[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 6

Denis não parou de falar durante a curta viagem até o décimo segundo andar. Falava do jogo, da semana corrida no escritório, até as brigas que tivera com Ana.

– Cara, tu não faz ideia de como ela é chata com as coisas de casa. Já falei pra contratar uma diarista, mas ela se recusa…
– Pronto, chegamos. – disse, ao desembarcar no hall.
– Maravilha! Podemos pegar a entrada do time! Vou pegar uma cerveja, você quer? – disse a caminho da cozinha.
– Agora não. – respondi. – Vou tomar um banho e já volto. Fique à vontade
.

Enquanto deixava a sala, Denis já estava se jogando no sofá, pegando o controle e saboreando sua cerveja. Eu teria achado aquela cena normal se não fosse a dor que estava sentindo no braço. A dor era de pancada, como se tivesse trombado em algo pontiagudo, apesar de ter sido tocado somente pelo bastão do guardião.

Quando percebi que estava longe dos olhares de Denis, retirei a camisa e corri até o banheiro. Virei o braço para o espelho e lá estava uma mancha roxa no meu braço direito. – mais parecia uma marca do que um simples hematoma. Aproximei os olhos do espelho, quase colando o braço no vidro e vi que havia realmente uma marca, um símbolo.

– Vai começar!! – gritou, Denis.

O susto que tomei com o grito me fez bater com a cabeça no espelho.

– Porra! – disse, após o susto. – Agora, além de uma marca, vou ficar com duas!

Após os susto e a pancada no espelho, voltei a observar a marca no meu braço, tentando identificá-la, mas não se parecia com nada que já havia visto antes. Tinha uma forma circular – um círculo, pensei – e uma cruz no meio, limitado pelo círculo. Quanto mais olhava para aquela marca, mas tinha a certeza de que aquele símbolo representava alguma coisa. Tentei lembrar de tudo o que havia acontecido durante a viagem até a Biblioteca de Duat. Lembrei dos corredores que nos levaram até a biblioteca, dos guardiões, da quantidade de livros, do toque da lança, mas nada de símbolos.

– E aí? – perguntou, Denis, ao aparecer na porta do banheiro. – Não vai assistir o jogo?

Rapidamente, tentei disfarçar, mas foi inútil, pois o espelho já havia denunciado aquela marca no meu braço.

– O que é isso no teu braço? – perguntou, Denis.

Sem chance de tentar desconversar, fui obrigado a inventar alguma desculpa inteligente.

– Isso? – mostrando o braço para Denis. – Não foi nada. Bati na quina da porta do carro, quando sai pra trabalhar hoje cedo.
– Mandou bem! – brincou. – Até parece uma tatuagem.
– Pois é. Ficou um pouco estranho, mas amanhã já estará melhor. – respondi.
– Ok! Vamos lá! Tu já perdeu o chute inicial!
– Já estou indo. – disse enquanto pegava a camisa. – Tem coragem de pegar uma cerveja pra mim?
– Esse é o meu garoto! – respondeu ao sair, indo direto pra cozinha. – Cara, acho que vamos precisar comprar mais alguma cervejas, pois essas 3 não vão dar conta dos 20 minutos de jogo! – gritou.

Enquanto Denis estava preocupado com as cervejas, olhei mais uma vez para a marca, tentando guardar a imagem na memória. Vesti a camisa e fui até a sala, onde Denis, novamente, já dominava boa parte do sofá.

– Segura! – disse, ao arremessar uma garrafa em minha direção, que quase acertou o meu rosto, se não fosse pelo rápido reflexo. – Bora, que já foram 10 minutos de partida.

Abri a cerveja e sentei do outro lado do sofá. Denis estava todo empolgado com o jogo, gritando pra lá e pra cá, gesticulando para o aparelho enquanto sorvia mais um gole.

– Porra! Juiz de … – gritou.

Eu, por outro lado, não estava tão interessado no jogo. Meus pensamentos estavam longe, tentando lembrar de alguma informação para explicar aquele símbolo em meu braço. Foi quando, num relance, vi os livros de meu pai, os mesmos que havia olhado durante a manhã; seu título era, nada mais, nada menos, que: Simbologia Ocultista.

Fixei meus olhos no título, como todas as respostas que eu procurava estivessem lá. Levantei, atravessei os gritos de Denis e retirei o livro da estante. Rapidamente, comecei a folheá-lo.

– Isso lá é hora de olhar livro? – perguntou. – Poxa, deixa isso pra depois. Vamos ver o jogo!
– Tá chato esse jogo. – respondi. – Nem parece jogo decisivo.
– É, não é dos melhores, mas é sexta. Deixa pra fazer pesquisa amanhã, meu velho.
– É rápido, além do mais, falta só dois minutos pro final do primeiro tempo. – disse.
– Nos dois minutos finais eu já vi muitos gols. – resmungou.

Denis continuava com seus comentários sobre os últimos dois minutos do primeiro tempo enquanto eu procurava no índice do livro: 1. história dos símbolos; 2. origem dos símbolos…. Quando já estava quase acabando, vi na posição 33 o que eu realmente procurava: Ilustrações dos Símbolos.

Abri o livro e fui direto na página da ilustração. Olhava todos os símbolos, um a um, até que achei o que mais parecia com a marca em meu braço. Ele estava na parte das representações dos corpos celestiais, sendo o quarto símbolo, conhecido pelo nome de Terra: sua representação simbólica.

– Terra? – falei em voz alta. – O que isso quer dizer?
– Pronto. Final do primeiro tempo. – Denis afirmou ao mesmo tempo. – O que você disse? – perguntou.
– Nada. – respondi. – Só estava pensando alto.
– Cara, tu tá estranho. – já levemente alterado, respondeu. – Bom, precisamos de mais cerveja.
– Precisamos, ou você precisa? – disse, rindo na direção de Denis.
– Que seja! – respondeu, retribuindo o sorriso. – Vai querer alguma coisa? Um suco, quem sabe… – gargalhando, dessa vez.
– Não. Estou bem. Traga mais algumas cervejas que está tudo bem.

Aquele tempo sozinho era o que eu precisava para analisar melhor o símbolo, comparando-o melhor com a marca deixada no meu braço.

– Ok, mas se mudar de ideia, só ligar que pego o suco pra ti. – ainda rindo, disse ao fechar a porta.

Pronto, estava sozinho. Agora poderia olhar com mais calma. Assim, corri até o espelho do banheiro, tirei a camisa, olhei novamente para a marca. Ela estava menos roxa, deixando bem a mostra o símbolo da Terra. Olhei o livro, coloquei um ao lado do outro e, sem dúvida alguma, aquela marca era o símbolo da Terra. Mas por quê?

Larguei o livro sobre a pia. Tentei, mais uma vez, recordar do que havia acontecido. Busquei bem fundo as imagens que havia visto durante a viagem, cada detalhe que conseguia lembrar. E como uma revelação, lembrei do livro que havia pego – o mesmo livro que me fez sair daquela Biblioteca -, sua capa continha uma ilustração: um círculo perfeito; um círculo dividido pela metade; um círculo com um ponto no meio; e outro, o último, era a mesma imagem que agora estava gravada em meu braço: o símbolo da Terra.

Com essa lembrança, procurei no Simbologia Ocultista, qualquer referência aos outros dois símbolos, encontrando somente uma anotação que meu pai havia feito nas bordas do livro:

“No começo era o caos. Fiat Lux [expressão latina para faça-se a luz] e a luz se fez. E então houve a criação da Terra.”

Ao lado dessas anotações, estava a mesma ilustração do livro “proibido”; um círculo perfeito; um círculo dividido pela metade, um círculo com um ponto no centro e o símbolo da Terra. Dois desses símbolos eu pude identificar no livro, o círculo com o ponto representava o Sol, e o outro a Terra. Porém, os outros dois não possuíam referências.

Vasculhei o livro inteiro a procura de outras anotações, mas não havia nenhuma que mostrasse esses outros dois símbolos.

Corri até a estante, para procurar nos outros livros, mas todos continham alguma referência ao símbolo do sol e ao da Terra, mas nenhum sobre os outros dois. Havia, porém, uma outra anotação que me chamou a atenção:

“Terá sido tudo isso um sonho? Por que me escolheram? Preciso de mais respostas. Preciso urgentemente falar com Rubens.”

Logo abaixo da anotação, tinha um número de telefone – imaginei que fosse do suposto Rubens. Peguei o telefone, disquei o número. Aguardei alguns toque até que atendessem.

– Alô?
– Alô. Rubens? – perguntei.
– Sim, quem está falando?
– Aqui é o filho do senhor Lucas.

Rubens não disse nada, parecia que havia desligado o telefone.

– Alô, Rubens?
– Sim… estou aqui. – murmurou. – Como conseguiu meu telefone, filho?
– Encontrei em um livro do meu pai, juntamente com uma anotação que me deixou bastante curioso. – disse. – Nela meu pai menciona um sonho que teve. Gostaria de saber se o senhor conversou com ele sobre isso.
– Por que desse interesse repentino? Seu pai já nos deixou há anos.
– Curiosidade. – disse. – E como ele nunca mencionou o o nome do senhor, queria saber, também, como se conheceram.

Alguns minutos de silêncio separaram a próxima resposta de Rubens.

– Somente curiosidade ou aconteceu alguma coisa? – enfatizou.

Não sei dizer, mas parecia que Rubens sabia que alguma coisa havia acontecido, sua pergunta estava bem direcionada.

– Faça o seguinte. Amanhã, por volta das 2 horas da tarde, me encontre no café paulista. Acredito que precisamos conversar. – disse.

Aquele futuro encontro era o que eu almejava, mesmo não sabendo sobre o que conversaríamos, confirmei o encontro.

– Até logo. – disse ao desligar o telefone.

O barulho da porta abrindo me fez fechar o livro rapidamente, segurando-o em uma das mãos, enquanto, deixava o telefone sobre a estante.

– Cheguei! Tá pronto pra terminar de ver o jogo? – perguntou, Denis.

Denis trazia mais 10 garrafas de cerveja, juntamente com alguns salgadinhos para acompanhamento.

Não dando tanta atenção a Denis, observava o livro em minhas mãos, até que ele, novamente, gritou:

– Segura! – ao atacar mais uma garrafa de cerveja, fazendo com que largasse o livro no chão.
– Porra, pega leve, Denis! – repreendi.
– Foi mal… – desculpou-se.

Recolhi o livro do chão, dando uma última olhada para ele, antes de recolocá-lo na estante.

– Vai, chega de olhar esse livro. Vamos assistir o jogo!

Toda aquela história estava pra lá de estranha. Porém, alguma coisa já havia melhorado; a dor no braço diminuíra. E a ideia de obter algumas respostas com Rubens, de certa forma, me tranquilizaram, permitindo que eu parecesse normal perante meu amigo.

Assim, já aliviado, abri a garrafa de cerveja, dei um belo gole, e voltei pro sofá, enquanto Denis gesticular para a televisão.


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