[Minissérie] Uma semana – parte 10 – o final

A noite estava calma, sem nuvens ou qualquer tipo de neblina que atrapalhasse o caminho de André. Seus pensamentos eram de Ana. Uma arquiteta do sul do Brasil; mulher estonteante, divertida e, acima de tudo, apaixonante. Porém, comprometida.

– Claro! Como poderia ser diferente? Uma mulher assim nunca estará sozinha – falou para o banco do passageiro, como se alguém ali. – E eu que imaginei somente tirar uma folga para aliviar o estresse de São Paulo, estou aqui, voltando com mais um, só que sem solução alguma.

André balançava a cabeça de um lado para outro, indicando que não aprovava sua conduta, culpando-se por ter sofrido daquele jeito. Porém, sempre mantinha os olhos entre a estrada e o celular que estava no painel do carro, conferindo se a bateria aguentaria toda a viagem. No entanto, com um último piscar, desligou, levando André a um pequeno momento de insanidade.

– Muito bem! Agora sim, a semana está completa!!!

Irritado, resolveu parar para esticar as pernas, mesmo faltando somente alguns quilômetros pra São Paulo. Procurou um posto de beira de estrada, onde pudesse comprar algo para comer, pois não havia comido nada desde que acordou. Encontrou o posto a menos de dois quilômetros. Firme na ideia, encostou o carro, onde permaneceu por alguns minutos, decidindo o que iria comprar – André, nessas situações de estresse, odiava entrar em alguma loja e ficar escolhendo o que comprar, gostava de demonstrar que ainda possuía um autocontrole.

Já decidido no que compraria, desligou o carro, deixou o celular no porta luvas e foi até a entrada da loja. Com a lista de compras na cabeça: uma água, um refrigerante, um pacote de salgadinho e algumas balas; seguiu rumo às compras. Já saindo do caixa, André conferiu tudo que havia pego, mas ficou na dúvida se voltava e pegava um suco. Usando sua melhor expressão de dúvida, olhou novamente para a loja e falou consigo mesmo:

– Não, só a água e o refrigerante já são suficientes, suco seria demais – disse. Como sempre fazia em momentos de dúvida.

Porém, ao seu lado, uma mulher retrucou:

– Eu ficaria com o suco, com certeza.

André se virou, olhou a mulher de cima a baixo e disse:

– Não! Só pode estar de brincadeira comigo. De novo? – e foi embora sem continuar a conversa, balançando a cabeça como se não acreditasse no que havia escutado.

Enquanto André fugia daquela situação, caminhando até o carro, Ana já se encontrava em casa, muito mais disposta depois da conversa que tivera com Dona Carmem. Estava tão empolgada que mal conseguia arrumar suas coisas; separou suas roupas, seus produtos de higiene, mas não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o dia seguinte. E, assim, foi tomar um banho.

Seu banho fora demorado – um banho na alma, podemos assim dizer. E, sentada em sua cadeira, começou a pentear seu cabelo, demoradamente. Quando acabou, olhou para a cama, mas não tinha sono algum, sabia que iria deitar e ficar imaginando milhares de coisas. E assim, pegou o celular e foi até a cozinha arrumar a louça que ainda estava na pia.
André havia chegado na casa de sua mãe, por volta das 11 horas da noite, duas horas a mais do que o esperado, devido a um acidente na marginal somado ao trânsito caótico de qualquer sexta-feira. E estacionando o carro na garagem, foi recebido por sua mãe.

– Demorou pra chegar. Está tudo bem?
– Sim, só um acidente na estrada que atrasou tudo. Mas estou bem. E você?
– Bem melhor agora! Estava tentando te ligar faz duas horas, mas só dava caixa postal. Acabei ficando preocupada.
– Ah… a bateria do meu celular acabou.
– Você precisa comprar aqueles carregadores de carro, sabia?
– Eu tenho, mas não pensei que iria precisar.
– Bom, Graças a Deus que está tudo bem. Fiquei bem preocupada. Mas, enfim, venha, entre que você deve estar bem cansado da viagem – disse, ajudando o filho com a mala.
– Então, me conte como foi a viagem. Conheceu alguém? – disse com um tom de quem sabia alguma coisa.

André tentou disfarçar, puxando um outro assunto, mas sua mãe sabia de tudo, pois Dona Carmem havia telefonado, contando todos os detalhes da versão de Ana.

– E quem é “Ana”? Alguém que você está saindo e eu não conheço?
– Não… – continuou tentando disfarçar.
– Vamos, meu filho, conheço você. Além do mais, quando conversamos pela última vez, você trocou meu nome assim que atendeu, lembra?

André sabia que não conseguiria esconder a história de sua mãe, e com um sopro de alívio, começou a contar a história.

– Sim, existe uma Ana, e a conheci na praia.
– Conte-me, conte-me! – disse toda empolgada, sentando-se no sofá.
– Bom, foi assim… [parte 1]

Sua mãe prestava atenção a cada detalhe, mesmo já sabendo a história, queria ouvir a versão de seu filho. Interrompendo algumas vezes para não deixar escapar algum detalhe.

– E vocês…?
– Sim, mãe – ele disse rindo.
– Nossa! Na minha época as coisas eram bem diferentes.
– A senhora quer, ou não, ouvir o resto da história?
– Sim, sim… conte-me!

A conversa estava tão boa, que ela preparou um chá e biscoitos para continuar acompanhando a história.

– Para tudo – disse ela. – Você pegou os dois no flagra? – Dona Carmem não havia entrado nos detalhes.
– Bom… peguei os dois aos beijos.
– Hum… continue.
– Foi isso, não tem mais história – disse, levantando-se do sofá. – Por isso que decidi voltar mais cedo pra casa, não queria ficar lá imaginando que poderia encontrá-los.
– E vocês não conversaram?
– Não. Virei as costas e vim embora. Esperei que ela fosse me ligar, mas não ligou. Deve estar feliz com ele… Mas sabe o que é pior? Eu estava realmente gostando dela… uma mulher de bem com a vida, divertida, engraçada, bonita, bem sucedida. Foi, praticamente, impossível não me encantar.

Ela ouviu André dizer essas palavras com um sorriso no lábios. E levantando-se do sofá, disse:

– Era só isso que eu precisava ouvir.
– Como? – disse surpreso, olhando para sua mãe. – Precisava ouvir o quê?
– Que você está apaixonado por ela.
– Bobagem. Foi uma paixão de verão que não deu certo.
– Não deu, mas pode dar.
– Agora a senhora está me deixando mais confuso. Como poderia dar certo? A senhora não ouviu o que eu disse? Ela não ligou, não me procurou. Eu liguei várias vezes e ela não retornou!
– Você precisa ligar pra ela! Precisa saber o que aconteceu, meu filho. Talvez não seja nada demais. Você não pode ficar assim, deprimido por não ter dado certo, ainda mais sem saber o que aconteceu. Pela história que contou, ela está muito interessada em você, assim como você está por ela.
– Se ela estivesse interessada, não teria ficado com outra pessoa, não é verdade?
– Não sei, e só quem sabe é ela. Por isso mesmo que vocês precisam conversar. Faça o seguinte, André. Durma aqui hoje, coloque o teu celular pra carregar e amanhã você liga pra ela.

André bem que precisava descansar, estava muito cansado da viagem e já não sabia mais ao certo o que pensar. Já não sabia se sua decisão em voltar pra São Paulo havia sido precipitada demais, ou a melhor opção.

E, assim, cheio de dúvidas, André aceitou o convite de sua mãe, decidindo descansar um pouco para depois conversar com Ana.

Quando o relógio bateu 4 horas da manhã, Ana já limpara toda a casa, arrumado suas malas e separado tudo que precisaria para fazer a viagem até São Paulo. Assim, cansada por todo o trabalho, foi até seu quarto, puxou os lençóis da cama e se deitou, pegando o celular para dar uma última olhada, torcendo para que houvesse alguma ligação ou mensagem, porém, como da última vez, não as encontrou. Tomada por um impulso, abriu o celular, e enviou a seguinte mensagem: André, preciso muito conversar com você!

– Ai… será que me precipitei? – perguntava para si mesma. – Bom, agora já foi, vamos ver se ele responde.

Ana esperou por alguns minutos com o celular na mão, porém, vencida pelo cansaço, embalada pelo barulho das árvores, adormeceu.

André acordara cedo e a primeira coisa que fez foi ligar o celular. Para sua surpresa, lá estava a mensagem de Ana, dizendo que eles precisavam conversar. Tomado por uma estranha felicidade, abriu um sorriso largo, respondendo a mensagem prontamente: Que bom, pois preciso conversar com você, também.

Ana estava dormindo quando a mensagem de André chegou, lendo-a somente às 10 horas da manhã, quando acordou.

– Ahhhhh… que bom!! – empolgada, disse em voz alta. – Será que Dona Carmem falou com ele? Ah, pouco importa – disse enquanto escrevia a resposta: Sei que você viu algo que não gostaria, mas você entendeu tudo errado. Deixa eu te explicar, por favor.

André estava tomando o café da manhã com sua mãe quando a mensagem chegou.

– E então, o que ela respondeu? – perguntou ela.
– Que eu entendi tudo errado e que quer me explicar.
– Tá vendo? Eu te disse! Agora responda a mensagem!

André respondeu dizendo que ele adoraria saber o que havia acontecido. Ana, ao receber a resposta de André, pegou suas coisas, jogou uma água no rosto, escovou os dentes e saiu correndo pela casa, abrindo rapidamente a porta. Deixando-a bater, entrou no carro e antes de sair, rumo à cidade grande, respondeu a mensagem de André: Você não imagina o quão feliz estou. Beijos.

– Ela respondeu – perguntou a mãe de André.
– Respondeu sim. Disse que está feliz por poder explicar a situação.

A mãe de André, que já sabia como seria o encontro dos dois, perguntou:

– E vocês vão conversar por mensagem o dia inteiro?
– Espero que não.
– Então, pergunta pra ela como vocês irão conversar, oras.

André olhou para mãe dele, pegou o celular e enviou a mensagem, perguntando como eles iriam se encontrar. Tendo ela respondido com as seguintes palavras: André, só te peço mais 2 horas! Daí poderemos conversar tranquilamente. Tudo bem? – Ana já estava meia hora na estrada quando André leu a mensagem pra sua mãe, que respondeu:

– Tempo suficiente pra você arrumar suas coisas e ir pra sua casa e se preparar psicologicamente pra vocês conversarem com tranquilidade. Além do mais, combinei de almoçar com as minhas amigas, hoje.

André pensou durante alguns minutos e respondeu a mensagem de Ana, dizendo concordar em esperar as duas horas. Tal notícia fez com que Ana se alegrasse ainda mais, mesmo sabendo que demoraria duas horas até encontrá-lo.

– Então? O que decidiu? – perguntou a mãe de André.
– Concordei em esperar as duas horas. Agora vou pra casa. Lá terei mais liberdade para conversar no telefone.
– Ah, com certeza! – disse com um sorriso no rosto, pois sabia que Ana o iria encontrar lá. – Bom, então, espero que vocês consigam conversar e resolver todo esse mal entendido.
– Também espero. Bom, estou indo. Tenha um bom almoço com as amigas, mãe.
– Obrigado! Ah, e depois me avise sobre o que aconteceu.
– Claro que avisarei – disse quando estava dentro do carro, e acenando, completou. – Tchau, mãe!

Ana estava há poucos quilômetros de André, porém, devido a reformas na pista, foi obrigada a pegar um desvio que a fez se perder pelas ruas desconhecidas, tornando a viagem 1 hora mais longa. Preocupada em não passar novamente a impressão errada, pegou o telefone e fez a ligação.

– Alô… André? – disse, acanhada.
– Olá, Ana, Tudo bem?
– Não muito, não é verdade?
– Pois é… Mas estamos aqui. O que você precisava tanto me explicar? – perguntou, num tom seco.
– Deixa eu ver por onde começo.
– Por que não começa explicando o que você estava fazendo aos beijos com outra pessoa. Sei que você não tem que me dar satisfação de nada, mas eu gostaria de saber.

Comece por esse ponto que veremos até onde essa conversa pode ir.

Ana não esperava uma atitude tão ríspida de André, sabia que a conversa seria delicada, porém, não a esse ponto. E, calculando muito bem as palavras, tentando evitar que a conversa terminasse ali, disse:

– … claro quer você merece uma satisfação, André. Eu havia combinado um encontro com você e simplesmente sumi, te forçando a vir até minha casa e ver aquela cena.
– Então, se é assim. Vou logo ao assunto. Na foto que você está sentada na varanda, na sua casa de praia, quem fotografou?
– Aquela que está na frente de todas as outras? Essa?
– Exato. Quem tirou?
– Meu ex-namorado.
– E quem era aquele que você estava beijando ontem?
– Meu ex-namorado.
– É… imaginei que seria. Você diz que é o seu ex-namorado, mas desde quando? Ontem, hoje, agora?
– Na verdade já faz 3 meses que estamos separados.
– Três meses? – André estava rude ao telefone, deixando Ana muito tensa. – Não foi o que pareceu ontem.
– Imagino que não tenha parecido. Mas a história foi a seguinte… [parte 8] – Foi um erro, André. Um momento de dúvida, não em relação ao que eu sentia por ele, pois não sentia mais nada, eu estava com dúvida nas minhas atitudes, e nesse momento ele me beijou.
– Mas você também o estava beijando, não estava?
– S-sim, estava. Mas foi um erro. Você tem que entender, André. Não sou perfeita, o Alexandre me conhece muito bem, e aproveitou-se de um momento vulnerável.
– Ana… – André já estava mais receptivo.
– Por favor, André, tente entender – interrompendo, continuou. – Sei que é difícil de acreditar, mas não estou com ele. O meu passado está resolvido. Quando você me perguntou o porquê eu tinha escolhido as praias paulistas, um dos motivos era para ficar longe da minha vida. Eu precisava pensar. Eu queria um momento sozinha, mas daí, veio você, todo sem jeito – ria ao dizer isso – carinhoso, educado e, principalmente, fazendo-me sentir uma mulher novamente. No dia que você nos viu, eu estava saindo pra te encontrar, mas ele apareceu. O que seria uma conversa se tornou uma discussão, e nessa hora ele me disse coisas que eu não havia reparado, coisas sobre as minhas atitudes, e foi nessa hora, quando estava completamente indefesa que me beijou.

André, agora, só ouvia o que Ana tinha a dizer, tentando raciocinar sobre tudo aquilo.

– Quando ouvi a porta batendo, corri pra ver quem era, e quando vi seu carro indo embora, soube que não era o Alexandre que eu queria, mas você: o homem que me encantou desde o primeiro dia – disse, com uma lágrima nos olhos – imagino como você está se sentindo, imagino mesmo! A única coisa que te peço é uma segunda chance: uma chance te fazer feliz…

A última frase fez amolecer toda aquela tristeza. Nunca ouvira isso de mulher alguma, nem mesmo de suas antigas namoradas.

– André? Você está aí? – perguntou, Ana.
– Estou sim… Ana, acho que precisamos conversar pessoalmente, por telefone não é a mesma coisa. Preciso olhar nos teus olhos, pra sentir que tudo isso é verdade…
– Então abra a porta – ela disse com um sorriso no rosto.

André custou a acreditar que aquilo seria verdade. Levantou-se do sofá, deu dois passos em direção à porta, ainda não acreditando, perguntou.

– Você está brincando, não é?

Ana respondeu com duas batidas.

– Escutou?

André se apressou, abriu a porta, e lá estava Ana, sorridente e completamente acanhada. Ele a olhou, abriu um grande sorriso, passou bem a mão bem de leve em seu rosto, escorregando-a até o pescoço, trouxe os lábios de Ana até os seus, beijando-a. Permanecendo ali durante minutos que mais pareceram horas, parando com o rosto colado no dela, e olhando bem em seus olhos, disse:

– Como você sabia onde me encontrar?
– Uma longa história. Tem certeza que vai querer ouvir?

Convidando-a para entrar, disse:

– Esqueceu que sou advogado…
– Sim, sim… e você VIVE de histórias! Já sei. Mas falta só uma coisa.
– O quê? – perguntou, André.
– O vinho…
– … mesmo quando não precisamos dele – disse, acompanhando o riso de Ana.


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