[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 4

A dúvida me consumia. Será que tudo não passou de um sonho, de uma invenção fabricada pelas lembranças da noite anterior? Ou terá sido realidade? As últimas palavras que havia ouvido ainda vibravam em meus ouvidos: “Procure-me no primeiro andar de seu prédio. Estarei esperando por você às 18 horas“.

Durante o banho, não parava de pensar sobre o que havia acontecido: Luís XIV ter abolido o Édito de Nantes; a casa que estive; as pessoas que encontrei. Porém, o mais curioso havia sido as sensações que havia experimentado. Sensações tão fortes que poderia dizer que estive naquele local; numa reunião secreta em pleno século XVII.

Meu banho, apesar de ter sido rápido, não conseguiu retirar todas as impressões marcadas durante o sonho, mas serviu para me trazer de volta à realidade, deixando de lado aquela pergunta que me assombrava desde a hora em que levante: Primeiro andar – 18 horas.

Peguei qualquer roupa disponível e desci as escadas para a sala de estar. Faltava somente alguns minutos para voltar ao trabalho e, consequentemente, às tarefas do dia, algo que me faria deixar de pensar em tudo o que aconteceu.

Enquanto procurava a chave do carro na estante da sala, notei alguns livros que havia herdado de meu pai, alguns muito velhos, outros nem tanto: uma coleção incrível. Meu pai, durante toda a sua vida adulta, manteve uma imensa coleção de livros sobre ocultismo, espiritismo, auto-ajuda, pilhas e pilhas de recortes de jornal, até fotos de amigos ele guardava. A quantidade de material era tanta que seria possível montar uma pequena biblioteca. Porém, pela falta de espaço no apartamento, fui obrigado a doar boa parte, mantendo somente as fotos e alguns livros que ele mais gostava.

Olhar aqueles livros sempre trazia uma boa recordação. Lembrava de meu pai, das horas que ele passava analisando os livros com seus grandes óculos, que mais parecem uma lupa, pesquisando, folheando, consultando dicionários. Chegava a ser fanático por tudo que fosse oculto, desde pequenas notícias quanto aqueles programas sensacionalistas que passam em alguns canais alternativos. Tudo que tivesse algo de misterioso meu pai anotava, recortava e guardava. Fanático, com certeza. Mas, hoje, a saudade batia mais forte, deixando todas aquelas críticas de lado. Quem sabe ele soubesse me responder o porquê de tudo aquilo. Aliás, se eu pudesse contar o meu sonho pra ele, tenho certeza que ele teria algumas respostas.

Ainda envolto pela saudade deixada por meu pais, mal reparei que o celular estava tocando.

– Alô. – articulei, enquanto mantinha a foto de meu pai nas mãos.
– Cara, precisamos de você aqui na agência!
– Já estou a caminho, mas o que houve de errado?
– Só precisamos da sua assinatura pra autorizar uma compra de material, nada mais.
– Tudo bem. Mais quinze minutos e já assino essa papelada.
– Ok. Estamos aguardando.

Fechei o celular, deixei a foto de meu pai na prateleira, bem ao lado dos livros mais usados e fui trabalhar. Entrei no elevador e selecionei o subsolo. Os andares começaram a ficar pra trás: décimo segundo, décimo primeiro… quinto… segundo. Mas foi chegar ao primeiro para que o elevador desse um tranco e parasse repentinamente, enquanto a luz do painel indicava, alternadamente, o décimo oitavo e o primeiro andar. Não demorou muito para que eu juntasse as ideias: primeiro andar às 18 horas. Bastou repetir a pergunta em minha mente para que o elevador voltasse a descer, parando no subsolo como era de se esperar.

Quando sai do elevador, Lucas, o zelador, olhou pra mim e perguntou:

– Está tudo bem com o senhor? Parece que viu assombração.

Assombração eu não havia visto, mas os fantasmas estavam presentes em minha mente.

– Não. Somente um susto. O elevador deu um solavanco no primeiro andar, só isso.
– Ah, o senhor não é o primeiro a reclamar. Já chamei os técnicos, mas falaram que está tudo bem com o equipamento. – disse. – Mas se o senhor quer saber. – murmurou. – Acho que é assombração!
– Assombração? – perguntei rindo. – Deixe de bobagens, homem! Deve ser um problema com alguma correia que os técnicos não analisaram. Ligue pra eles essa tarde e diga para virem verificar novamente. Tenho certeza que irão resolver dessa vez.
– Se o senhor diz… Mas ainda acho que tem alguma coisa muito estranha nisso tudo.
– Bobagem… bobagem. – repetia enquanto abria a porta do carro. – Vá, ligue para a empresa e peça mais uma visita técnica. Agora eu preciso ir. Até logo, Lucas.
– Ligarei sim. Tenha um bom dia. – respondeu.

Devido a um acidente na Marginal Pinheiros, o trânsito não facilitou, elevando os 15 minutos para 35 e algumas ligações a mais.

Chegando na agência, Denis correu até meu encontro com a papelada na mão.

– Mais alguns minutos e a compra só poderia ser faturada amanhã. Ainda bem que conseguiu chegar.

Denis, além de ser um excelente profissional, era um grande amigo de faculdade e excelente ouvinte. Sempre pronto para algumas cervejas e um bate papo aberto. Ele gostava tanto da combinação cerveja e bate papo, que por vezes teve que dormir no sofá de casa, pois, Ana, sua esposa, não permitia que ele voltasse pra casa dirigindo – duas grandes pessoas que tenho o prazer de chamar de amigos.

– Denis! – quase gritando, chamei. – Almoça comigo hoje?
– Claro! – ele disse, parando sua corrida toda desengonçada, quase caindo sobre uma estagiária.

Denis gostava muito de conversar, mas almoçar com o chefe significava algumas horas a mais de descanso, algo que ele nunca dispensou. Ser chefe tinha suas vantagens: chegar mais tarde, tirar horas de almoço, delegar funções; mas também trazia muita responsabilidade, não é à toa que minhas horas de trabalho não se resumiam a oito horas diárias, certos dias, adentrava a madrugada, tirando uma pausa ou outra pra fazer uma caminhada pelas ruas enquanto fumava um cigarro (parte 1).

Aquele almoço tinha um único propósito. Precisava conversar com alguém sobre o que estava acontecendo comigo, e ninguém mais adequado que um grande amigo, que já havia me ajudado em tantas outras coisas na vida.

As três horas que me separavam do bate papo foram repletas de reuniões, conversas e ligações de clientes. Tanto coisa pra fazer que esqueceria do almoço se não fosse o Denis vir me chamar.

– Então, pronto pro almoço?
– Ainda bem que você lembrou, pois eu já estava quase pedindo um lanche. – desabafei, soltando a caneta e o óculos sobre a mesa. – Pronto, vamos dar o fora daqui antes que eu fique louco.

Fomos com o carro do Denis até o restaurante. Um almoço leve foi o que pedimos: uma salada, grelhados e um punhado de arroz; e pra beber, sucos.

Quando estávamos pedindo a sobremesa, acabei desabafando com Denis, explicando o que havia acontecido na noite passada, meus medos, preocupações e, principalmente, o pedido de um encontro que ouvira assim que acordei. Denis ouvia toda a conversa, atencioso como sempre, deixando para tecer seus comentários ao final.

– E o que você pretende fazer? – arriscou a pergunta. – Vai aparecer para o encontro?
– Não sei, DenisDenis. Depois do episódio do elevador, estou pensando em arriscar uma visita ao primeiro andar.
– É, não custa aparecer. – murmurou enquanto abocanhava um pedaço de torta alemã. – Se quiser, posso te acompanhar.
– Nossa, seria um alívio. – suspirei aliviado com a proposta. – E o que irá dizer pra Ana?
– Ah, fica tranquilo. Hoje é sexta, ela vai sair com as amigas, digo que fui beber uma breja contigo. Tranquilo.

Mais tranquilo, pedimos dois cafés, a conta e voltamos para a agência. Eu estava bem mais calmo, pois teria o suporte de Denis naquela tarde, o que tornou a tarde mais produtiva até a hora de saída.

– Denis, estou pronto pra ir. – parado na porta de sua sala, completei. – Não desistiu, não é?

Com um sorriso de satisfação – não sei se pela saída no horário ou por ser sexta-feira -, respondeu.

– Desistir? Nunca! – afastando a cadeira para se levantar. – Pronto. Vamos?

Dessa vez, não havia acidentes na marginal, e em 15 minutos já estávamos no estacionamento do meu prédio.

– Quer passar em casa pra se arrumar pro encontro? – Denis estava achando aquilo muito engraçado.
– Dá um tempo! – respondi rindo.

Chamamos o elevador, apertei o botão do primeiro andar. O elevador passou pelo térreo sem parar, atingindo o primeiro andar rapidamente.

– É nesse andar que…

A voz de Denis estava sumindo, sendo abafada por um barulho ensurdecedor que fazia a porta do elevador. A luz interna piscava, o painel dos andares já havia desaparecido. Eu, perplexo, olhava tudo aquilo com toda a descrença que encontrava. Estava experimentando a mesma sensação das outras vezes – algo que já estava se tornando comum, naquelas situações -, a visão estava turva; já não conseguia ver mais nada, até que aquela voz familiar surgiu.

– Boa noite, Senhor. Fico feliz que tenha aceitado o encontro.
– Anfitrião?!?


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