[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 3

Tudo o que eu precisava para esquecer o dia de ontem era uma boa noite de sono, se possível, sem sonhos; fechar os olhos e abri-los de manhã: uma prévia da morte. No entanto, não foi isso que aconteceu…

A noite havia sido confusa, cheia de acontecimentos que beiravam a loucura, incertezas que nem eu mesmo saberia dizer o que havia acontecido. Ainda mais porque a única evidência de que havia acontecido se esvaiu no ar, dando lugar a um prédio comercial.

Em casa, o sono era tamanho que deixei o lanche de lado para tomar um banho rápido, pois minha cama estava a me chamar, convidando para uma noite agradável de sono. Porém, foi colocar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos para que algo completamente estranho começasse a acontecer.

Assustado com os barulhos, abri os olhos rapidamente, percebendo a mudança que ocorria nos meus aposentos: o quarto estava se transformar, a tomar uma forma totalmente diferente da que eu conhecia; as paredes se reorganizavam, afastando em suas paralelas, ampliando o ambiente, deixando-o não muito maior, porém, mais amplo; as luzes surgiam no topo de velas posicionadas em candelabros suntuosos sobre a mesa central; a cortina se dissipava, dando lugar a uma grande janela, iluminando o quarto com a luz do luar; a cama alargou-se, surgindo, em seu topo, uma espécie de mosquiteiro, na qual permanecia deitado.

Toda essa transformação não demorou mais do que alguns minutos – dois, no máximo. Porém, antes que pudesse ver toda a mudança, meus olhos embaçaram, voltando ao normal assim que uma voz se fez presente, na porta dos aposentos.

– Sua Graça, os convidados já começam a chegar. – dizia o rapaz enquanto entrava nos aposentos de seu senhor, segurando suas vestimentas.

O jovem rapaz trazia em suas mãos uma espécie de manto. Ainda sem olhar pra mim, tentou colocá-lo sobre meus ombros, mas recusei.

– O que é isso? – disse, afastando o jovem.
– Não gostaria de ajuda para se vestir, Sua Graça?
– Não, claro que não! – disse. – Aliás, onde estou?

Pela primeira vez, o jovem olhara para mim – não nos olhos -, com uma expressão de espanto refletida em todo seu rosto.

– Em vossos aposentos, Sua Graça. – respondeu pausadamente.
– Aposentos? – perguntei incrédulo. – Como assim?

A expressão no rosto do jovem ainda não havia se dissipado, permanecia estampada – mesmo tendo seus olhos voltados para o chão, em forma de respeito, presumo, fui capaz  notar que ele estava mais assustado do que eu.

– Estou bem, deixe as roupas aí que as vestirei sozinho. – disse, tentando parecer calmo.

Ouvindo essas palavras, o jovem deixou os aposentos enquanto eu permanecia ali, perplexo com tudo o que estava acontecendo. Cheguei a imaginar que fosse somente um sonho, mas, quando fui espiar a janela para ver a chegada das carruagens, consegui distinguir um rosto conhecido: o anfitrião.

Esfreguei os olhos. Colei o rosto no vidro da janela – estava muito frio -, tentei colocar toda a minha atenção naquele rosto, mas a tentativa foi em vão, ele acabara de adentrar às dependências.

Curioso, peguei o manto, joguei-o nos ombros e saí do quarto. Na porta, ainda me esperando, o jovem logo se posicionou para dar sua total atenção.

– Vejo que Sua Graça já está pronto. – analisando as vestimentas de cima a baixo, completou. – Eles o aguardam na grande sala.

“Grande sala”? Mais alguma coisa que não me soava estranho. E, assim, pedi para que o jovem me levasse até a grande sala para receber os convidados. Porém, na verdade, o que eu queria era conferir se a pessoa que havia visto pela janela era realmente o anfitrião.

Descemos um grande lance de escadas em arco, chegando ao hall de entrada da casa – nessas alturas eu já estava imaginando que tudo aquilo era um castelo, devido ao tamanho dos corredores, escadas, salas, quartos. O hall era muito bem decorado, a simplicidade era o auge da decoração; piso e colunas de mármore, com algumas estatuas para preencher os vãos das colunas, enquanto alguns homens esperavam ao lado da porta de entrada, parados como se fossem parte da decoração.

– Por aqui, Senhor. – disse o jovem, indicando a entrada da sala.

Olhei para o jovem, olhei para a entrada da grande sala, tornei a olhar o jovem – fiquei nesse vai e vem durante três viradas. Ele, parado na entrada, demonstrava que não poderia passar daquele umbral. Assim, sozinho, decidi entrar na grande sala.

Os poucos passos que dei foram suficientes para reconhecer o local, aquela sala era a mesma que eu havia estado na noite anterior; a mesma decoração, os mesmos objetos, até o rapaz que havia anunciado meu nome estava lá, parado, aguardando o exato momento que me fizesse totalmente presente na porta de entrada.

– Aguarde um momento, Sua Graça, que anunciarei vossa entrada.

E assim, após ser anunciado, todos os convidados fizeram uma reverência, permanecendo em total silêncio, sendo quebrado, somente, pelo anfitrião da outra noite, que do fundo buscava passagem por entre os outros presentes.

– Sua Graça. – disse fazendo uma reverência. – Que bom que conseguimos marcar essa reunião.
– Como a de ontem à noite? – perguntei.
– Sua Graça? – olhando desconfiado, completou. – Ontem?
– Sim, ontem! Vai dizer que não se lembra de ontem à noite, quando você disse pra mim que todas as respostas seriam dadas em seu tempo.
– Estou confuso. Não nos encontramos faz 2 meses.
– Dois meses? Tu tá de brincadeira comigo, não?

O anfitrião deu um passo pra trás, arregalou os olhos e sem saber o que fazer, fez uma nova reverência.

– Não, de foram alguma, Sua Graça! – respondeu rapidamente. – Juro que não sei do que o Senhor está falando.

Diante de todo aquele medo, acreditei no anfitrião, pedindo desculpas pelo meu comportamento.

– Fique calmo. Está tudo bem. – colocando a mão em seu ombro, perguntei. – Então, diga-me o porquê desta reunião? Ainda mais a essas horas.
– Claro! Acompanhe-me, Sua Graça. Vamos nos juntar ao resto do grupo, assim poderemos dar início à reunião.

Ao passo que caminhava, notei em alguns rostos certa familiaridade, pois eram os mesmos que estavam presentes na noite anterior.

Segui o anfitrião até o final da grande sala, aonde estava posta uma mesa. Assim que demos a volta, parando no lado oposto, bem ao centro da mesa, todos os convidados procuraram suas cadeiras, aguardando uma autorização para sentarem-se. O anfitrião indicou as cadeiras para que sentassem e, esperando o silêncio para falar, disse:

– Como todos já sabem, Luis XIV acaba de abolir o Édito de Nantes, que por 87 anos aceitou os protestantes (calvinistas). Porém, novamente, seus seguidores irão sofrer as consequências, serão perseguidos e torturados pelo Rei-Sol. – disse, apoiando as mãos sobre a mesa, fazendo uma pausa.

Aquele momento de reflexão era o que eu precisava para colocar todas aquelas palavras em ordem: Édito de Nantes? Luis XIV? – confesso que nunca fui excelente aluno em história, mas palavras como essa não escapam de um ouvinte.

– Calma! – disse, interrompendo o silêncio. – Como isso é possível?

Os olhares se dividiam entre reprovação e cumplicidade. O anfitrião, porém, olhou-me com reprovação, como se minha pergunta fosse a mais descabida possível.

– Após a subida ao poder, com a morte de Jules Mazarin (Cardeal Mazarino). Luis XIV, suas ideias absolutistas, tornaram essa realidade possível, através de sua afirmação L’État c’est moi (O Estado sou Eu). Tal acontecimento  preocupou todos nós, Sua Graça.
– Sim, claro! – tentando parecer o menos alienígena possível, completei. – E você acredita que isso irá nos influenciar?

A pergunta foi escolhida a dedo – confesso. Aliás, precisava fazer parte daquela loucura, mesmo que me parecesse a coisa mais absurda possível.

– Sim, Sua Graça. A Sociedade necessita de uma maior atenção, senão seremos perseguidos também.

Por um momento, imaginei que aquele grupo fizesse parte dos protestantes, por isso a preocupação. Porém, a pergunta que fiz demonstrou outra realidade.

– Só por sermos protestantes? Você não acha que podemos esconder esse fato das autoridades? Podemos fingir sermos católicos e tudo estará resolvido.

A pergunta havia silenciado a grande sala. Olhares e murmúrios dominavam a sala. Eu, sem entender nada, continuei.

– Vocês não acha que isso seja possível?

Porém, dessa vez, ninguém deu atenção à pergunta que havia feito, a sala e os meus supostos convidados estavam envolvidos em pequenas conversas, até mesmo o anfitrião havia deixado de pedir silêncio para conversar com outro senhor que estava a seu lado.

– Alguém pode me dizer o que está acontecendo? – levantando a voz, perguntei.

Apesar de não ter cessado os falatórios, minha pergunta se fez na sala, chamando a atenção do anfitrião que se dirigindo-se a mim.

– Sua Graça se sente bem? – disse, segurando o meu braço. – Parece-me que…

A voz do anfitrião começou a falhar. Meus olhos voltaram a embaciar-se, tornando-se úteis após alguns segundos.

Quando consegui distinguir as formas novamente, vi que estava deitado em minha cama; a janela trazia o ar fresco da manhã com alguns finos raios de sol. Olhando o meu quarto, minha cama e, principalmente, a janela, disse em voz alta:

– UM SONHO!! Real, com certeza, mas ainda assim um sonho.

Porém, antes que o sol surgisse por inteiro e meus olhos voltassem completamente ao normal, pude ouvir uma voz conhecida dizendo:

– Procure-me no primeiro andar de seu prédio. Estarei esperando por você às 18 horas.

Olhei para o lado procurando o anfitrião, mas nada encontrei. Assustado, corri até o banheiro.

– O que está acontecendo comigo? – falei em voz alta enquanto jogava um punhado de água no rosto. – Acorde, acorde!!!


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