[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 8

Apesar de ter escolhido a mesa ao fundo, a preocupação de Rubens era com a entrada do café, seus olhos percorriam toda a entrada, analisando todos que entravam, como se esperasse por alguém.

Rubens, assustando-o com a mais simples das perguntas, deixou um dos livros cair no chão.

– O que vão beber? – perguntou o garçom.
– Um café. – respondeu.
– Um cappuccino. – respondi.

O silêncio estava me matando. Tinha tantas perguntas a fazer, mas Rubens estava tão apreensivo que não permitiu uma abordagem direta, parecia se preocupar somente com os papéis, livros e com quem entrava e saia do café. No entanto, tomei coragem e fiz a pergunta mais inocente possível, pois, talvez assim ele me desse atenção.

– Rubens? – chamei. – O que são todos esses papéis? – perguntei, rompendo o silêncio. – É algum tipo de pesquisa que você está fazendo, ou têm alguma ligação com esse encontro?

Como um arqueiro, que acabara de acertar o centro do alvo, secretamente eu triunfava por ter chamado a atenção de Rubens, que olhou pra mim e disse:

– Tudo! – apressou-se. – São informações. Informações que passei ao teu pai.
– Informações? – perguntei. – Do quê você está falando.

Porém, antes que Rubens começasse a explicar o que havia dito, fomos interrompidos pelo garçom.

– Com licença… aqui temos o cappuccino do senhor e o café. – dizia ao colocar os pedidos sobre a mesa. – Os senhores gostariam de mais alguma coisa? – perguntou.

Rubens tomou à frente, acenando negativamente com a cabeça, sem ao menos dirigir-lhe um olhar, indicando que não queria mais nada e, provavelmente, que não gostaria de ser importunado novamente. – totalmente grosso, se me permite a observação.  Eu, por outro lado, tentei ser um pouco mais gentil com ele.

– Não, obrigado. – respondi. – Se precisarmos de mais alguma coisa chamaremos.
– Perfeitamente. – disse ao se afastar.
– Então. – continuei. – Você estava dizendo…

Por mais que eu gesticulasse, tentando chamar sua atenção, Rubens olhava atentamente para os alfarrábios que trouxera. Parecia procurar alguma informação que fosse útil, pois manteve-se calado até encontrar respostas à pesquisa que conduzia.

– Aqui! – exclamou. – Acho que isso poderá responder alguma de suas perguntas.

Estendi as mãos, buscando segurar o livro, trazendo-o mais próximo para ver do que estava falando, enquanto seu dedo marcava o parágrafo.

Mas, assim que peguei o livro, não pude deixar de notar a ilustração no lado direito da página.

– A Biblioteca de Duat!? [parte 5] – disse em voz alta.
– Como disse? – perguntou, ao levantar-se de seu lugar, vindo em minha direção. – Você disse: Biblioteca? Foi isso?

A vontade com que Rubens demonstrava seu interesse fez com que me recuasse; sentindo medo do que havia falado. Parecia que seu interesse era única e exclusivamente acerca da ilustração, como se esse fosse o real motivo desse encontro; buscar informações ao invés de fornecê-las.

Tentando consertar meu erro, disse que mais parecia uma entrada de uma biblioteca, ou museu. Porém, pelo olhar de Rubens, a pergunta havia sido retórica, somente. Ele tinha ouvido o que eu disse sobre a ilustração, o que me deixou mais preocupado ainda.

– Sim, parece, mas não era isso que eu queria te mostrar. – voltando ao seu assento. – Veja o sétimo parágrafo da página ao lado. Este aqui. – apontando com o dedo.

Comecei a ler com os olhos, mas minha curiosidade aumentava a cada palavra. Fiz uma pausa, olhei pra Rubens e recitei a última oração do parágrafo.

“Aquele, que em sonho ou acordado, transcender os véus da Maya, terás o direito de seguir o caminho da iniciação.”

– Maya? – indaguei. – O que isso quer dizer, Rubens?

Procurando em seus papéis, Rubens puxa uma folha contendo alguns rabiscos e anotações, entregando-a para que eu olhasse, começou a explicação.

– Maya é um termo filosófico hindu, que, neste caso, quer dizer ilusão. Ou seja, essa passagem nos dá uma diretriz; aquele que vencer a ilusão terrena terá o direito de seguir o caminho da iniciação, e se tornar um iniciado…

Enquanto Rubens ainda terminava sua explicação, não pude deixar de lembrar dos “sonhos” que tive; de como eles eram reais. A impressão era que eu havia atravessado o que os hindus chamavam de Maya, pois, as imagens se tornavam embaçadas, como se houvesse algo encobrindo. [parte 1]

– … assim, os seus atributos são: o poder de cegar com ilusões, ou revelar a verdade. – concluiu.
– Interessante. Mas no que isso responde a minha pergunta?
– Não foi assim que você descobriu o meu telefone? Em uma anotação de seu pai sobre um sonho que ele havia tido? – perguntou, olhando-me com espanto. – Você disse isso quando conversamos ao telefone, não? Que meu número estava junto a uma anotação de teu pai.
– Sim. – confirmei.
– Eu e seu pai conversamos muito sobre aquele sonho, meu jovem.
– Mas que sonho foi esse? – perguntei. – Aliás, onde vocês se conheceram? – mas Rubens nada disse.

Imaginando que o sonho de meu pai pudesse ter algo relacionado com o que eu havia tido, perguntei a Rubens, quase implorando: [parte 6]

– Ok, mas o que isso quer dizer? – ainda sem entender, perguntei. – Quer dizer que meu pai, em seu sonho, tinha vencido os véus da Maya? – e sem esperar a resposta, completei. – Então ele era um iniciado?
– Não, infelizmente não – disse com os olhos baixos. – Seu pai, meu jovem, teve somente uma visão de um outro lugar, nada mais do que isso.
– Que lugar?!
– Ele não se recordava de todos os detalhes. Disse que essa ilustração ao lado era tudo o que conseguia lembrar.
– E o que é essa ilustração? – tentei ser o mais discreto possível, ainda mais depois da euforia de Rubens.
– Supostamente uma biblioteca. Mas alguns acreditam que… – parando subitamente. – Acreditam que seja uma enorme biblioteca.

Essa pausa havia me preocupado. Dava a impressão que Rubens sabia muito mais do que estava falando; sabia sobre meu sonho, sabia sobre a biblioteca. Parecia que estávamos disputando como duas crianças num cabo de guerra, pra ver quem cederia primeiro.

– E o que tem de tão especial nessa biblioteca? – indaguei.
– Não sabemos. As únicas informações que temos está neste livro que você tem em mãos.

Parei sobre o livro, olhava de perto a ilustração, tentando colocar as ideias em ordem e, se possível, obter outras informação sobre a Biblioteca de Duat. Algo que corroborasse com o que Hermes havia me dito, quando lá estive. Porém, Rubens estava certo, só havia aquela ilustração e algumas frases soltas que indicavam a possível existência de um plano sutil, onde essa biblioteca estava localizada.

– Não tem nada mais? – perguntei. – Somente essas informações?
– Infelizmente. Isso foi tudo o que conseguimos até agora. Teu pai foi o único que, como ele disse, “viu essa ‘biblioteca'”.

Ainda pensando em meu pai e nas coisas que ele nunca havia me revelado, não pude deixar de notar que Rubens usava sempre o “nós” quando eu perguntava sobre a pesquisa feita, e aquilo estava me incomodando, já não era a primeira vez que ele demonstrava existir outras pessoas. Fiquei tão curioso que não resisti à pergunta:

– Nós!? – indaguei. – Nós quem, Rubens?
– Nós… como assim, nós!? Eu e seu pai, oras. – disse, num tom debochado. – Quem mais poderíamos ser?

Pela expressão no rosto de Rubens, vi que o havia incomodado, pois passou de uma posição de completo relaxamento para uma mais atenta, como se procurasse alguma forma de defesa, ou uma explicação além da verdade. Infelizmente, aquela resposta não sanou minha dúvida, o sorriso de Rubens não me convencera, deveria haver mais alguém naquele “nós”.

– Claro! – concordei. – Quem mais!?

Desconfortável, Rubens levantou o braço e chamou o garçom.

– Pois não? – perguntou.
– Você tem uma daquelas tortas holandesas? – perguntou sorridente.
– Claro, senhor. – confirmou. – Somente uma?

Rubens olho para mim, na espera de alguma resposta, mas dessa vez quem não queria ser importunado era eu.

– Sim, somente um pedaço, por favor. – respondeu ao garçom, lançando uma pergunta logo em seguida. – O que você tanto olha nesse livro?

Eu estava tão envolvido que mal pude ouvir o que Rubens acabara de perguntar, obrigo-o a fazer novamente a pergunta.

– Hum… Desculpe, o que você perguntou?
– Estou curioso pra saber o que você tanto está olhando nesse livro, além do que já te disse?
– A quantidade de símbolos. – respondi.
– Ah, sim. São muitos, realmente. – afirmou. – Algum em particular?

Rubens demonstrava muito interessado em saber mais do que estava perguntando. Sua expressão mudara de um simples olhar jovial para um olhar atento, como se esperasse alguma confirmação minha.

Como não queria dar nenhuma resposta afirmativa, apontei para um símbolo qualquer para ver sua reação.

– Este aqui. O que quer dizer?

Pela expressão de descontentamento no rosto de Rubens, pude ver que minhas suspeitas estavam corretas. Mas antes que começasse a explicação, fomos interrompidos novamente pelo garçom.

– Com licença. – requisitou o garçom. – Aqui está a torta holandesa que o senhor pediu.
– Obrigado.
– O senhor gostaria de mais um cappuccino? – perguntou, virando-se pra mim.
– Não, uma água já basta, por favor. – respondi.

Assim que o garçom nos deixou, Rubens retomou sua explicação.

– Este é o símbolo do Ourorobos (ou oroboros), ele representa um ciclo interminável. Ou melhor dizendo, o início e o término de um ciclo.
– Interessante… E este? – apontando para o símbolo do infinito.
– Estás dizendo que não sabe o que é esse símbolo? – perguntou.
– Bom, sei o significado dele na posição horizontal, mas na posição vertical eu nunca havia visto. – retruquei.

Rubens respirou fundo e esperou que o garçom deixasse a água na mesa.

– É conhecido, também, como o símbolo do infinito. Alguns acreditam que tenha a mesma função de Ourorobos, demonstrando o momento do nascimento como a parte de cima e a morte representada pela parte inferior.
– Nossa! Somente por virá-lo as pessoas já dão outra interpretação. – disse. – E esse aqui? – perguntei.

Porém, dessa vez fiz questão de apontar para um símbolo realmente importante. O símbolo que estava na capa do livro proibido na Biblioteca de Duat, aquele com os quatro símbolos [parte 6], dos quais só sabia o significado de dois. E como suspeitara. Foi apontar o símbolo para que Rubens arregalasse os olhos, demonstrando profundo  interesse.

– O que quer saber sobre esse símbolo, meu jovem?
– Oras, o mesmo que queria saber sobre os outros. – respondi. – O que ele quer dizer?

Rubens me olhou profundamente, era como se me analisasse por completo. Senti um incomodo no ombro conforme Rubens me olhava. Até produzi um movimento involuntário. Era como se o símbolo da Terra, marcado em meu ombro [parte 6], estivesse incomodado com os olhares de Rubens. Mas também poderia ser somente um reflexo.

– Este símbolo remete a uma lenda antiga. – começou. – Diziam os mais antigos que esse símbolo ilustra a capa do livro da Grande Obra. Um livro proibido aos seres humanos, até mesmo aos iluminados. Somente seres divinos podem tocá-lo ou lê-lo; seres que já não mais pertencem ao ciclo atual, seres que já cumpriram seu papel na humanidade e que agora trabalham para a criação de um outro ciclo. – terminando a explicação. – Mas, claro, são lendas. – completou, Rubens. – Não há prova alguma de que esse livro exista.
– E porquê essa é a ilustração da capa?
– Entendemos que… – deu uma pausa, mas logo completou. – … eu e seu pai, que refere-se à criação do mundo, assim como narra o Gênesis. Antes era o nada, este nada se focou em um ponto, desenvolveu dois lados (positivo e negativo) e, após isso, deu-se início ao ciclo de vida e morte.
– Então o primeiro símbolo representa o nada; o segundo representa o ponto, a idéia; o terceiro os pólos; e o quarto o ciclo da vida e morte? – perguntei, tentando entender a explicação.
– Exatamente isso! Por isso que a lenda chama o livro de: O Início da Obra. [parte 5]
– Mas este último símbolo não representa o símbolo da Terra, pelos romanos?
– Não só o símbolo da Terra, mas a roda da vida, dos incessantes nascimentos e mortes pelos mundos. Ou seja, a Terra seria o lugar necessário para que esses ciclos fossem possíveis.
– O planeta terra? – interrompi.
– Não. Terra, aqui, significa solo, matéria, ou se preferir, o mundo material. – respondeu.

Não foi fácil de assimilar tantas informações, porém, algumas já faziam sentido, apesar de não conseguir acreditar naquilo. Pelo que Rubens estava dizendo, eu era um iniciado que toquei o livro proibido e fui trazido de volta ao mundo material, eis, portanto, a marca que trago no braço. Porém, uma única coisa não fazia sentido era o porquê meu pai tinha tantas anotações sobre isso?

No entanto, antes que eu começasse com novas perguntas, Rubens disse:

– Imagino que você esteja imagindo o porquê de seu pai ter pesquisado isso durante tantos anos, não?

Meus olhos não seriam capazes de enganar a ninguém.

– Era exatamente isso que gostaria de saber! – disse, empolgado.
– Temos muito o que conversar, meu jovem… muito! – afirmava, como alguém que gosta de deixar os outros curiosos. – Mas hoje já não é possível. Está ficando muito tarde e acredito que todas essas informações ainda estão sendo processadas para serem absorvidas.

Rubens tinha razão, haviam sido tantas informações que eu mal conseguia colocá-las em ordem. Precisaria de mais tempo para absorver tanta coisa.

– Rubens, realmente, preciso pensar sobre tudo isso, pois não estou conseguindo ver relação alguma com as anotações de meu pai. É como se ele tivesse passado a vida inteira em busca de um sonho.
– Entendo. Mas saiba que seu pai foi de grande auxílio nessa pesquisa. – acrescentou. – Aliás, por que você não fica com esse livro? Talvez ele te dê mais respostas.
– Nossa! – exclamei. – Isso seria ótimo! Tem certeza disso? – perguntei.
– Claro. Fique com ele, e quando nos encontrarmos novamente, traga-o de volta.
– Sim, farei isso! – concordei. – Cuidarei bem do livro, não se preocupe.
– Não tenho dúvidas disso. – disse, enquanto juntava os outros papéis e livros que havia trazido. – Bom, meu rapaz, está na minha hora. Foi um prazer conhecê-lo.
– Claro, está tarde. – confirmei. – O prazer foi meu, Rubens. – estendendo a mão para cumprimentá-lo.
– Então, nos vemos em breve. Certo?
– Sem dúvidas! – confirmei.

E com um aperto firme de mão, Rubens saiu rumo à rua, desaparecendo em meio aos clientes que se aglomeravam no balcão do café paulista. Deixando-me completamente anestesiado pelas informações e preocupado com o interesse que Rubens demonstrava com as minhas perguntas.

– Gostaria que fechasse a conta, Senhor? – perguntou o garçom.
– Como? Não, ainda não. Pode trazer mais um cappuccino, por favor.

Mas antes que ele fosse embora, perguntei:

– Com licença, onde eu posso fumar um cigarro?
– Temos uma área de fumantes logo no piso de cima.
– Então que seja no piso de cima, por favor.

Assim, peguei o livro e meu celular, saquei o maço de cigarros e subi escada acima.


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