[Minissérie] Uma semana – parte 9

Ana sentia-se uma traidora, pois acabara de se igualar ao seu ex-namorado. Entregou-se aos braços de Alexandre sem medir as consequências, por simples prazer, pelo momento, nada mais. Agora estava lá, encolhida no sofá, segurava seus joelhos, chorando calada.

O celular estava largado sobre a mesa, sozinho, sendo observado entre um soluço e outro, com se alguma coisa pudesse acontecer, esperando, talvez, uma ligação de André; uma mensagem para dizer que estava tudo bem, que eles precisariam conversar. Ela esperava, esperava, torcia para que não fosse ele naquele carro, mas a placa de São Paulo não deixava dúvidas, era André e ela sabia muito bem disso.

Sua vontade foi de ligar para André, tentar explicar o que havia acontecido, mas como, pensava ela. Tentou alcançar o celular, estava decidida a fazê-lo, pensou que as palavras viriam na hora certa, mas como poderia explicar uma situação daquelas? Poderia usar as mesmas palavras de Alexandre, mas se nem ela mesma acreditava, como poderia demonstrá-las? Estava perdida, chorando em seu sofá, sentindo-se sufocada pela própria angústia. E, trazendo a mão de volta ao joelho, chorou novamente.

Alexandre, do lado de fora, ouvia os soluços, sabia que ela estava chorando, mas não se importou. Estava furioso pelo tapa que ainda trazia estampado no rosto, demonstrando sua vergonha a quem quisesse ver. Sua vontade era e entrar na casa a força, e devolver o tapa que havia levado, como se aquilo fosse melhorar sua auto estima: bater na mulher que ele havia amado; simplesmente para provar sua masculinidade, curar seu orgulho ferido: sua decepção.

Tentando abrir a porta, uma voz de dentro da casa disse:

– Vá embora, por favor – soluçando, Ana repetiu. – Por favor.

Ana não trazia dúvida alguma na voz, somente tristeza e melancolia. Alexandre mesmo tendo ouvido, forçou novamente a porta, estava decidido, mas Ana a havia trancado, mantendo o mundo do lado de fora, permitindo somente a entrada de sua tristeza. – Vá embora – insistiu. Mas Alexandre, sem pensar, batia com força na porta, estava descontrolado. O barulho foi tão alto que chamou a atenção dos vizinhos, que observavam, de longe, a cena.

– Abra essa porta! Você não pode fazer isso comigo!

Do lado de dentro, fechada em seu mundo, ainda encolhida no sofá, Ana não respondeu, deixou que ele batesse, que falasse o que quisesse, não se importava mais.

– Vamos, Abra!

Vendo aquele desespero, um dos vizinhos se aproximou da porta da casa.

– O que você está fazendo?! Pare com isso, ela já disse pra você ir embora.

Alexandre olhou para o senhor de meia idade que falava com ele, respirou fundo, e retrucou:

– Ela não pode fazer isso!
– Independente do que ela tenha feito, ela não quer mais falar com você, pelo menos não agora. Volte pra casa e esfrie a cabeça. Vocês não irão resolver nada dessa forma.

Alexandre, por um momento, parou e ouviu aquele senhor que já o havia ajudado certa vez, quando haviam brigado no ano passado.

– O senhor não entende. Eu a amo!
– Entendo. E como entendo, Alexandre, mas nem tudo na vida é do jeito que queremos, certas horas temos que aceitá-las e seguir com nossas vidas, da melhor forma possível. Vamos, volte pra casa e esfrie a cabeça. Será melhor, acredite em mim.

Desconsolado, Alexandre não teve outra alternativa, pegou sua chave, e seguiu, a passos firmes, mantendo seu orgulho intacto, até seu carro, saindo acelerado até o apartamento que havia alugado. Estava decidido a voltar pra Florianópolis, e esquecê-la. Jurando nunca mais procurá-la.

Naquele silêncio, Ana sentia-se mais segura, ao ponto de enxugar as lágrimas e levantar-se do sofá, mas ainda estava perdida em seus pensamentos. Tomando um copo d’água, observava o telefone que teimava em não tocar. – Toque, por favor, toque, repetia para si mesma. No entanto, ele permanecia ali, parado, sem vida.

André não conseguia imaginar outra coisa que não fosse o pior. Por vezes, imaginou que ele havia sido somente um passatempo, alguém pra substituir a carência de Ana, alguém que cobrisse o buraco deixado por aquele que ela beijava – supondo que fosse seu namorado, pela forma que se beijavam. Sentia-se completamente usado, enganado; traído, de certa forma.

A viagem que demoraria nada menos que 25 minutos, foi prolongada por 4 horas. André não queria voltar pra casa, não gostaria de rever todos os preparativos pra noite que nunca tivera. Sabia que, nessas horas, a estrada seria sua melhor companheira, circulando pela orla da praia por duas vezes. Parando em uma das pontas, para pensar, desceu do carro, levando consigo o celular – seu inseparável amigo. Decidido, resolveu caminhar, achou que seria a melhor forma de esfriar a cabeça, de colocar as ideias no lugar, mas nunca deixando de olhar o celular, talvez na esperança de receber alguma ligação, uma mensagem, qualquer coisa que pudesse lhe tirar desse sofrimento.

As horas já se prolongavam, marcavam que o nascer do dia não tardaria a chegar. Porém, sem se preocupar com as horas, muito menos com os raios de sol que já começavam a apontar, continuou sua caminhada, pensando no que havia acontecido. Mas a única coisa que conseguia imaginar era que Ana tinha outra pessoa, alguém com quem ela se importava, e ele só foi um passatempo.

– Se ela realmente quisesse alguma coisa, teria me ligado, teria atendido minhas ligações. – e conversando sozinho, continuou. – Se não o fez, é certeza de que não passei de uma paixão de verão.

André caminhou até o dia nascer, quando tomou a decisão de pegar suas coisa e voltar pra São Paulo, pois imaginou que a melhor forma de superar tudo isso seria em seu trabalho. Além do mais, faltava somente mais um dia para o término de sua semana de folga. Aquela que há dois dias atrás, pensou que seria a melhor folga que havia tido em toda a sua vida.

E, assim, André voltou para seu carro, tendo como único destino, seu quarto. Pretendia dormir para que no final da tarde pudesse voltar para São Paulo, colocando um final nessa história toda.

Ana, havia passado a noite em claro tentando imaginar alguma forma de explicar, a André, o que havia acontecido. Mas todas as suas tentativas foram em vão. – Uma ligação não ajudaria, uma mensagem, então, poderia ser mal interpretada, colocando tudo a perder. Pensou. A dor de cabeça já havia tomado todo o seu corpo, quando o dia já apontava no horizonte. Ela estava exausta, não aguentaria permanecer acordada, seu corpo pedia um descanso daquele dia. E, assim, resolveu tomar um banho e cair na cama.

Ao acordar, André tomou um banho rápido, pegou seu celular e ligou para a empregada que sempre cuidara de sua casa:

– Alô, Dona Carmem, boa tarde.
– Boa tarde, senhor André. Está tudo bem?
– Sim, tudo ótimo – disfarçou. – Estou ligando pra avisar que vou voltar pra São Paulo ainda hoje, portanto, se a senhora puder arrumar a casa amanhã, ao invés de sábado, eu agradeceria.
– Claro, sem problema algum.
– Olha, deixarei alguns mantimentos na geladeira, como não vou levá-los pra casa, jogue fora o que já estiver aberto e o restante a senhora pode levar pra casa. Aliás, se a senhora quiser passar aqui mais tarde, já pode levá-los. Acho que ficaria mais fácil, pois já desligaria a geladeira para limpar amanhã, não?
– Perfeito! Preciso ir até o centro pegar alguns papeis e posso dar uma passada aí, lá pelas 7 horas. Realmente ficaria muito mais fácil.
– Ótimo. Obrigado, Dona Carmem!
– Não por isso. Faça uma boa viagem, Senhor André!
– Obrigado. Tenha uma ótima tarde.
– Pro senhor também! Tchau.
– Tchau.

André soltou o celular sobre a cama, pegou sua mala no armário e começou a guardar as roupas que havia trazido. Fechou a mala e foi organizar as papeladas havia usado no dia anterior. Com tudo organizado, desceu até a sala para verificar se não havia nada faltando. Deixando sua mala sobre a mesa da sala, foi até a cozinha para comer alguma coisa antes de sair. E ao abrir a geladeira, assustou-se com o toque de seu celular. Esquecendo de fechar a porta da geladeira, correu até a mesa da sala, pegou seu celular, sem olhar quem estava ligando, e atendeu.

– Ana?!
– Não, mamãe!
– Ah, olá, mãe.
– Quem é Ana?
– Ninguém…
– Hum… sei. Como está o meu filho querido? Aproveitando a praia? Não se esqueça que só falta mais um dia, hein?
– Estou bem, mas estou voltando hoje. Aliás, dentro de alguns minutos eu pego a estrada.
– Nossa, o que houve? Por que não aproveita mais um dia e volta amanhã de noite?
– Já descansei o suficiente. Estou pronto pra voltar! – tentou disfarçar o melancolismo.
– Bom, você sabe o que é melhor. Te liguei pra saber como você estava, não me ligou, não deu notícias…
– Acabei esquecendo. Deu alguns problema no escritório que tive que resolver. Desculpe.
– Não, tudo bem, sei como é. Então você já volta hoje. Passe aqui em casa pra me dar um beijo, então.
– Claro. Passarei sim.
– Ah, que bom. Ficarei te esperando. Faça uma boa viagem. Beijos.
– Obrigado. Beijos.

Assim que André fechou seu celular, notou que a bateria acusava somente 10% de carga, precisando ser recarregada. Mas não se preocupou, colocando-o de volta na bolsa e pegando suas coisas para sair.

Ana havia acordado tarde, já passava das 6 horas da noite, quando levantou-se. Toda aquela enxurrada de sentimentos voltaram como um gigante ioiô. Porém, agora, mais descansada, conseguiu ver a situação com mais calma. Sabia exatamente o que deveria ser feito. E, saindo da cama, foi direto ao banheiro, tomo um rápido banho, se arrumou e foi até a cozinha. Pegou um pequeno lanche, a chave de casa, do carro e trancou a porta e foi para o carro.

Ana sabia que a melhor opção seria conversar pessoalmente com André, ela precisava olhar em seus olhos e dizer tudo o que havia acontecido, mesmo que aquilo fosse o final de tudo. Ela queria uma chance de explicar o que havia acontecido.

A viagem não demorou 20 minutos, e já estava na porta da casa de André. Desceu do carro e foi direto à campainha; apertou uma, duas, três vezes até que a luz da garagem foi acesa. Ofegante, ansiosa para falar com ele, esperou até que a porta abrisse.

– Pois não. – disse Dona Carmem.
– …
– No que posso ajudá-la?

Ana estava sem palavras, imaginou que encontraria André, não uma senhora de meia idade e acima do peso.

– Estou procurando o André, ele está?
– Não, o Senhor André já voltou pra São Paulo.
– Voltou?!? Hoje?
– Sim, saiu não faz nem 2 horas.

Ana estava impaciente, arrumando os cabelos que lhe caíram no rosto, durante a corrida, perguntou:

– Ele falou alguma coisa? Deixou algum recado?
– Não, não deixou nada. Só pediu para que eu viesse arrumar a casa, assim que ele saísse.
– Não… não… Droga!
– O que houve? – perguntou Dona Carmem. – Será que não posso ajudar?

Ana olhava para aquela senhora e imaginava no que ela poderia ajudar. Parou, pensou, levou as mãos até o rosto e após um suspiro começou a história.

– Eu e o André nos conhecemos no… [parte 1]

Dona Carmem, muito atenciosa, ouviu toda a história que Ana havia lhe contado, consolando-a quando começou a chorar, depois de ter contado o episódio de Alexandre.

– Calma, minha filha, calma. Venha, entre um pouco. Vamos, venha se sentar. Deixa eu pegar um copo d’água pra você.

Dona Carme conversou durante uma hora com Ana, que desabava em choro, dizendo que André era um excelente homem, e que não queria perdê-lo por algo tão bobo.

– Sabe, Dona Carmem. Eu me encantei com o André.
– Sim, entendo. O Senhor André é um menino de ouro.
– Sim… E eu estraguei tudo! – soluçando, completou. – Não sei o que vou fazer agora.
– Sabe sim. Você vai até o banheiro, enxugar essas suas lágrimas, pois mulher nenhuma deve borrar sua maquiagem, voltar pra casa, arrumar suas coisas, e amanhã cedo, irá conversar com ele.
– Mas como? Nunca trocamos endereço, não conheço São Paulo, seria inútil ir até lá.
– Não se preocupe com isso. O endereço dele eu te dou. Tenho certeza que ele irá entender!

Ana havia se animado, só por saber que alguém a havia entendido, estava mais confiante, estava disposta a subir para São Paulo e explicar tudo o que acontecera.

– A senhora faria isso por mim, Dona Carmem?
– Claro! Aquele menino é como um filho pra mim, não deixaria que ele perdesse a oportunidade de viver essa paixão.
– Obrigado, Dona Carmem. A senhora não sabe como me ajudou!
– Não se preocupe. Está aqui o endereço dele. Agora vá até o benheiro e se arrume.

Ana levantou-se do sofá, foi até o banheiro e retocou sua maquiagem, como Dona Carmem havia lhe dito pra fazer. Sentia-se mais animada, mais confiante. Pronta para arrumar suas coisas, descansar um pouco e, amanhã, seguir viagem até São Paulo.


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