[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 5

A confusão havia dominado meus pensamentos. Aquelas viagens estavam me deixando completamente maluco. Primeiro uma casa e jantar, depois um “sonho” totalmente real, agora essa viagem de elevador no primeiro andar. E esse anfitrião que aparece simplesmente do nada. Realmente, ou estava ficando louco ou alguma coisa estava acontecendo comigo e ninguém queria me dizer.

Agora, não mais o elevador, mas um corredor escuro e úmido, desenhado pelas luzes que tremeluziam sozinhas em suas tochas. Além da iluminação fraca, o cheiro forte que emanava daquele lugar pouco ventilado não ajudou em nada a minha apreensão. Sentia que estava em uma masmorra, ou algo parecido com os corredores de um castelo antigo.

– Sim, meu Senhor, mas pode me chamar de Hermes, um dos nomes que me são de direito.
– Bom, pelo menos agora já sei o seu nome. – respirou aliviado. – Dá pra acreditar nisso, Denis? – olhei para o lado para receber uma confirmação, mas nem a porta do elevador existia mais. – Denis?!?

Denis, que havia concordado em me acompanhar, não estava mais ali, o que me deixou mais confuso e – acredite – muito irritado.

– Onde está o Denis, Hermes??? – disse, enquanto segurava as vestimentas do anfitrião. – Diga o que você fez com ele! Diga!!
– Meu Senhor, infelizmente a entrada dele é proibida. Não posso mudar as regras que me são impostas. Peço que  compreendas.
– Compreender o quê? – afastando as mãos de suas roupas, retruquei. – Como posso compreender alguma coisa que não faço a menor ideia do que seja?
– Entendo. – respondeu com os olhos baixos. – Infelizmente, não posso condecer sua entrada, somente a vossa é permitida, no momento.
– Entrada aonde, homem de Deus!? Que lugar é esse?
– Estamos entre mundos, Senhor. – disse me olhando nos olhos. – Alguns o chamam de mundo de Duat.
– Ba o quê? – indignado continuei. – Tudo bem, seja o nome que for, pouco me importa. Quero saber onde está meu amigo.
– Denis ainda está no mundo físico, meu Senhor, de pé ao seu lado, no elevador.
– Pode parar! Quer dizer que eu estou aqui e lá ao mesmo tempo? – e arregalando os olhos continuei. – Como isso é possível? O que está acontecendo comigo? Por que estou tendo essas visões; esses sonhos?

Hermes olhou para mim, mas não respondeu minha pergunta. Simplesmente pediu para que o acompanhasse.

– Não, não vou a lugar algum até que me dê alguma resposta. – retruquei irritado. – Cansei de ser somente um peão nesse tabuleiro. Vamos, diga-me! O que está acontecendo?

Hermes viu que não haveria outra alternativa senão responder alguma de minhas perguntas, não todas, mas a que respondeu foi significativa.

– Creio que seja um pouco difícil de assimilar o que vou explicar, mas peço que ouça com calma. – introduziu, Hermes. – Neste exato momento, estamos entre os dois mundos, o real e o ilusório, como alguns chamam. Sim, é possível que esteja tanto aqui quanto no mundo real, meu Senhor. O tempo neste mundo é totalmente diferente do que estás acostumado.
– Calma… quer dizer que continuo lá, conversando com Denis?
– Na verdade não. Você está aqui e lá ao mesmo tempo. É como se essa conversa fosse somente uma memória para você, que passa em apenas segundos. Quando você deixar esse mundo, irá retornar no exato momento que entrou aqui.
– Maravilha, agora estou mais confuso. Obrigado. – falei com um sorriso sarcástico.
– Entendo que seja confuso, mas o Senhor entenderá. – disse, pedindo para que o acompanhasse. – Agora precisamos ir, por favor.

Ainda tentando absorver todas as informações, acompanhei Hermes pelos corredores escuros onde estávamos, imaginando onde aquilo nos levaria. Eu ainda acreditava que estava a caminho de um calabouço enquanto caminhávamos pelos corredores que, aliás, pareciam intermináveis: esquerda, direita, esquerda novamente, dois corredores a frente e, finalmente, direita. Porém, ao sair dos corredores, a surpresa tomou conta de mim. A visão era impressionante. gigantescas pilastras sustentavam o conjunto de uma obra grega, como o Partenon de Atenas, porém, diferentemente do seu uso na Grécia antiga, este destinava-se à guarde de documentos, de livros, de recortes e manuscritos, mais parecia uma biblioteca, porém, nada parecida com as que existem hoje. Algumas pessoas andavam calmamente, saindo de dentro daquela “biblioteca” com alguns livros, pergaminhos e manuscritos. O silêncio era ensurdecedor.

– Que lugar é este, Hermes? – perguntei, quase em transe. – Essa construção é imensa!!
– Sim, meu Senhor. Estamos na biblioteca do mundo de Duat. – respondeu com a maior tranquilidade. – Vamos, pois não temos muito tempo.

Hermes respondia com a maior tranquilidade, como se aquela construção fosse tão comum quanto uma simples casa do interior paulista.

– O que viemos fazer aqui? – perguntei. – Você me trouxe para consultar um livro? – disse com um sorriso nos lábios.

O olhar repressivo de Hermes tirou o sorrido do meu rosto. Imaginei que talvez não fosse permitido algum tipo de brincadeira naquele lugar. Assim, calado e contemplando a gigantesca biblioteca, atravessamos a porta de entrada, vigiada por dois seres enormes, que mais pareciam estátuas.

– Quem são esses seres? – perguntei.
– Os guardiões da biblioteca, meu Senhor. Estão aqui para defendê-la de possíveis intrusos.
– Eu seria um intruso, Hermes? – perguntei, enquanto um dos guardiões me olhava fixamente. – Pois parece que não sou bem-vindo neste local.
– Esta é a função deles, meu Senhor. – murmurou. – Eles têm o dever de analisar todos que entram por essas portas.
– Mas estão olhando somente para mim, Hermes. – retruquei. – Até parece que estão prontos para me expulsar.
– Não tenha dúvidas que seria isso que eles fariam, meu Senhor. Porém, estás acompanhado de alguém com autorização para trazer um ser de outro mundo para cá.
– Como assim? – perguntei curioso.
– A sua presença foi autorizada, e eu sou o teu guia. Peço que o Senhor me acompanhe. – Hermes disse assim que passamos pelos guardiões da porta.

Do lado de fora, a biblioteca parecia conter alguns andares, porém, assim que consegui ter uma visão ampla dos corredores e andares, fiquei completamente chocado. Além dos 10 andares superiores, de uma complexidade gigantesca, para baixo do térreo havia muitos outros andares, tão iluminados como se o próprio sol estivesse ali para suprir toda a falta de luz que houvesse nos corredores. A iluminação parecia brotar de todas as prateleiras, corredores, escadas; era impressionante ver tudo aquilo.

– Hermes, quantos livros existem aqui? – com os olhos arregalados, pergunte, ao parar diante do imenso vão.
– Todos, meu Senhor. – respondeu. – Venha, precisamos correr. – disse ao me puxar pelo braço.
– Como assim, todos? – perguntei ao tentar acompanhá-lo.
– A biblioteca de Duat, meu Senhor, dispõe de todos os registros da humanidade. Qualquer coisa que foi escrita, desenhada, anotada, publicada, até aquelas que nunca conheceram a outros olhos que não fosse o de seu autor, estão aqui.
– Que dizer que aquele bilhete que escrevi na 5ª série, para a Adriana, o grande amor da minha infância, está aqui?

Hermes sorriu e logo respondeu:

– De certa forma sim.

Só de imaginar que poderia encontrar a resposta de Adriana, já me deixou bem contente.

– Será que poderíamos dar uma passada na estante onde estão esses bilhetes? – perguntei. – Sabe, eu nunca recebi uma resposta dela. – disse sorrindo.

Hermes me olhou, quase pude ver um início de uma gargalhada, mas ele se conteve e continuamos a caminhada pelo corredor 137.

– Aqui, encontrei. – disse, Hermes.
– Encontrou o quê, homem de Deus?
– O livro que estava procurando. – respondeu.
– Ah, claro. A consulta. – confirmei.

O livro não era convencional, suas dimensões não seguiam o padrão de um livro comum, mais parecia um grande livro de anotações.

– O que estamos procurando, Hermes? – perguntei enquanto pegava um outro livro da prateleira. – Hum, esse me parece bem interessante: O Início da Obra. – disse, lendo o título em voz alta.
– Não, meu Senhor, não toque neste livro!

Porém, assim que abri aquele enorme livro, um dos guardiões apareceu ao meu lado, retirou o livro de minhas mãos e disse:

– Não estás autorizado a ler este livro. Retire-se!

E tocando em meu braço com a sua lança, uma tontura tomou conta de meu corpo, quase a ponto de desmaiar, só pude ouvir Hermes dizer:

– Seu pai… os livros… procure…

A imagem da biblioteca começava a desaparecer, meu corpo estava pesado, meu braço doía demais, como se houvesse levado uma forte pancada. Meus olhos começaram a embaçar, até que a imagem do elevador começou a tomar contorno.

– … você vai descer? – disse, Denis.

Eu estava de volta ao elevador, que com suas portas abertas no primeiro andar, mostravam o mesmo hall de entrada que o do décimo segundo: a minha casa.

– Então, não vai descer? – perguntou Denis. – Ou já desistiu do encontro?

Ainda atordoado com tudo o que havia acontecido, sofrendo com a dor no braço, respondi:

– Estou aqui, não estou? E cadê o Her… – guardei o nome, pois nunca o havia mencionado a Denis, e continuei. – … anfitrião? Deve ser uma pura bobagem. – respondi. – Vamos, vamos tomar uma cerveja.

Por mais que Denis fosse meu amigo, não iria conseguir explicar tudo aquilo pra ele, principalmente a parte dos mundos que eu mal conseguia assimilar. Mas minha expressão logo chamou a atenção de Denis.

– Está tudo bem contigo? – perguntou, Denis, após minha resposta. – Você parece atordoado.

Realmente eu estava, a dor no meu braço era intensa e parecia aumentar a cada instante.

– Estou sim, só preciso tomar um banho e descansar. Acho que ando muito cansado. Estou até imaginando coisas.
– Ok. – consentiu, Denis. – Vamos, só mais alguns andares e estaremos na tua casa. Tem cerveja lá? Poderíamos sentar e assistir o jogo, o que acha?
– Sim, claro. – murmurei.

Denis ainda me olhava com apreensão, mas a ideia de tomar um cerveja e assistir o jogo havia mudado o foco da conversa.

– Então vamos. – disse ao apertar o décimo segundo andar.


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