu café da manhã, assim como a conversa com o atendente, deixando-o livre para caminhar pelas ruas molhadas de Londres, rumo ao museu mais próximo, lugar que adorava visitar depois de suas caminhadas noturnas, mesmo sabendo que suas obras nunca seriam expostas em lugares desse tipo. Mas, antes que decidisse voltar a sua casa, deparou-se com um belíssimo quadro de Walter Sickert, no qual, uma mulher nua permanecia sobre a cama, imóvel e sem vida. Essa imagem lhe trazia paz, calma e, principalmente, desejo em replicá-la.
Saiu às pressas do museu. Chegando em sua casa, procurou pelos seus troféus e, retirando-os do altar, colocou-os sobre a cama, como se estivesse a replicar o quadro que acabara de ver.

– Lindo! Lindo! – gritava, ao admirar os órgãos sobre a cama.

A semana avançava e as notícias sobre os assassinatos ocupavam espaços menores entre as páginas dos jornais. Durante os 3 primeiros dias a notícia estampava a primeira página, contando histórias de supostas testemunhas e de policiais envolvidos no caso, situações que lhe davam prazer. Porém, já perto do final da semana, a mesma notícia se distanciava dos holofotes, colocadas no meio do jornal e com pouco destaque, despertando pouca atenção, ou quase nenhuma, de seus leitores.
Nas ruas, as pessoas já não comentavam como antes, e a vida tomava o seu rumo costumeiro. Situações que o deixava completamente irritado. Como poderiam ter esquecido de sua obra, como? Pensava ele.

Movido pelo desespero, dirigiu-se à delegacia de polícia em busca de novidades. E, para sua alegria, conseguiu ouvir a conversa do líder do Comitê de vigilância, George Lusk.

– Comissário, alguma novidade nas investigações sobre o caso de Annie Chapman, ou de Mary Ann Nichols?
– Somente as de costume, caro Lusk. – respondeu, Sir Charles Warren. – Mas, fique tranquilo, porque será o primeiro a saber, caso tenhamos algo de sólido nas investigações.

Apesar de constatar que a polícia ainda não havia desistido de encontrar o assassino, aquela conversa não o agradou como imaginou que poderia. A polícia referia-se ao seu trabalho através do nome das vítimas, ao invés de seu nome. Para ele, estava explicado porquê os leitores perderam o interesse: eles não tinham um nome a dar para os assassinatos.

Durante toda a tarde do dia 20 de setembro de 1888, seus passeios resumiam-se a uma única busca: qual nome seria mais adequado? Deveria ser um simples, rápido e forte, nada como: O Assassino de Whitechapel; ou Maníaco Estripador. Não! Um nome que colocasse medo. Isso! Medo, dizia ele. Empolgado com sua inteligência, foi até a livraria mais próxima procurar, nos livros, o nome de um personagem que colocasse medo ao ser pronunciado. Algo que demonstrasse as “atrocidades” que cometera.

Chegando na livraria, perguntou ao livreiro quais os livros de terror que ele dispunha, pois, acreditou que em algum desses livros ele encontraria a resposta para sua pergunta.

– Aqui, senhor. Estes são todos os livros mais recentes que possuo. – disse, ao colocá-los sobre a mesa. – Mas este. – indicando o livro: “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde“, de Robert Louis Stevenson (O médico e o monstro, em português). – É o que mais vende.

Ao pegar o livro nas mãos para ler o título, um forte calor percorreu sua espinha, pois, aquele nome que ele tanto procurava era perfeito! Mas, se ele usasse o nome Jekyll, as investigações poderiam tomar outro rumo, focando em possíveis leitores interessados, ou compradores.

– Não, não posso dar esse gosto a eles. – murmurava.

E, para não levantar nenhuma suspeita, deixou os livros de terror de lado, acabando por comprando o livro “A Study in Scarlet“, de Arthur Conan Doyle (Um estudo em Vermelho, em português).

– Não levará um livro de terror? – perguntou o livreiro.
– Não, ficará para um outro dia. Com todos esses assassinatos, prefiro um bom romance policial. – respondeu.
– Verdade. – confessou o Livreiro. – Antes tivéssemos um Sherlock Holmes para solucionar estes casos. – brincou.

E com um sorriso largo, despediu-se e foi para sua casa pensar em como usaria aquele nome: Jekyll.

Durante todo o caminho, a ideia de dar um nome para ele e seus trabalhos, trazia a mais pura alegria. Primeiro havia demonstrado seu trabalho, agora iria mostrar quem é o autor da obra; tirar uma vida e, agora, dar vida ao personagem, transformava-no em um Deus, praticando sua obra divina nas ruas de Londres.

Ao chegar em sua casa, jogou o livro de canto e pegou um papel e caneta. Sentou-se a mesa e começou a rabiscar o nome Jekyll: uma, duas, três, tantas vezes quanto coubessem no papel. Mas, sem ideias, queimou o papel para não deixar vestígio algum, e pôs-se a repetir o nome em voz alta.

– Jekyll, Jekyll, Jekyll…

Mas já na quinta vez, parou e, novamente, puxou um papel para anotar.

– Por que não pensei nisso?! – disse, ao terminar de escrever.

E, ao invés de escrever Jekyll, escreveu a palavra que possuíra a pronúncia mais próxima: Jackal (Chacal, em português).

– Brilhante! – gritava empolgado. – Brilhante! Mas não posso associar o meu trabalho a um animal, preciso que seja um nome, algo simples, comum e que traga medo quando pronunciado.

Sem muito esforço, concluiu:

– Sim! – entusiasmado, soletrou. – J-A-C-K; Jack, o Estripador! Perfeito!!

Durante os dois dias seguidos, o então, Jack, o estripador, planejava a melhor forma de se apresentar.

Ele não queria que fosse através de mais uma vítima, era preciso que fosse algo que demonstrasse sua destreza, que provasse para todos que ele nunca seria pego por aquela polícia incapaz. Foi, então, que Jack decidiu escrever uma carta para o Sir Charles Warren, o então, Chefe de polícia. O texto, além de ser rápido, deveria conter informações que provassem sua autenticidade.

– Sim, sim! – repetia. – Eles sentirão arrepios ao verem do que sou capaz. Ha Ha Ha…. – gargalhava.

Correndo, puxou o frasco contendo o sangue de sua última vítima, pegou a pena mais próxima e…

– Não!!! Não!!! Nãããoo… – desesperado, Jack joga o frasco no chão, espalhando sangue por todo o assoalho.

Arrependido por ter desperdiçado um de seus troféus, Jack se acalma, limpa o sangue da vítima e busca em seus armários uma tinta vermelha. Recuperado, pega o papel e escreve a primeira carta (conhecida como “Dear Boss“).

Logo pela manhã do dia 25 de setembro de 1888, Jack, o estripador, vai até a agência dos correios e envia sua carta à Agência Central de Notícias.

“Querido Chefe,

Eu continuo ouvindo que a polícia me pegou, mas eles não vão eliminar-me ainda. Eu dei gargalhadas quando eles pareciam tão espertos e falando sobre estarem no caminho certo. A piada com o tecido ensanguentado me divertiu bastante. Sou bastante severo com prostitutas e não vou parar de estripá-las até ser preso. Meu último trabalho foi uma grande obra. Não dei nem chance de a dama gritar. Como eles podem me pegar agora? Eu adoro meu trabalho e quero começar de novo. Você em breve vai ouvir falar de mim e meus joguinhos divertidos. Eu guardei um adequado líquido vermelho do meu último trabalho em uma garrafa para usar na minha caneta para escrever, mas ele tornou-se grudento como cola e não pude usá-lo. Mas tinta vermelha serve o suficiente, eu acho ha.ha. Em meu próximo trabalho eu arrancarei as orelhas da vítima e enviarei para a polícia só por diversão. Guarde essa carta até eu realizar um pouco mais e então pode descartá-la. Minha faca é tão boa e afiada que eu quero voltar a trabalhar imediatamente se eu tiver a chance.

Boa sorte,
Sinceramente,
Jack, o Estripador
Não se importe em me dar o nome.”

Cinco dias depois, na madrugada do dia 30 de setembro de 1888, o joalheiro, Louis Diemschutz, entrou “com sua carroça em um beco quando seu cavalo simplesmente se recusou a continuar”. O joalheiro desceu de sua carroça para ver o que havia acontecido, pois não conseguia entender porquê seu cavalo não continuava seu caminho, porém, antes mesmo que pudesse acalmá-lo, viu o corpo de uma mulher no chão. Imaginando que ela pudesse estar bêbada, Louis procurou ajuda pelas ruas, mas quando tentaram movê-la, perceberam que já não existia mais vida naquela mulher, pois sua garganta havia sido cortada.

Não demorou muito para que a polícia aparecesse para confirmar a morte da mulher, identificada como a prostituta Elizabeth Stride. As pessoas estavam em alerta, assim como Jack, pois, apesar de ter conseguido mais uma vítima, não conseguira cumprir a promessa que havia feito em sua carta: retirar a orelha da prostituta.

– Malditos! Malditos! – repetia, escondido próximo do local.

Ao ver que o joalheiro havia saído para procurar ajuda, correu o mais rápido possível, pelas ruas escuras de Whitechapel, preocupado em ver se estava sendo seguido.

Após várias quadras, Jack já estava mais calmo e recuperado do fracasso que tivera. E caminhando tranquilamente pelas ruas, ouve uma voz feminina:

– Procurando alguma diversão? – perguntou a prostituta. – Será que não posso ajudá-lo?

Movido pela raiva, Jack olhou para os lados e não viu ninguém para atrapalhar sua obra e, rapidamente, sacou a faca afiada do bolso e com um golpe certeiro, cortou a garganta de Catherine Eddowes, que não teve tempo de gritar. Assim que o corpo de Catherine permaneceu inerte, Jack, mais uma vez, corta seu abdômen, arrancando o intestino e estômago, colocando-os cuidadosamente ao lado direito da vítima – peças desnecessárias para sua coleção -, o que ele procurava era o ventre da prostituta, o qual retira e guarda com cuidado em sua bolsa, e, como havia prometido, corta a orelha direita de Catherine, enrolando-a em um pedaço de pano que cortara das vestes da vítima.
Feliz com a sua conquista, Jack dá o último passo para confirmar a autenticidade de sua carta, ele retira o tecido usado para enrolar a orelha da vítima e o pendura em um muro, escrevendo a seguinte mensagem:

“Os judeus são os homens que não serão responsabilizados por nada.”

Com esse último toque, Jack, o Estripador era o verdadeiro assassino de Whitechapel.

 

[learn_more caption=”Mais Informações:”]

  • Conheça mais sobre a história de Jack, o Estripador – Wikipédia (em português);
  • Veja como foi as investigações e os principais suspeitos – Metropolitan Police (em inglês);
  • As Cartas enviadas pelo suposto Jack, o Estripador – The National Archives (em inglês);

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