[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 10

Antes que as perguntas começassem, Miguel me conduziu até o sofá, pedindo a Rita, sua esposa, que trouxesse alguma bebida quente; um chá, disse ele. E, enquanto Rita estava de saída para a cozinha, colocou-me sobre as costas uma manta azul escura que cobria o velho sofá.

– Meu rapaz. – começou Miguel. – Estás louco em ficar parado nessa chuva? Por que não tocou a campainha assim que chegou à porta? – perguntou. – A não ser que queria pegar alguma doença, claro. – brincou, enquanto aguardava Rita com a bebida quente.

Miguel e Rita foram amigos pessoais de meu pai, um casal em que ele sempre confiou seus pensamentos e perdas. Tamanha era a afinidade, que foram eles as primeiras pessoas que o ajudaram após a morte de minha mãe, e, eventualmente, auxiliaram durante a minha infância; apesar de não ter recordações desses momentos. Meu pai sempre dizia que Miguel era um amigo de altíssima confiança, uma pessoa que ele sempre pôde contar nos momentos mais difíceis de sua vida.

Minha vontade era fazer com que Miguel parasse com o interrogatório, mas foi Rita que conseguiu interrompê-lo, ao aparecer com três canecas de chá.

– Miguel, não vê que o rapaz está abalado? Pare com essas perguntas e vá buscar uma muda de roupas. Se não me engano, estão no armário do meio. – disse. – Suba e pegue-as o mais rápido possível, por favor.

Miguel olhou para Rita, ele sabia que ela só estava tentando me deixar mais confortável, por isso, subiu as escadas e foi buscar as roupas.

– Não se preocupe, meu rapaz. – disse ela. – Miguel é um tanto protetor, se é que me entende. – brincou. – Vamos, tome um pouco do chá, ele irá te ajudar a se sentir mais confortável, acredite. Só tome cuidado por que está…
– Quente! – gritei.
– Exatamente. Eu tentei te avisar. – sorriu, ao ver que Miguel já estava de volta com a muda de roupas nas mãos.
– Aqui. – disse Miguel. – Use o quarto de hospedes para se trocar.

O máximo que respondi foi um simples “obrigado” ao deixar a caneca sobre a mesa de centro, pegando as roupas e indo em direção ao quarto. Ao me levantar, Miguel quis me acompanhar, achando que eu não conhecia o caminho, mas fui obrigado a responder:

– Não precisa, Miguel. Conheço a casa.

Miguel e Rita se olharam e soltaram um sorriso discreto enquanto eu caminhava até o final do corredor.

Ao entrar no quarto, percebi que as lembranças que tivera de meu pai ainda permaneciam comigo, principalmente pelo ao ver a disposição da mobília; tudo estava como antes, era como se houvesse voltado no tempo, porém, desta vez, somente nas lembranças – dois acontecimentos no mesmo dia seriam demais para uma pessoa só.

As roupas de Miguel, apesar de folgadas, possibilitaram meu retorno à sala sem que molhasse o assoalho, sofá e os próprios anfitriões.

– Está vendo, Miguel, até que não ficaram grandes. – disse, Rita.
– Como se fizesse alguma diferença, não é verdade? – respondeu. – O rapaz estava congelando. Agora ele está mais agasalhado e quem sabe não pegue uma gripe.

A discussão estava prestes a iniciar se não fosse a minha pequena interrupção.

– Não sei nem como agradecê-los. – disse. – Miguel, a roupa está perfeita, não precisa se preocupar. – afirmei, tentando acabar com a discussão. – E você, Rita, já se preocupou demais: as roupas, o chá. Não tenho como agradecê-los.
– Que isso, querido. – disse ela. – Agora, venha, sente-se conosco. Faz tanto tempo que não conversamos.

Realmente, a última conversa que tivemos foi durante a venda da casa, que ocorreu há mais de 7 anos. Porém, infelizmente, as guinadas da vida acabaram por colocar as antigas amizades de lado, forçando minha atenção somente para a área profissional, o que gerava um certo desconforto, principalmente pelo fato deles terem sido tão simpáticos a ponto de me acolherem dessa forma tão aconchegante.

– Agora que você já está um pouco mais corado, diga-me: O que você estava fazendo parado na chuva? – perguntou Rita.

– Não sei dizer ao certo, Rita. – respondi. – Eu estava a caminho do meu apartamento quando, de repente, encontro-me em frente a vossa casa, parece que fui trazido até aqui pelas lembranças de meu pai.

– Interessante. – disse Miguel. – Faz-me lembrar das histórias de seu pai.
– Que histórias, Miguel? – perguntei, com um tom de curiosidade.
– Uma certa vez. – começou. – Estávamos conversando sobre sua pesquisa e ele comentou que havia certos momentos em que ele simplesmente aparecia em algum local sem que fosse sua intenção.
– Aparecia? Como assim? Ele estava em um lugar e depois em outro? – perguntei, tentando extrair qualquer informação que pudesse me ajudar com as viagens que estava presenciando.
– Não! De forma alguma. Era como se suas lembranças o levassem àquele determinado local, como se seus pés acompanhassem suas memórias ao invés de acompanhar suas vontades.
– É, parece que eu e meu pai temos muito em comum, afinal de contas.
– Sem sombra de dúvidas, meu jovem. – confirmou Miguel. – Mas conte-nos, casou, tem filhos?
– Não, nada disso. Por enquanto estou arrumando a minha vida profissional.
– Uma pena… – interrompeu Rita. – Filhos são uma benção divina. Infelizmente, não tivemos essa sorte. – completou, com um certo descontentamento no olhar.
– Mas temos um ao outro, minha querida, e somos felizes assim. – disse Miguel, ao segurar a mão da esposa.
– Verdade, meu querido. – respondeu, com os olhos marejados.

Enquanto Miguel e Rita ainda consolavam um ao outro, levantei e fui vasculhar os livros dispostos na estante da sala, alguns bem parecidos com os que meu pai possuía, livros sobre história, principalmente.

– Bela coleção que vocês têm aqui, Miguel. Faz-me lembrar os antigos livros de meu pai. – disse, interrompendo o momento dos dois.
– Sim, sim… Tínhamos um amor pelos livros, isso é verdade, meu jovem. – respondeu. – Aliás, acredito que tenho um livro aqui que pertence a você. – disse. – Encontramos não faz nem 2 semanas.
– Pertence a mim, por quê? – perguntei.
– Bom, pelo fato de estar embrulhado e com um bilhete de teu pai. – respondeu. – Nós o encontrámos no sótão, estávamos pra te ligar, mas acabamos esquecendo. – disse.
– Ele estava muito bem guardado. – completou Rita. – Aliás, poderia até dizer que estava escondido, pois estava no fundo de uma caixa de enfeites de natal. Talvez seja um presente esquecido? – supôs, com um sorriso nos lábios.

Miguel até narrou a cena, explicando os detalhes de como o haviam encontrado, brincando com as possíveis formas de como ele fora esquecido dentro da caixa.

– Vá lá, Miguel, pegue o livro pro rapaz. – insistiu Rita. – Antes tarde do que nunca, não é? – sorriu ao olhar pra mim.

Miguel subiu as escadas e trouxe o embrulho nas mãos.

– Só espero que não seja um livro infantil. – brincou.

Como Miguel havia dito, realmente existia uma anotação no envelope, ainda lacrado, que dizia: Ao meu pequeno prodígio. Sem muita cerimônia, abri o envelope.

“Meu filho, desculpe por não entregá-lo pessoalmente, mas acredito que este livro será de grande ajuda. Com amor, teu pai.”

Rapidamente, abri o embrulho e, ao ver o símbolo na capa, assustei-me. Era nada mais, nada menos que o símbolo da terra. Fiquei ali, observando o símbolo do livro, lembrando do que havia acontecido comigo na Biblioteca de Duat. Lembrei-me até da marca que essa viagem deixara em meu braço, mesmo que já não oferecesse nenhum incomodo, ainda era capaz de senti-la em impressa em minha pele.

– Está tudo bem, meu rapaz? – perguntou Miguel.

Se não fosse por Rita, não teria prestado atenção à pergunta de Miguel.

– Sim, estou… – respondi.
– É que ficaste tão distante depois que abriu o embrulho. – comentou. – Aliás, sobre o que trata o livro?
– Não sei ao certo. – omiti, e virando o livro pra ele, perguntei. – Por acaso, Miguel, você sabe alguma coisa sobre esse símbolo?

Após Miguel ter pego o livro nas mãos e ter olhado bem para o símbolo, virou-se para Rita e perguntou:

– É o símbolo da Terra, não é?
– Sim. Lembra muito aquele pingente que Lúcia carregava, não?
– Minha mãe? – interrompi.
– Sim, sua mãe, meu jovem. – respondeu Rita.
– É verdade! Ela tinha um símbolo igual a esse, em seu colar. – confirmou Miguel. – Lembro-me muito bem desse pingente, ela sempre o carregava.
– Alguma vez vocês perguntaram porquê ela usava esse pingente?

Mas a resposta que obtive foi um duplo não.

– Talvez você encontre o significado nesse livro, não?
– É o que eu espero, Miguel. – respondi.

A conversa se desenrolou, ambos contavam histórias sobre minha mãe, de como ela era bonita, cheia de vida e, por fim, do trágico acidente que acabou com sua vida. Histórias que meu pai já havia me contado diversas vezes; coisas comuns, mas que, pra mim, era uma delícia de ouvir. Porém, como a hora já havia avançado demasiadamente, e precisava voltar pra casa, especialmente para analisar o livro que ganhara, fui obrigado a cortar seus devaneios, caso contrário, não teria oportunidade de ler aquele livro que despertara minha curiosidade.

– Miguel, Rita, obrigado pelas roupas e pela ótima conversa, mas está ficando tarde, e é melhor eu pegar o caminho de volta ao meu apartamento.
– Claro, claro. – respondeu Rita. – Mas não fique muito tempo sem aparecer, por favor.
– Não ficarei, fiquem tranquilos. – respondi. – Pode deixar que as roupas eu entrego na próxima visita.
– Não precisa se preocupar, meu rapaz. – disse Miguel.

Assim, após me despedir dos velhos amigos, peguei as roupas molhadas que Rita havia colocado em uma sacola e segui rumo ao carro, porém, não sem antes dar um último aceno de despedida, o qual foi retribuído em sincronia por ambos.

Ao entrar no carro, coloquei o livro no banco do passageiro, olhando-o mais uma vez antes de ligar o carro. No entanto, bastou que eu retirasse os olhos da capa para que aquela sensação de atravessar os véus da Maya reaparecesse. Meus olhos perdiam o foco enquanto as imagens se transformavam em um pequeno quarto, ocupado somente por uma mesa e a figura de Hermes.

– Hermes? – indaguei.
– Como você está? – perguntou. – Fiquei preocupado desde o nosso último encontro. Não sabia se iria conseguir conversar com você novamente, meu Senhor.
– Por que não conseguiria, Hermes?
– Depois do que aconteceu na Biblioteca, achei que seria impossível. Essa marca em seu braço, não deveria sumir! Alguma coisa aconteceu para que te deixassem voltar, mesmo que seja por pouco tempo.
– Por que seria por pouco tempo? – perguntei.
– Veja, meu senhor. – começou. – Enquanto essa marca não sair por completo, o vosso tempo neste lado é muito curto, porque proíbe a entrada de quem o possuir.
– É, foi o que imaginei, principalmente depois da conversa que tive com Rubens. – retruquei.
– Com quem, meu Senhor?
– Rubens. – repeti. – Um amigo de meu pai.

Apesar de Hermes ter, supostamente, confirmado que o conhecia, não demonstrou estar contente com o que havia dito, dando uma longa pausa na conversa para depois continuar.

– Sim, claro. – desconversou. – Você procurou os livros como eu havia dito, meu Senhor?
– Sim. E foi neles que acabei encontrando o telefone de Rubens. – Aliás, por que não disse que meu pai também era capaz desse tipo de viagem, Hermes?
– Meu Senhor, infelizmente não poderia te contar desde o início. Prometi a teu pai que…

Porém, antes que Hermes terminasse a frase, estava de volta ao assento do carro, olhando o painel como estivera antes, prestes a virar a chave. E, sem pensar muito, mesmo sabendo que estava sozinho no carro, gritei:

– Não, de novo não!

Irritado, liguei o carro e fui pra casa, na esperança de descobrir qualquer coisa naquele livro que meu pai havia deixado, já que seria difícil obter respostas com quem quer que seja!


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