[Minissérie] Uma semana – parte 7

Os poucos raios de sol que entravam pela janela, anunciavam o começo de um novo dia. Um começo diferente do dia anterior, pois ambos ainda permaneciam deitados na cama. O sono fora revigorante, sem sobressaltos ou telefonemas, sendo interrompido pelo barulho das ondas a quebrarem ao longe, inundando o quarto com um aroma de novo dia.

André ainda dormia enquanto o celular de Ana tocava solitário em sua bolsa, que estava sobre o sofá da sala, no piso térreo. Um, dois, três, quatro, cinco toques e a secretária eletrônica atendeu, para o desespero de seu interlocutor.

As horas já avançavam quando André despertou, olhando pro lado para ver Ana, que dormia. Virou-se e a abraçou, mas esse gesto foi suficiente para trazê-la de volta do mundo dos sonhos.

– Hummm… Bom dia – sussurrou, Ana.
– Booom dia – retrucou André com um bocejo. – Dormiu bem?
– Melhor teria sido impossível! E você?
– Também. Estava precisando de uma boa noite de sono.
– Verdade. Você quaaase não dormiu na noite passada.
– É, mas não deixou de ser uma boa noite – riu.

Ficaram preguiçando durante alguns minutos, até André levantar para escovar os dentes e tomar um banho, enquanto Ana ainda se esticava na cama.

– André, poderia abrir a janela?

André, a caminho do banheiro, parou, voltou até a janela e a abriu, perguntando se estava bom. Ela respondeu que estava ótimo. A brisa do mar entrava no quarto, trazendo um leve mormaço consigo.

– Quer me acompanhar num banho? – convidou, André.
– Já já eu vou. Estou com uma baita preguiça. – respondeu sorrindo.

André tinha o costume de escovar os dentes embaixo do chuveiro, pela manhã; pegando a escova e o creme dental, foi até o chuveiro. Um banho morno pra começar bem o dia era a sua preferência. Acreditava que despertava melhor assim.

Ana levantou-se. André já havia iniciado o banho, porém, ao invés de acompanhá-lo, foi buscar em sua bolsa uma escova de dentes que sempre trazia. Descendo as escadas, ouviu o toque de seu celular: uma, duas, três, quatro vezes, mas quando chegou a pegá-lo, a ligação já havia caído novamente na caixa postal. Curiosa, abriu para ver quem havia ligado, apertou os botões e quando viu de quem era, fechou-o rapidamente.

– Não! Só pode estar de brincadeira – disse, jogando o celular de volta na bolsa e pegando a escova.

André estava terminando o banho quando Ana resolveu acompanhá-lo, chegando bem de mansinho, tentando fazer-lhe uma surpresa.

– Hum… chegou. Já estava quase indo te buscar – sussurrou em seu ouvido.
– Fui buscar minha escova de dentes na bolsa – respondeu secamente.
– Está tudo bem?
– Está sim, por quê?
– Nada em especial, só senti que não está muito animada. Só isso.
– Não foi nada demais.
– Então vem cá – disse abraçando-a.

O banho foi bem demorado, mais do que de costume, suas escovas de dente presenciaram tudo, uma do lado da outra. Já no quarto, Ana mostrava uma certa impaciência ao escovar o cabelo, enquanto André escolhia alguma roupa para vestir.

– Quer comer alguma coisa? – perguntou, André.
– Não. Estou sem fome – respondeu, Ana.

André a olhou como se observasse uma pintura, tentando entender o porquê dessa mudança de humor. Imaginou que poderia ter feito algo errado, parando pra analisar tudo o que havia feito, mas desistiu dessa ideia rapidamente, pensando: Bom, provavelmente não é comigo, enfim. Vestindo a camisa, André ouve seu celular vibrando sobre o criado mudo. Ana se vira para olhar. André, estava olhando o visor, para saber quem estava chamando e se virando para Ana, disse:

– Preciso atender essa ligação, Ana. Com licença – voltando-se para a varanda, atendeu.

Ana parou de escovar seus cabelos, largando a escova sobre o móvel; aquela ligação trouxe lembranças de sua ligação – uma ligação nada agradável de seu namorado. Ela até tentou espiar André, tentando ouvir o que ele falava ao telefone, mas só conseguia ouvir poucas palavras:

– … não, já disse que não funciona assim… ok… mais tarde… tchau.

Se despedindo, André voltou para o quarto, trazendo uma cara de poucos amigos, que Ana logo soube não se tratar de uma boa ligação, também.

– Está tudo bem?
– Não, definitivamente, não. Algum estagiário resolveu dar uma de advogado para o Juiz, que acabou não despachando a liminar que havíamos pedido.
– E isso é muito grave?
– Um pouco, mas vai dar tudo certo. Só vou precisar resolver algumas coisas agora. Você se importa em esperar um pouco, enquanto eu resolvo isso? – disse, pegando seu notebook.
– Claro, vou terminar de me arrumar enquanto isso.
– Obrigado… desculpe, não imaginei que teria que trabalhar enquanto estivesse aqui – disse beijando-a.
– Tudo bem, imprevistos acontecem. Sei bem.

Com o note nas mãos, André desceu para a sala, com um ar de preocupado. Ana, mais aliviada por saber que se tratava de uma ligação do trabalho, continuou se arrumando. Porém, vez ou outra ainda lembrava da sua ligação, o que a deixou bastante irritada, ao ponto de largar novamente a escova. Nessas indas e vindas, Ana demorou mais do que o normal para se arrumar, o que André estava achando bom, pois o que era simples acabou se tornando bem complicado.

– E então? Conseguiu resolver? – perguntou, Ana, ainda na escada.
– Não. Acho que vai demorar mais do que eu havia imaginado.
– Então acho melhor eu ir pra casa, não quero atrapalhar você.
– Claro! Desculpa, realmente, perdi a noção das coisas. Vou só calçar um tênis e já te levo.
– Imagina, você está cheio de coisas pra fazer, eu dou um jeito, não se preocupe.
– De forma alguma! Eu te levo, não vai atrapalhar em nada, pode ter certeza.
– Bom, se não for atrapalhar, seria bem melhor mesmo – disse com um sorriso acanhado.

André levantou-se e com um beijo, subiu as escadas correndo, calçando o tênis o mais rápido que pôde.

– Vamos?

No carro a conversa não passava de coisas cotidianas, André estava realmente preocupado com os problemas do escritório. Ana, que já demonstrava preocupação antes, nem se atreveu a alongar os diálogos, preferiu somente acompanhar os pequenos assuntos, até sua casa, na qual chegaram em menos de 25 minutos. Se despediram com um beijo caloroso, na medida do possível, e André já havia ligado o carro antes mesmo que Ana entrasse em casa, pegando o caminho de volta assim que ela fechou a porta, sem antes acenar um rápido tchau.

Antes de fechar a porta de casa, Ana ouviu seu celular pela segunda vez, não esperando as cinco chamadas para atender, pegando-o com raiva e atendendo a ligação.

– Alô! – atendeu seca, sabendo quem estava ligando. – Não, já disse pra você! Não quero mais conversar! Chega, Alexandre! … Ah, você acha que me deve uma explicação? Pois eu acho que já é tarde demais! … Não, não estou em Florianópolis… Pra quê você quer saber? Não vai mudar em nada nossa situação! … Faça o que você quiser da tua vida, pois da minha cuido EU! – essas foram as últimas palavras que Ana lançou para o telefone, que já estava nas suas mãos, pronto para ser fechado.

Ana estava irritadíssima com o telefonema, largou sua bolsa sobre a mesa da cozinha e foi logo pegar um copo d’água.

– Por quê? Por quê??? – disse em voz alta.

Largando o copo na pia, seguiu até a varanda para respirar um pouco de ar puro; refletir um pouco.

André, já de volta à sua casa, continuou sua tentativa de arrumar os problemas causados pelo estagiário, antes das sete horas, a fim de conseguir encontrar o magistrado ainda em seu gabinete. Estava tão concentrado em seus papeis, que nem percebeu o dia escorrendo por entre linhas e linhas do processo que haviam enviado por e-mail. André só conseguiu resolver seus problemas quando eram praticamente, 10 horas da noite, quando pegou o celular para enviar uma mensagem pra Ana, contendo a seguinte mensagem: Desculpe-me por hoje. O que acha de um jantar e um banho no ofurô, mais tarde?

Ana estava preparando algo para comer, não havia começado, ainda, quando recebeu a mensagem. Pensando em voz alta, disse:

– Nossa! Seria perfeito! Preciso mesmo relaxar.

Ana começou a escrever de volta para André: Adorei a ideia, mas dessa vez, pode deixar que vou com o meu carro. Beijos.

André arrumava seus papéis, guardando tudo novamente, com a sensação de trabalho feito, ouviu seu celular vibrar sobre a mesa. Lida a mensagem, respondeu com uma mensagem convidativa: Ok, já vou deixar tudo pronto pra quando você chegar. Prometo compensar o dia de hoje.

Ana só de imaginar o ofurô e como André iria compensá-la, esqueceu por alguns momentos todo o transtorno causado pela ligação de seu ex-namorado. Seu ânimo havia voltado. Estava tão empolgada que correu para tomar um banho e se arrumar, pois sabia que a noite iria ser perfeita, como as outras.

Pronta, de banho tomado, cabelo arrumado, perfumada, pegou sua bolsa, guardou o celular, pegou as chaves do carro e se dirigiu à porta, abrindo-a com rapidez, trazendo um sorriso largo, mas seu brilho logo foi substituído por surpresa.

– Alexandre?!?!?! – olhava para ele quieta e sem reação.


Fatal error: Uncaught Exception: 12: REST API is deprecated for versions v2.1 and higher (12) thrown in /home/folhe034/public_html/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273