[Minissérie] A Sociedade Secreta – parte 1

Você já se encontrou andando pelas ruas da tua cidade, observando os antigos prédios enquanto fumava um cigarro? Pois é, eu também.

Até aí, nada fora do comum, não é verdade? Corriqueiro pra quem vive na agitação da cidade grande, e precisa de um tempo pra você mesmo. Porém, o que você está prestes a ler não se trata de um dia comum, mas de uma longa jornada, que nunca imaginei que pudesse acontecer. Aliás, nunca havia imaginado que tais coisas poderiam, realmente, acontecer.  Mas realmente aconteceu – veja bem, não sou de acreditar nessas situações, muito pelo contrário, sou cético, acredite.

O dia estava prestes de chegar ao fim, com uma bela discussão no trabalho.; uma discussão daquelas intermináveis, que me havia sido confiada. Algumas opiniões fizeram a noite se arrastar por mais do que deveria, mantendo-me preso ao trabalho por algumas horas extras – algo que se tornara rotina desde a minha última promoção. Cansado de tantas ideias, resolvi sair para caminhar um pouco pelas ruas, somente para esfriar a cabeça, pensar um pouco; agrupar as ideias e colocá-las em prática de uma forma mais rentável, pois, era essa a minha função: mais trabalho pra mim e lucro pra empresa.

Naquele horário, como era de costume, poucas pessoas ainda circulavam pelo prédio, o que facilitava muito a minha chegada à rua; mesmo sendo preciso apresentar o crachá para sair, o tempo era menor se comparado ao horário de pico, o que me deixava muito satisfeito, pois sempre odiava ter que aguardar os intermináveis minutos até que o elevador pudesse prestar seu serviço – às vezes, acho que ele tem vida própria e, por isso, não para no meu andar.

Já na rua, fiz o que sempre fazia, puxei o isqueiro, o maço de cigarro e comecei a andar no ritmo das tragadas: com tranquilidade. Observavando os prédios enquanto as ideias pipocavam, ao ponto de ouvir as opiniões do grupo, todas de uma só vez, fazendo um esforço enorme para focalizar somente em algumas, pois outras eram completamente sem propósito.

No entanto, ainda que fosse comum voltar ao escritório após terminar o cigarro, nessa madrugada alguma coisa me impulsionava alguns passos a mais – não sei dizer o quê, mas era como me sentia. Já havia caminhando tanto que voltar pro escritório andando seria inviável. Assim, colocando um pé após o outro, como se estivesse me movendo por uma vontade alheia, continuei pelas ruas, deixando os prédios para trás, juntamente com as ideias, que se dissiparam por completo. Meus pensamentos estavam voltados ao caminhar.

Quando já havia chegado ao terceiro cigarro, encontrei, em uma esquina qualquer, uma velha casa com algumas luzes ainda acesas: um velho casarão, pensei. Parei na portão de entrada, que estava aberto, olhei curioso para as cercanias da casa, procurando encontrar alguém que me desse informações sobre aquele lugar, pois, aquela vontade de andar havia cessado, como se meu corpo tivesse andado até aquele local, de propósito. Porém, só o que vi foram as luzes piscarem através das cortinas.

Intrigado, resolvi entrar. Cada passo em direção à casa era como se entrasse em uma sala cheia de fumaça; minha visão estava turva, mal conseguia decifrar se eram luzes ou apenas uma parede branca a refletir a luz da lua. Três, quatro, cinco passos até que minha visão voltasse ao normal, permitindo decifrar aquele clarão como sendo apenas luzes de velas, não de uma lâmpada. Aliás, todo o lugar havia se tornado antigo, como naqueles velhos quadros bucólicos: árvores, uma grama verde – apesar da noite -, grandes paredes formando a casa. Enfim, um lugar bem diferente do que havia visto. Era como se eu estivesse olhando para o passado, se é que isso seria possível.

Assim, contemplando aquela gigantesca casa, toda acesa com luzes de velas, segui mais alguns passos em direção à varanda. Puxando mais um cigarro para espantar o frio, subi o primeiro degrau, depois o segundo e, por fim, o terceiro – a visão daquela varanda era esplêndida! Nunca imaginei que um lugar daqueles pudesse realmente permanecer intacto em meio a prédios de aço e concreto; uma imagem completamente diferente do que estava acostumado. Assim, contemplando aquela belíssima casa, fumava meu cigarro enquanto tentava colocar sentido naquilo que estava diante dos meus olhos.

Alguns minutos haviam passado quando pude ver uma sombra passando pela janela, indo em direção à porta – o barulho do ferrolho me deixou assustado, confesso. Foi questão de segundos até que uma figura aparecesse na porta, carregando um lampião acesso por uma vela.

– Senhor. – disse num tom formal. – Estão todos a vossa espera.
– Como? – retruquei. – Quem está me esperando? – perguntei, esperando alguma resposta, mas o rapaz simplesmente se curvou e escancarou a porta, fazendo uma reverência assim que entrei.
– Queira me acompanhar, por favor. – falou, enquanto me indicava o caminho. – Eles estão na grande sala, Senhor.

Fiz as mais variadas perguntas enquanto caminhávamos, mas aquele rapaz parecia não dizer uma só palavra, simplesmente indicava o caminho, iluminando-o com seu lampião. Entretanto, assim que chegamos a suposta grande sala, ele parou de repente, como se sua entrada fosse proibida.

– Senhor, eles o aguardam.
– Você não irá me acompanhar? – perguntei, porém, novamente não houve uma resposta.

Ainda sem entender o que estava acontecendo – e olha que não foi por falta de perguntas -, tentei espiar a grande sala; olhando daqui, dali, mas pouco pude ver. Arrisquei um passo, no entanto, meu receio era tão grande que fraquejei. Pensei em pegar um cigarro, mas aquele que havia fumado na varanda havia sido o último do maço. Logo, sem apoio, sem condução e com pouca coragem, estufei o peito, recolhendo o medo e entrei.

[Caro leitor, quando o rapaz disse “a grande sala” imaginei que fosse somente uma forma de chamar o ambiente, mas, sem exagero, era um GRANDE salão, acredite. Provavelmente caberiam 700 pessoas bem acomodadas.]

Aquela visão acabou com o peito estufado. Meus olhos não acreditavam no que viam. Aliás, não seria capaz de dizer que aquela casa comportaria um salão daquela magnitude.

E, assim, contemplando o ambiente, fiquei por alguns instantes – não mais que 2 minutos -, até que um outro rapaz apareceu ao meu lado.

– Senhor, queira aguardar enquanto anuncio vossa presença.

Minha presença? Pensei. O que quer que fosse que ele estivesse falando, não fazia a menor ideia, aliás, não sabia nem mais quem eu era. Dada tanta formalidade, não fazia ideia do que se tratava tudo aquilo. Só poderia ser um engano, pensei. Mas, assim que ele anunciou o meu nome, vi que não havia sido um engano; era eu – pelo menos o nome ele havia acertado.

O silêncio tomou conta do salão. As pessoas voltaram seus olhos para o rapaz, enquanto ele anunciava minha chegada. Logo após, olharam em minha direção e, com um simples gesto, fizeram uma reverência, praticamente no mesmo instante. Olhei para o rapaz, mas este já havia voltado a sua posição inicial: encostado ao lado da porta. Olhei pra ele, olhei para a “plateia” e ninguém falava nada, pareciam esperar alguma palavra minha, que não tardou a chegar.

– Ok. Alguém pode me explicar o que está acontecendo?

[Sim, não foi a melhor pergunta, mas a curiosidade estava me matando.]

Ao longe, vi um senhor caminhar pela plateia, que abria o devido espaço para que ele passasse, porém, mantendo o silêncio constrangedor. Silêncio que foi quebrado com as palavras do velho senhor, logo após fazer, novamente, uma reverência.

– Todas as repostas serão dadas em seu tempo. – disse, quando chegou mais perto, quebrando o silêncio. – Venha, temos muito o que conversar.

 


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