[Conto] Uma noite

Os ventos fortes da noite de inverno já haviam diminuído quando Catarina deixou seu livro na mesa ao lado da poltrona que ganhara de sua avó.
As luzes da pequena cidade do interior paulista ainda mantinham-se acesas por força de um gerador municipal, que fornecia a iluminação pública. Porém, nas casas, lampiões e velas ainda eram o principal gerador de iluminação doméstica.

Catarina, sem sono, resolveu tentar ler aquele velho livro empoeirado que tantos anos fez parte da pequena biblioteca de sua avó. Porém, devido à baixa iluminação, a leitura não estava fluindo, ou seria a história que não havia agradado. Independente do motivo, seu ânimo para leitura não estava no ápice, deixando, portanto, seu corpo afundar no conforto daquela poltrona.

Diferente de sua percepção à leitura, seus olhos observavam o ambiente como um todo, não deixando escapar detalhe algum, seja ele dos móveis ou do próprio espaço em que estava confinada. Assim, a cada centímetro que afundava naquela poltrona, mais podia observar a amplitude da pequena sala de estar, que apesar de não dispor de muito espaço para abusos na decoração, possuía um alto pé direito – sentindo que mais parecia um lindo hall de um castelo, privilégios proporcionado somente pelos belos casarões da época do café; ou um castelo, claro.

Os minutos, como se horas fossem, passavam vagarosamente, enquanto Catarina notava cada detalhe do pequeno salão, imaginando como teria sido a vida de sua avó, naquela casa – outros tempos, pensou.

Os móveis de madeira rústica, presentes de um amigo da família que já não podia frequentar mais aquela região, fruto de uma briga que tivera com seu avô, história tão antiga que Catarina não sabia mais o que havia acontecido, contrastavam com a mobília mais moderna.

Catarina havia perdido sua avó há poucas semanas, e como era a única herdeira, foi obrigada a visitar aquelas lembranças.

– Ah, vovó, que saudade das nossas conversas. – suspirou. – Conversas que levavam finais de semana e até meses de férias.

Segurando as pernas, tentando se manter totalmente dentro da poltrona, Catarina se aninhava mais e mais, como se ainda pudesse sentir o cheiro, a voz, a risada de sua avó, mesmo que tudo fosse obra de uma grande mentira fabricada pelas lembranças de outros tempos.

Naquela posição fetal, Cataria adormeceu num sono tão profundo que nem os ventos fortes, que balançavam as antigas janelas, foram capazes de acordá-la.

– Acorde, Catarina. – dizia uma voz ao longe. – Vamos, já está tarde, você não acha? O dia está muito bonito lá fora. Ajude-me a colher algumas flores.
– Vó? – perguntou, incrédula. – É você?
– Sim. – respondeu sorrindo. – Você estava esperando outra pessoa?

Seus olhos arregalaram com tanta força, que pulou rápido demais, assustando sua avó.

– O que houve? – dizia segurando seu braço. – Até parece que viu um fantasma. – respondeu sorrindo.
– Não… – respondeu sem pensar. – Sim, quero dizer: Como?
– Vamos, pare de bobagens. – puxando Catarina, completou. – Venha, vamos pegar algumas flores, pois o dia está maravilhoso para ficar deitada até mais tarde.

Ainda segurando seu braço, Catarina praticamente era arrastava para fora de casa, por sua avó. O que nada impedia de esfregar seus olhos arregalados, beliscando, vez ou outra, o próprio braço, enquanto era puxada para a porta.

– Vó, espera! – disse, dando um tranco no braço. – Como isso tudo é possível? A senhora está…

Mas sua voz sumia, abafada pelas palavras de sua avó.

– Estou bem, Catarina, não se preocupe. – disse com aquela doce voz que Catarina tanto sentia falta. – Vai me ajudar ou não?
– Claro! – prontificando-se.

Por mais que toda aquela situação fosse impossível, poder estar com sua avó era algo que Catarina mais desejava. Preferia alguns momentos com ela do que uma vida inteira de lembranças.

– O que você acha dessa? – perguntava. – E dessa?

Sua avó concordava com todas as flores que ela apresentava, deixando Catarina muito feliz, sorridente e despreocupada se tudo aquilo era verdade, ou não. O importante era estar ali, compartilhando pequenos momentos com sua avó.

– Catarina… – chamou, tocando em seu ombro. – Acho que já temos flores suficientes.

Ao entrarem em casa, Catarina sentiu um cheiro agradável de bolo de fubá preenchendo toda a casa, trazendo uma paz e, claro, fome.

– Não acredito!? – surtou. – A senhora fez bolo de fubá!
– Claro. – disse sorrindo. – Não é o teu preferido?
– Sim! – concordou prontamente. – É não reparei no cheiro quando saímos de casa.
– Bobinha, tinha acabado de colocá-lo no forno. – disse. – Agora que temos as flores, bolo e chá, vamos comer e conversar.

Devido ao mal de alzheimer, sua avó deixara de fazer qualquer coisa havia tempos, praticamente 2 anos antes da sua morte. Então, você pode imaginar a alegria que Catarina sentia com todo aquele aroma e, principalmente, da conversa que teria com sua avó, pois sempre que havia bolo e chá, a “conversa era obrigatória”, como ela sempre dizia.

– Temos chá de camomila, hortelã e cidreira, o que você quer, Catarina?
– Cidreira! – respondeu com um brilho nos olhos.

A conversa foi a mais corriqueira possível. Catarina ouvia as histórias de sua avó, contava as suas mais novas aventuras. Tudo estava como ela sempre desejava.

– Catarina, você me acompanha para uma caminhada? – perguntou sua avó. – Antes que fique muito tarde.
– Sim. – concordou. – Mas vamos pra onde?
– Uma caminhada pra aproveitar o final de tarde. – respondeu. – Mas não esqueça de pegar as flores! Vou pegar uma blusa.

Catarina nem pensou, correu até a cozinha, apanhou as flores e seguiu até a porta de entrada da casa.

– Ah, muito bem. Vamos, então.

A tarde estava quase no seu fim, o sol demonstrava cansaço, aquecendo muito pouco os poucos que ali estavam.

– Não trouxe uma blusa, Catarina?
– Não, não estou com frio.
– Depois pega uma gripe, quero só ver quem vai cuidar.
– Não se preocupe, Vó. – disse sorrindo. – Qualquer coisa a senhora cuida de mim.

Sua avó abaixou os olhos e tirou o sorriso do rosto, mas Catarina não percebeu, estava abraçada com ela e caminhava alegremente pra notar esse pequeno detalhe.

– Venha, vamos entrar aqui.
– Aqui? – perguntou desconfiada. – No cemitério?
– Sim. Por que, tem medo?
– Não… – gaguejou. – Não é medo, só não me sinto bem nesse lugar. Não venho aqui desde o dia de…

Catarina perdia a voz sempre que tocava nesse assunto. Tinha medo que tudo aquilo acabasse, que não passasse de um simples sonho.

– Vamos, Catarina. Pela segunda vez que você começa uma frase e não termina. Diga o que está acontecendo.

Ela havia sido pega de surpresa, não esperava que sua avó a inquirisse dessa maneira. Porém, não viu outra solução a não ser tocar, novamente, no assunto.

– Eu preciso te contar. – quase sem coragem, continuou. – É que a senhora… – novamente a voz não a obedecia. – A senhora está morta.

Sua avó, que estava com uma expressão de poucos amigos, ao ouvir aquela frase, colocou um sorriso nos lábios e voltou a caminhar.

– A senhora ouviu o que eu falei? – perguntou assustada.
– Sim, ouvi, minha neta.
– E não tem nada pra falar?
– Não, mas preciso te mostrar uma coisa.

A cada passo que elas davam, Catarina começava a reconhecer o local, as árvores, o gramado, a lápide.

– Venha. – dizia sua avó. – Não tenha medo.

Catarina estava de frente para a lápide de sua.

– Como eu havia lhe dito: Como isso é possível? – disse virando-se pra sua avó, mas nada encontrou. – Vó? Vóóóóóó!

Assustada, Catarina acordou. A noite já tinha ido embora, a manhã estava ensolarada, o cheiro de fubá ainda impregnava suas narinas. Olhando pela janela, viu as flores. Parada olhando aquilo, levantou-se, trocou de roupa e foi até o jardim e colheu algumas flores.


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