[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 9

Uma das coisas que não teria como reclamar do café paulista era o atendimento. O garçom, sempre bem disposto, trazia os pedidos no menor tempo possível, algo que facilitava a permanência no mezanino, ainda mais que era um lugar onde se permitia fumar. Porém, o barulho excessivo já atrapalhava a leitura do livro que Rubens emprestara. O Fluxo de clientes era intenso, alguns procuravam cadeiras para se sentarem, outros estavam só de passagem, amontoando o balcão, causando uma poluição visual e sonora que impressionava até os menos atentos. Estava impossível permanecer naquele local, principalmente se o objetivo era a pesquisa.

Assim, cansado daquela algazarra, chamei o garçom e pedi para que  fechasse a conta, a qual paguei diretamente no caixa, fazendo questão de que mantivesse os dez por cento, pois ele realmente merecia aquela doação remuneratória, mesmo que não fosse obrigatória. Meu último pedido foi para que  trouxessem meu carro; eu queria aproveitar o resto de sábado para uma última pesquisa. Talvez pudesse encontrar outras informações nos livros de meu pai, algo que não estivesse no livro que Rubens havia me emprestado.

Já no carro, a caminho de casa, as lembranças de um passado distante, onde eu e meu pai ainda morávamos juntos, inundou meus pensamentos com as pequenas coisas sobre sua vida: experiências profissionais; conquistas amorosas; e outras situações tão comuns quanto a qualquer pessoa. Lembranças que há muito tempo não compartilhava comigo mesmo. Porém, uma lembrança em particular era a mais recorrente, talvez por ser uma lembrança compartilhada e não vivida. Era a história de como meus pais haviam se conhecido, como minha mãe o havia feito o homem mais feliz durante 3 anos, interrompidos por sua morte súbita em um acidente de carro.

Ele sempre dizia que minha mãe era uma mulher muito bonita – o que não posso negar, visto as fotos que ele guardava junto com seus pertences mais queridos: livros e anotações. Todos guardados em uma bolsa antiga, que ocupava uma das prateleiras de um armário, em meu apartamento.

A sua beleza era somente um fato em toda a história, pois o mais interessante era os detalhes do primeiro encontro. Meu pai sempre dizia que o encontro dos dois ocorreu como um “acaso do destino”, ou coincidência, brincava. Mas na verdade, ele sempre acreditou que eles foram destinados a ficarem juntos.

Lembrei-me de uma conversa que tivemos, onde ele contava os detalhes do encontro.

– Meu filho. – ele sempre começava a conversa assim. – Sua mãe, era uma mulher muito bonita. – dizia. – Além de seus penetrantes olhos castanhos, tinha algo nela que cativava qualquer pessoa. E não digo que cativava pela beleza somente. Não. Algo em sua voz, em seu jeito, em sua delicadeza tinha o poder de prender a atenção de qualquer pessoa, fosse ela homem ou mulher. Até hoje não sei como ela havia se interessado por mim. – afirmava.

A verdade deve ser dita, meu pai não era um rapaz bonito, muito pelo contrário. Ele não tinha nada de cativante. Cabelo desarrumado, óculos grandes e uma forma peculiar de se vestir, tornava-o um exemplar, no mínimo, comum.

Ele continuava:

– Foi em um jantar promovido por um de meus amigos professores que vi sua mãe pela primeira vez. Era uma noite agradável, ideal para o uso de roupas leves, e sua mãe, aproveitando essa deixa, apareceu com um longo vestido prata deslumbrante. Ela estava tão linda, meu filho.

Ele sempre suspirava ao lembrar de minha mãe.

– Era impossível não notá-la! Porém, o que destoava em toda aquela pintura era um livro velho que ela trazia nas mãos. Só depois descobri que o livro fora escrito por dos professores que tive na faculdade, e que estava presente no jantar, naquela noite. Sua mãe buscava um autógrafo, meu filho.

Se tinha alguma coisa que atraia a atenção de meu pai, mais do que uma linda mulher, era um exemplar de um livro. Ele seria capaz de narrar a história só de olhar o título.

– Eu estava lá – continuava. – Parado, aguardando o início do jantar quando o professor, autor do livro, nos apresentou, dizendo que tínhamos muita coisa em comum, pois ela também era uma admiradora de história antiga.

As poucas histórias que ouvia sobre a minha mãe me fizeram imaginá-la como uma historiadora, apesar de ter a aparência de uma aristocrata, todos diziam que ela era uma excelente pesquisadora e, acima de tudo, uma ótima arqueóloga, mesmo que não praticasse mais, depois do casamento.

– Ah, meu filho. – dizia. – Não preciso dizer que nós passámos a noite inteira conversando sobre história, discutindo sobre temas tão profundos que nem os professores mais graduados queriam discutir. Ela despertava uma paixão em mim, tanto intelectualmente quanto amorosa. Era uma mulher surpreendente. Surpreendente.

Eu adorava ouvir suas histórias. Era como se suas palavras nos aproximassem, como se eu também fizesse parte desse passado romântico dos dois, não somente como filho, mas como um amigo.

– Enfim, foi uma paixão avassaladora. Conversávamos até altas horas, virávamos  noites seguidas, discutindo, rindo, analisando e pesquisando. Éramos dois apaixonados pela história, pelas civilizações antigas, pelas sociedades. Por tudo!

Lembro que a sua paixão era tanta, que nessas horas ele sempre levantava, gesticulava com os braços como se estivesse recitando um poema para uma multidão.

– Ah, que saudade dessa época. – desabafava, já sentado no sofá. – E numa dessas noites, meu filho, na biblioteca pessoal de um amigo, não me contive. Ajoelhei aos seus pés, e olhando bem no fundo de seus olhos, pedi-a em casamento. – dizia, com um brilho nos olhos. – Alguns podem pensar que faltou romantismo no pedido, meu filho, mas confesso que não haveria hora melhor. Aquila era a nossa vida. Os anos que se seguiram, meu filho, foram os melhores de minha vida! Se não fosse aquele acidente de carro…

Essa era a parte da história em que meu pai sempre derramava algumas lágrimas. Eu imaginava como havia sido difícil criar um filho sem o auxílio da mãe. Viver todos esses anos afundado nos livros, evitando o convívio social, achando que ele nunca mais amaria ninguém como amo a minha mãe – uma história triste, se querem saber. No entanto, apesar da dor terrível que ele sentia, conseguia ser um pai presente, sempre preocupado com a educação de seu filho, batalhando todos os dias para que eu tivesse tudo o que eles sempre sonharam.

A chuva, que castigava os vidros do carro, disfarçava as lágrimas em meu rosto. A saudade tinha me consumido por inteiro, mantendo-me tão concentrado em tempos de outrora que perdi a noção do tempo, assim como o rumo de casa.

Talvez tivesse sido a chuva, prejudicando a visibilidade, ou as lembranças da vida que tive que me levaram diretamente até a antiga casa onde eu e meu pai havíamos passado o restante de sua vida; uma casa antiga, herança dos meus avós, que por algum motivo, seus novos donos, amigos da família, não haviam feito nenhuma alteração na fachada, mantendo-a como se ainda estivéssemos lá.

Eu estava tão absorvido pelas lembranças que fiquei durante quase uma hora a observar aquela antiga casa, foram tantas as recordações, que fiz questão de saboreá-las como uma criança ao experimentar pela primeira vez um delicioso chocolate. Conflitos, saudades, jantares e risadas. Confesso que minha vontade era sair embaixo daquela chuva, caminhar até a porta da casa, abri-la e viver novamente tudo o que já havia vivido: as brigas, os momentos de solidão do meu pai, enquanto permanecia na biblioteca durante a noite, ou qualquer outra lembrança que surgisse durante o processo. No entanto, se eu fizesse isso, provavelmente iria sair escoltado pela polícia até a delegacia mais próxima, por tentativa de invasão domiciliar.

Como não queria este transtorno, resolvi me apresentar ao novo dono, pois, apesar de serem conhecidos de minha família, o único contato que tive foi durante a venda do imóvel.

Determinado, saí do carro em direção à porta. Subi os primeiros degraus da entrada, olhei bem para a casa como se desejasse que meu pai abrisse a porta, toquei a campainha três vezes. Mas antes que a porta fosse aberta, aquela experiência tomou conta dos meus sentidos: olhos começaram a embaçar; as imagens turvas começaram a preencher o ambiente até que a porta fosse aberta.

– Filho?
– Pa-pai? – disse assim que meus olhos voltaram ao normal.
– O que está fazendo aqui? Achei que você iria dormir na casa da Ana!
– Como é possível? – perguntei, mas parece que meu pai não havia entendido a pergunta, pois ele narrou uma história sobre eu ter ido até a casa da Ana.
– Possível? Você disse que dormiria na casa da sua namorada, ou já mudou de namorada e eu não estou sabendo?

Eu olhava para meu pai sem saber o que dizer.

– Oras, não fique aí parado. – disse. – Entre!
– Lucas, está tudo bem? – perguntou, uma voz dento da casa.
– Vamos, entre, meu filho. – disse, como se quisesse voltar rapidamente sua atenção à visita. – Sim, está tudo bem. Dê-me alguns minutos que já continuamos.

Ter meu pai diante de meus olhos era o que eu havia pedido, mas ainda assim não entendi o que estava acontecendo, como seria possível algo assim? Essa sensação fez sumir tudo o que eu havia aprendido durante esses últimos dias. Já não sabia se era sonho ou era realidade. A única coisa que eu queria era permanecer durante mais alguns minutos com ele.

– Vamos, meu filho! Até parece que viu uma assombração. – brincou ao me pegar pelo braço e trazer pra dentro de casa, e, quase sussurrando, disse – Só preciso que me faça um favor.
– Cla-claro. – gaguejei. – Qual o favor?
– Estou com um convidado importante e preciso conversar com ele a sós. Preciso que você me espere no quarto até que te chame, tudo bem?

Sem muito o que responder, apesar das diversas perguntas que pipocavam em minha mente, balancei a cabeça, afirmando que o esperaria no quarto.

– Sabia que você entenderia. – passando a mão nos meus cabelos. – Agora suba e aguarde.

Eu nunca havia recusado um pedido seu, mas a curiosidade falou mais alto. Ainda mais agora, que não era mais um adolescente, apesar de estar no corpo de um adolescente. E seguindo meus instintos, abri a porta do quarto para tentar ouvir sobre o quê conversavam.

– … já disse! Ele é muito novo!
– Mas ele … Lucas.
– Não!
– Lucas, querendo você ou não, esse é o …. . Você não tem como ….. Quanto mais cedo ele souber, melhor.

O barulho da chuva impedia que os detalhes da conversa fossem percebidos, ouvindo somente algumas passagens.

Tomado por uma enxurrada de adrenalina e curiosidade, me atirei corredor adentro, permanecendo escondido atrás da porta da sala, fazendo o mínimo de barulho para que não notassem a minha presença.

– Tente entender. Não posso fazer isso com o meu filho. Ele não está preparado.
– Lucas, essa é… – parando subitamente. – Que barulho foi esse, Lucas?

Por um descuido, antes que ele terminasse a frase, deixei cair um vaso de plantas que estava na mesa do corredor, denunciando a minha presença.

– Quem está aí? – dizia meu pai.

Mas antes que meu pai viesse constatar a minha presença, fui arrastado de volta à porta da casa, como se nunca tivesse saído de lá. Um velho amigo de meu pai, que comprou a casa, estava parado na minha frente, olhando-me assustado.

– Está tudo bem? Você está pálido! – disse ao segurar meu braço. – Venha, entre antes que pegue uma pneumonia.


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