[Minissérie] Uma semana – parte 4

O relógio nem havia anunciado as 7 horas da manhã quando André abriu os olhos, seu corpo pedia por outras horas, mas André brigava para mantê-los abertos, sua vontade de levantar crescia a cada tentativa, mas não pra aproveitar o dia, ele queria era ver o seu celular, ver se havia alguma mensagem, alguma ligação perdida. Ainda lutando contra seu corpo, André teve que enfrentar mais uma briga com os lençóis e travesseiros até encontrar o seu bendito celular. Tateava daqui, arrastava a mão por debaixo do travesseiro, mas não encontrou; a pouca luz também não ajudava. Cansado de tanto se virar na cama, levantou-se e arrancou todas as roupas da cama, jogando-as no chão, e nada do celular. Olhou de um lado da cama e do outro e sua sorte não foi diferente. André já estava preocupado quando ouve o celular tocando. Parou, esperou mais um toque e voou de encontro ao barulho, que vinha diretamente da cabeceira da cama, esmagado entre o colchão e a cama, lá estava seu companheiro. Puxou com tanta força que acabou machucando sua mão. Sem ao menos olhar o visor, pois já estava no 4 toque, atendeu.

– Al-Alô!?
– Olá, bom dia, meu filho. Como estão as férias?
– Mãe??
– Sim, sou eu, ainda se lembra de mim?
– Claro… Bom dia.
– Nossa, que desânimo em ouvir a sua própria mãe. Tá tudo bem? E as férias, como estão?
– Não é desânimo não, mãe. Acabei de acordar e não esperava uma ligação da senhora agora.
– Ah, então está animado! Acordando cedo, querendo aproveitar bem a praia. Que bom, meu filho, fico muito feliz em saber que você está descansando e aproveitando.
– Sim, como não poderia? A vida aqui é bem tranquila, muito diferente daquele escritório. As horas parecem passar tão devagar…
– Nem me fale. Aqui já são 7:30 e eu ainda não fiz nada, acredita?
– Acredito sim. Mas ainda é cedo, tem tempo de sobra pra fazer tudo o que a senhora precisa, não tenho dúvidas que conseguirá.
– Ah, sim, com certeza. Mas me conte, o que andou fazendo nesses dois últimos dias?
– Praticamente nada. Ontem eu acordei muito tarde, mas aproveitei o resto do dia na praia, e durante a noite fui fazer algumas compras, pois não tinha nada pra comer aqui em casa. Eu esqueci completamente de fazer compras.
– Logo imaginei. Se eu não te conhecesse…
– Verdade – André soltou um sorriso despreocupado.
– Bom, só liguei pra saber como você estava, já que não me deu notícias desde o dia em que chegou aí.
– Desculpe, mãe. Acabei esquecendo completamente. Mas não se preocupe, eu estou bem.
– Eu não me preocupo, sei o filho que criei. Então, um beijo e vê se aproveita a praia por mim também!
– Pode deixar, mãe, farei o possível! Beijos e um excelente dia.
– Obrigado, pra você também. Beijinhos.
– Beijos, tchau.

Assim que André desligou, pegou o celular e foi ver se havia alguma ligação não atendida ou alguma mensagem que deixou passar durante a noite, porém, nada encontrou, até pensou que havia tido alguma queda de sinal devido ao local onde o celular havia ficado, mas mesmo que houvesse, assim que restabelecesse o sinal, suas mensagens ou ligações iriam aparecer, o que não ocorreu.

Ainda com o celular na mão, André olhou para a janela e pode ver o dia iniciando, as poucas pessoas que andavam pela praia, alguns loucos banhistas na água. Voltou os olhos para o celular e sua cama, largou o celular na mesa e foi resolver aquela bagunça que havia feito mais cedo; arrumou a cama, suas roupas que ainda estavam na mala e entrou no chuveiro para despertar de uma vez por todas.

Do outro lado da cidade, Ana acabara de acordar, olhara no relógio e ainda marcava 9:45, seus olhos já haviam se acostumado com a luminosidade que entrava pelas frestas da veneziana, mas a preguiça ainda dominava seu corpo. Espreguiçando embaixo dos lençóis, esticou o braço até o criado mudo e puxou o celular, esperançosa por ver as mensagens, viu que havia 3 mensagens de suas amigas, perguntando se estava tudo bem, se ela queria sair pra beber alguma coisa e outra que, provavelmente, alguma havia mandado enquanto estava bêbada, pois não fazia o menor sentido. No entanto, a mensagem que ela esperava não havia chegado.

Desconsolada, Ana deixou o celular de lado e levantou-se, trocou de roupa e foi abrir a janela para respirar um pouco de ar puro, assistir os raios solares colorirem a paisagem à sua frente. Permaneceu observando durante alguns minutos, respirou fundo e se espreguiçou mais uma vez. Deixando a janela totalmente aberta para arejar seu quarto, escovou os dentes, jogou uma água no rosto e foi até a cozinha preparar alguma coisa pra comer.

Enquanto isso, André acabara seu banho, ainda de toalha, secando seu cabelo, decidiu dar mais uma olhada nas mensagens – vai que ela enviou, pensava ele. Mas nem sinal de alguma manifestação. Indo até o armário, escolheu uma roupa qualquer e vestiu-se, descendo até a cozinha para começar o dia com um bom café da manhã.
Ambos aguardavam ansiosos por uma ligação, Ana andava pra cima e pra baixo com o celular nas mãos, André, por sua vez, deixava-o próximo para que pudesse ouvir seu toque caso ele tocasse.

O relógio já marcava uma hora da tarde quando Ana, cansada de esperar por alguma ligação, resolveu dar um passeio pelo jardim de sua casa, conversar com alguns vizinhos e para de pensar em André.

– Ah, chega. Ele já deveria ter ligado. Tanto tempo assim e nem uma palavra? – dizia para si mesma – Ou será que ele está dormindo e não acordou ainda? É, provavelmente foi isso – tranquilizou-se.

André que já não sabia mais o que fazer, pegou o telefone e começou a discar o número de Ana, mas parou no último dígito.

– Ok, ligo pra ela e o que eu irei falar? Boa tarde?! Tudo bem?! Então, pronta pra nossa conversa? Ahhh… Ok, ok. Começo pela Boa Tarde e vamos ver o que acontece.

André não tinha esse costume de ligar, sempre teve encontros programados por amigos, ou imediados, as últimas ligações pra marcar alguma coisa já haviam sido há muito tempo, tinha perdido o jeito.

E andando da cozinha para a sala e da sala pra varanda, apertou o último número.

– Primeira chamada, segunda, terceira… Se ela não atender na próxima, vou mandar uma mensagem!

Quando a ligação caiu na caixa postal, André desligou.

– Odeio falar com máquina! Bom, melhor será mandar uma mensagem.

Ana, que havia saído para o jardim, não ouviu o celular começar a tocar sobre a mesa da sala, onde o havia deixado, só quando já estava na 5 chamada que ela, já próxima a porta, ouviu, saindo em disparada para atendê-lo. Porém, quando abriu, já era tarde e André havia desligado. Ela olhou para o celular e viu o nome André estampado no visor, somente um nome e nada mais. Sua grande espera havia sido sabotada por alguns minutos ao ar livre. Ana pensou em retornar a ligação, mas conteve a vontade, também não sabia o que falar.

– Eu irei retornar a ligação? Não, de forma alguma. Vai parecer que eu estou desesperada pra falar com ele. Não! Definitivamente, não. Vou esperar mais alguns minutos – falava olhando para seus vasos na varanda.

André acabara de abrir uma nova mensagem e estava começando a escrever o texto: Olá, Ana. Boa tarde, espero que tenha dormido bem. Um beijo, André.

– Beijos? Vou mandar beijos? Na primeira mensagem? Será?

Essa dúvida estava consumindo sua bateria. Enquanto a mensagem aguardava para ser enviada, André tomou folego e apertou o “enviar” e soltou um: Seja o que Deus quiser.
Do outro lado, Ana ainda aguardava seus minutos olhando no relógio, esperando às 3 horas da tarde. Mas antes que o relógio anunciasse a hora, seu celular começou a vibrar na sua mão, mostrando: 1 nova mensagem. Mais do que depressa, Ana abriu o aparelho, apertou o botão e começou sua leitura.

– Hum… esperto esse André. Não falou nada e, agora, quem tem que começar a conversa sou eu. Ok, então vamos lá, então.

Ana apertou o botão pra responder e começou sua mensagem: Oi, André. Boa tarde. Dormi muito bem, e você, conseguiu descansar? – Pronto, vamos ver o que ele responde, disse.

– Ela não falou nada do “beijo”, menos mal. Mas também não falou nada de diferente. E agora?

André sentou-se e ficou pensando em alguma resposta, alguma mensagem que pudesse puxar o assunto do encontro, e digitou: Sim, dormi bem, não tanto quanto eu gostaria, mas consegui descansar. E aquela nossa conversa, ainda está de pé?

– Aleluia! Pensei que ele nunca iria tocar no assunto! – disse enquanto digitava a outra mensagem: Ah, que bom que está descansado, assim não ficará cansado com a minha história.

André, após ler a mensagem, pensou: Ufa! Ainda bem que ela não achou que fui muito direto.

Ana estava adorando aquela troca de mensagens, já havia sentado confortavelmente em seu sofá, esticado as pernas e esquecido completamente do mundo, seu celular era a sua única preocupação. André, que já tinha desistido de ir à praia, sentou-se na varanda e contemplava a paisagem enquanto pensava no que iria escrever. E lá ficou alguns poucos minutos até que começou a digitar: Cansado? Esqueceu que minha vida são histórias? Será um prazer enorme em ouvi-las.

– Ahhhh… que fofo! – disse em voz alta.

André aguardava a mensagem chegar, olhava para o celular, esperando alguma resposta, até esta veio com as seguintes palavras: Depois não diga que não avisei.
Ana estava rindo da própria mensagem, quando o celular tocou.

– Alô? – dizia ela.
– Olá, Ana.
– Oi, André, tudo bem?
– Tudo e contigo?

Aquela conversa já não precisava de formalidades, mas como de costume, acabaram acontecendo.

– Tudo. E então, está pronto mesmo?
– Claro que estou, e duvido que sua história seja cansativa.
– É, pode ser que não seja.
– Tenho certeza que não será. Mas deixa eu te perguntar… Tem algum plano pra hoje à noite?
– Não. O que tem em mente?
– Pretendo sair pra jantar – e com uma pausa, continuou. – Você gostaria de me acompanhar?

Ana esperava por um convite, mas quando o recebeu, ficou surpresa, e logo disse:

– Hum… Adorei a ideia! Que horas?
– Posso passar e te pegar lá pelas 8 horas, o que acha?
– Oito horas está ótimo! Anote o endereço – explicando detalhe por detalhe. – Anotou tudo certinho?
– Sim, então até às 8.
– Ligue pra avisar que chegou, por favor.
– Pode ficar tranquila que ligarei sim. Beijos e até mais tarde.
– Beijos.

Ana estava eufórica, levantou-se do sofá e correu até o quarto pra já separar a roupa que iria vestir. André, todo orgulhoso de si mesmo, pois conseguira marcar um encontro, levantou da rede e foi andando até a beirada do jardim, pra contemplar a vista da praia.

Na hora marcada, André estava na frente da casa de Ana, não era uma casa grande, mas era totalmente planejada, boa iluminação, belíssimo jardim, e uma maravilhosa entrada.

– Alô, Ana? Já estou aqui na frente.
– Ah, sim, já estou saindo.

Ana estava terminando de calçar a sandália quando André ligou. Sua bolsa já estava pronta na mesa da entrada, ela pegou, abriu a porta e saiu em direção ao carro de André assim que fechou a porta. Ana estava com o cabelo solto, um belo vestido florido, que vinha até o jelho, puxando para o tom azul e uma sandália que André não soube distinguir a cor. Ainda olhando ela desfilando pelo jardim, desceu do carro e foi ao encontro dela.

– Boa noite.
– Boa noite, André.
– Você está linda!
– Ah, obrigado.

André abriu a porta para Ana entrar, esperando ela arrumar-se no banco, fechou a porta e deu a volta no carro para poderem seguir caminho ao restaurante, que André, para evitar espera, havia reservado uma mesa pra dois, na parte de fora do restaurante, pensando em aproveitar o calor da noite e o ar puro.

Quando chegaram ao restaurante, ambos pediram pratos leves. A conversa estava fluindo naturalmente, André perguntava coisas sobre a vida dela e ela sobre a dele.

– Ah, então foi por isso que preferiu as praias paulistas? – perguntou André. – Por serem afastadas de todos aqueles que você conhece?
– Não, não foi só isso, teve outros motivos, também. E você, por que ficou tanto tempo sem aproveitar sua casa na praia?

Realmente a conversa estava muito agradável, tão boa que ninguém reparou que já havia passado das 11 horas. André trocava olhares com Ana, e por certos momentos, Ana que procurava os olhos de André. A sobremesa já havia sido servida, mas nenhum dos dois ousou tocá-la, estavam tão compenetrados na conversa que o sorvete escorria pelo prato sem ser percebido.

– Sabe, pensei que você não iria ligar, André.
– E por qual motivo eu faria isso? Adorei te conhecer! E queria muito te ver novamente – disse descendo o tom de voz enquanto olhava para a sobremesa.
– Eu também adorei te conhecer – disse enquanto soltava um pequeno sorriso nos lábios, que agora estavam selados pelo sorvete.

Após essas declarações, ambos terminaram a sobremesa e André fez questão de pagar a conta. Ainda conversaram antes de se levantarem, mas nem ele, ou ela, tocaram no assunto, permaneceram com uma conversa mais informal até a porta da casa de Ana.

– Adorei o estar com você essa noite! – disse André.
– Realmente, foi uma noite muito agradável.

Por alguns segundos, a troca de olhares foi intensa. Ana não esperava atitude alguma de André, gostava daquela paquera, aliás, estava adorando ficar na expectativa, ela sabia que André também estava totalmente encantado e, pra dizer a verdade, Ana não achou que o primeiro beijo deles deveria ser dentro de um carro, na porta da casa dela. André, por outro lado, queria muito beijá-la, mas havia, realmente perdido o jeito para essas coisas. Achava que poderia ser muito atrevido se tentasse um beijo justo no segundo dia, ou o pior, que fosse rejeitado. E assim, nesses pensamentos, suas atitudes foram inibidas, até que Ana perguntou:

– André, eu não gostaria que essa noite terminasse agora. Estou sem sono e gostaria de continuar conversando com você. Se você quiser, podemos abrir aquela garrafa de vinho e conversarmos um pouco mais. O que acha?
– Acho uma ideia excelente!
– Se você quiser, pode estacionar o carro na garagem, acho que fica mais seguro, não?
– Sim, também acho uma boa ideia.

Após estacionar o carro, André desceu e seguiu rumo à casa de ana, que já esperava na porta.

– Entre e sinta-se em casa. Só não repare na bagunça, por favor.

André entrou e Ana fechou a porta, deixando para trás, somente o jardim, enquanto do lado de dentro a noite acabara de começar.


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