[Informativo] Apartheid Linguístico

Em um país onde a leitura atinge índices tão baixos, conforme apresentado no texto Por que o Brasileiro lê pouco, vê-se o descaso perante o ensino da língua portuguesa com a distribuição do livro: Por uma Vida Melhor, pelo Programa Nacional do Livro Didático do Ministério da Educação (MEC), que atingirá 485 mil estudantes de ensino fundamental (antiga 8ª série, hoje 9º ano).

No livro, de autoria da professora Heloísa Campos, utilizar o português TOTALMENTE informal é perfeitamente correto. Segundo o texto extraído do livro (abaixo), dizer “os livro” é perfeitamente normal!

“Você pode estar se perguntando: Mas eu posso falar ‘os livro?‘. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.”

Portanto, para a autora, a concordância verbal é desnecessária na língua falada desde que o indivíduo tome cuidado para não utilizar esta forma na frente de pessoas cultas, porque, se assim o fizer, sofrerá o preconceito linguístico ao qual ela se refere. Outros exemplos ainda são demonstrados no livro, tais como:

  • Nós pega o peixe;
  • Os menino pega o peixe.

Segundo à autora, a ideia do livro, com seus grotescos erros de português, é explicar para o aluno que a língua falada é dinâmica e, principalmente, voltada ao público para quem se fala. Ou seja, utilizar um português rebuscado para abordar um cidadão sem estudo e com pouco conhecimento do português pode prejudicar a transmissão da ideia. Logo, comunicar-se de acordo com seu interlocutor seria a forma mais correta.

De certa forma, tal conceito não está completamente errado. Realmente, a língua é um organismo vivo e dinâmico que não  necessita do uso correto para que a mensagem seja transmitida. Porém, apesar da boa intenção da autora, ensinar tais ideias em tão tenra idade poderá gerar um vício de linguagem prejudicial ao indivíduo, vejamos: Se o indivíduo, acostumado ao uso incorreto do português, chegar na escola e verificar que no livro fornecido pelo MEC a forma que ele utiliza está correta, certamente adotará aquilo para o resto da vida, pela lei do mínimo esforço.

Tal prática, entretanto, deveria ser focada em fase posterior, onde o aluno já dispõe de um conhecimento extenso da língua, explicando que há, na verdade, variações entre a língua falada e a escrita, e que podem ser utilizadas, dependendo do interlocutor, somente na fala.

A língua, com certeza, é um organismo vivo que requer adequações de acordo com a passagem do tempo, conforme as já incorporadas pelo Acordo Ortográfico de 2009. No entanto, segundo a brilhante análise (texto abaixo) do ex-ministro da Educação, Cristovam Buarque, mostrar a desnecessidade da concordância, apresentada pela professora Heloísa Campos e adotada pelo MEC, implicaria num “apartheid linguístico” que colocaria de um lado o português do rico e do outro o português do pobre.

“O livro passa a ideia de que não faz mal falar errado, de que não é problema falar de uma maneira diferente da convencional. Isso termina levando algumas pessoas a não fazer um esforço em falar o português correto e cria esse ‘apartheid linguístico’. Numa sociedade com a brasileira, acabamos criando o português do rico e do pobre.”

ISTO É 2167 25/05/2011

É através da educação que o país cresce. Seja um crescimento económico ou social, a educação é a base para a redução das desigualdades. Assim, permitir a adoção de um livro que expõe como certo a desnecessidade da concordância verbal não ajudará na melhoria da educação a que o Brasil aspira. E, por isso, este autor concorda com a procuradora da República Janice Agostinho Barreto Ascari, do Ministério Público Federal, ao afirmar em seu blog que tanto o MEC quanto os autores do livro “estão cometendo um crime com os nossos jovens, prestando um desserviço à educação já deficientíssima do país e desperdiçando dinheiro público com material que emburrece em vez de instruir”.


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