[Minissérie] Uma semana – parte 3

André, empurrando seu carrinho de compras, chegou até seu carro. Ana, por outro lado, havia estacionado seu carro longe da entrada, mas como observara André, já o estava quase alcançando. Assim, como já estava em seu carro, começou a descarregar as compras do carrinho, colocando-as de qualquer jeito no porta malas, até ouvir o barulho emitido pelas garrafas de vinho.

– Puta que …! Esqueci a garrafa da Ana!

Largando a última sacola no porta malas, fechou-o do jeito que deu e correu de encontro a ela, gritando a plenos pulmões:

– ANA! ANA!!

Ela que acabara de descarregar a última sacola, pronta pra entrar pela porta do motorista, parou e virou-se para ver o que estava acontecendo, ainda mais quando alguém a estava chamando. Mas para sua surpresa, viu  André correndo descontroladamente em sua direção, trazendo nas mãos uma garrafa.

– Espere, tenho algo pra você!

Ainda sem entender muita coisa, com uma certa dúvida no olhar, virou-se completamente para André, que chegou  bufando, e perguntou:

– Algo pra mim? Do que você está falando?

Com as mãos no joelho, tentando recuperar o ar, André parou, levantou-se e disse:

– Lembra… a história… do vinho? – falava pausadamente – Como você me convenceu a comprá-lo, e pude notar que você não havia pego garrafa alguma, achei conveniente te presentear com uma, pois, como você mesma disse: “Vinho é sempre bom, mesmo quando não se precisa dele”, não é verdade?

Ana, sentindo-se super envergonhada, achando que André poderia ser um maníaco por ter corrido e gritado seu nome por todo o estacionamento, respirou aliviada. Admirando a atitude de André, disse:

– Sim, é verdade, mesmo quando não se precisa dele, um vinho sempre é bem-vindo. Mas não precisava se incomodar, aliás, eu também já havia pego uma garrafa pra mim.

Com essa resposta, André sentiu sua mão abaixar lentamente; seu corpo havia respondido à mesma altura de seu vago sorriso amarelo que agora estampava sua estúpida face, pensando: Toma essa, idiota! Quer fazer graça olha no que deu!?

– Pegou?! – disse espantado. – Ah…. Bom, então ficarei com as duas – totalmente envergonhado.
– Calma! Não precisa ficar com essa carinha. Só disse isso pois sei que esse vinho é caro, e, realmente,  não precisava tê-lo comprado, ainda mais pra uma  estranha, só por ela ter dado a ideia.
– Ah, mas não foi pensando no dinheiro que comprei, é que este é um bom vinho, achei que seria um bom presente, principalmente pelas boas risadas que dei, fazia muito tempo que não me divertia com pequenas coisas.
– Nossa! Por causa daquela brincadeira, ou pelo que eu disse?
– Ambas as coisas. Fazia muito tempo que eu não me divertia assim, por incrível que possa parecer, achei que não seria mais capaz!
– Sério? Meu Deus! Eu não perco uma oportunidade, sempre estou correndo atrás de algo divertido, de algo que me tire da rotina, que me faça sair da vida estressada que temos.
– Nem me fale, tento correr dessa vida, mas parece que ela corre atrás de mim, e quando vou ver, estou consumido por ela, sem ao menos tirar férias. Por exemplo, faz dois anos que não tiro férias. A ideia de vender minha casa aqui na praia, chegou a tirar-me algumas noites de sono, mas essa semana eu jurei pra mim mesmo que seria diferente, longe de tudo e de todos!
– Dois Anos!? Como alguém consegue trabalhar tanto sem ao menos curtir um simples final de semana na praia? Eu não consigo ficar mais do que dois meses sem vir pra cá.
– Pois é. Ainda bem que não fiz a loucura de vendê-la, caso contrário teria que alugar algum espaço e não seria a mesma coisa.
– É. Nunca é a mesma coisa. Aqui eu tenho minhas coisas, minha decoração, meus móveis, enfim, tudo que eu preciso pra ficar um bom tempo, bastando uma muda de roupas e gasolina no carro pra descer.
– Verdade.
– Mas me diga uma coisa, o que tu faz que te consome tanto tempo?
– Sou sócio de um escritório de advocacia. E você?
– Longe disso, aliás, bem longe dessa área. Sou arquiteta, tenho um escritório na cidade de Florianópolis.
– Florianópolis? E o que você faz no litoral paulista? Não me venha dizer que as praias daqui são mais interessantes que as de Floripa. – disse, tentando ser descolado.
– Longa história… Não sei se você iria gostar de ouvir.
– Esqueceu que sou advogado e eu VIVO de histórias?!

Um início de uma risada estampou-se nos lábios de Ana, ela havia gostado da brincadeira que André fez.

– Verdade! – ainda com o sorriso nos lábios.
– Bom, então me conte, o que te levou a ter uma casa nas praias paulistas?

Ela olhou pra um lado, olhou pro outro, e disse:

– Tudo bem, eu conto a história, mas o que acha da gente sair do estacionamento do supermercado? Isso está ficando desconfortável, ainda mais com os olhares estranhos que o segurança está lançando para nós. Aliás, ele já está vindo pra cá.

André virou-se na direção do segurança e soltou um riso que foi contido pela mão:

– Nossa, perdi a noção do espaço. Realmente, esse não é o melhor lugar pra conversarmos.

Ela parou alguns minutos analisando a situação em que estava, aproveitando pra olhar bem pra André, deixando-o um pouco constrangido, pois aqueles olhos  castanho cor de mel, penetrantes, que ela possuia, seria impossível não se sentir desconfortável. E, assim, ainda olhando para André, movida pelo impulso da conversa, disse:

– O que acha de abrirmos essa garrafa de vinho e conversarmos um pouco?

André não conseguia esconder seu espanto ao ouvir a proposta que Ana acabara de fazer, principalmente pelo fato de terem acabado de se conhecer. Um tipo de proposta que André não recebia todos os dias, ou melhor, nunca havia recebido! Aliás, ele é que deveria ter tido essa atitude, não ela! E logo tentou remediar a situação, perguntando:

– Proposta tentadora, mas onde iremos bebê-la? Aqui que não pode ser.

Ana surpresa, disse:

– Sou só eu ou você não reparou que estamos praticamente à beira mar?

Realmente, André havia vivido muito tempo sem dar uma escapada pro litoral, pois havia esquecido como era bom um lual, ainda mais a dois.

– Verdade! Mas como iremos abrir a garrafa?

Ana ria das pequenas complicações que André colocava nas situações, aliás, até gostava desse jeito “sem jeito” dele.

– Fica tranquilo que pra tudo na vida se dá um jeito, principalmente quando queremos algo. Só iremos precisar de alguma coisa pra sentarmos, ou podemos sentar na areia, o que acha?
– Por mim, tanto um quanto outro. Uma pena eu não ter usado o carro, hoje, pra ir até a praia, caso contrário teria algo nele que poderíamos usar pra sentar.
– Verdade. Eu também não uso o carro pra ir à praia, só pra vir pro centro fazer compras. Mas vem cá, tua casa fica muito longe também?
– Não. Acho que não chega a ser dois quilômetros.
– Só isso e tu veio de carro?! – Ana não acreditava na preguiça de André.
– Calma, tenho um bom motivo pra ter vindo de carro. Vim à praia pra passar uma semana, porém, como não tinha comida alguma em casa, seria preciso carregar muitas sacolas, o que deixaria de ser um prazer pra ser um fardo.
– É, sendo assim, foi melhor ter vindo de carro.
– E você, mora muito longe daqui?
– Sim, um pouco afastada da praia, gosto de juntar o campo e praia em um só lugar, não sou muito adepta a casas à beira mar, prefiro acordar e ver as árvores e pássaros cantando.
– Muito bom! Aliás, perfeito, assim você tem os dois mundos em um só: campo e praia. Faz jus à profissão que tem.
– Ah, obrigado. Essa sempre foi a minha vontade, vir à praia e ao mesmo tempo ao campo.
-… – André ficara sem mais perguntas, o máximo que fazia era olhar para Ana.

E assim, ficaram por alguns segundo, tanto André quanto Ana permaneceram calados, olhando um para o outro, chegando ao ponto do constrangimento. André, sentia que deveria falar alguma coisa, ou fazer alguma coisa, mas como andava sem prática, seu corpo não reagia do jeito que deveria. Seu coração começou a bater mais rápido, estava ansioso, sabia que era preciso tomar uma atitude. Enquanto isso, Ana olhava para ele, olhava para a chave do carro, quase já se despedindo, ouviu André perguntar:

– Bom, se você não se importar, poderíamos ir até a minha casa, pegar duas cadeiras e conversarmos. O que acha?
– E o saca rolhas, claro!

Ana conteve o riso, mas André logo percebeu que ela havia satirizado a situação, deixando bem claro que ele era um bicho de cidade e não havia aproveitado muito sua casa de veraneio, mas mesmo assim, não deixou de levar o comentário como uma brincadeira, e disse:

– Sim, o saca rolhas é essencial! Então, o que acha da ideia?

Ana gostou da ideia, mas não achou que seria a hora certa pra isso. Poxa, pensava ela, acabamos de nos conhecer e já vou pra casa dele? Não, não posso, tenho que me dar um certo valor. Ele até que é bonito, inteligente e simpático, apesar da falta de atitude, certas vezes, mas daí já ir direto pra casa dele seria… seria… Não, não vou fazer isso.

– Até seria uma boa ideia, mas acho melhor não. Está ficando muito tarde e como acordei cedo, não acho que seria uma boa companhia essa noite.

André sabia que havia exagerado no convite, mas depois das indiretas, seria impossível tomar outra atitude, pensou. E até já sentia que aquele seria seu último encontro com Ana.

– Ah, claro! Realmente está ficando tarde já. Eu nem havia pensado nisso. Desculpe-me.
– Imagina. A conversa estava boa, também não reparei no horário. Mas podemos combinar alguma coisa pra amanhã, o que acha?
– Seria ótimo! – quase gritou de tanta empolgação. Ainda mais depois de achar que nunca mais a veria.
– Deixa eu anotar o teu número. Eu te ligo agora e tu já guarda ele. Diga.
– 70…….
– Pronto, amanhã a gente combina alguma coisa com mais calma pra conversarmos e, claro, beber essa garrafa de vinho.
– Com toda a certeza! Deixarei o saca rolhas separado.

Ambos sorriram com o comentário, e como um breve tchau, se despediram, seguindo cada um pro seu carro. André, que havia deixado o seu quase do outro lado do estacionamento, começou a caminhar, enquanto Ana, já pegara o presente que André havia lhe dado e o guardara junto com as outras compras. André, já há alguns metros de distância, olhou pra trás, sem segundas intenções, somente para dar uma última olhada em Ana. Mas Ana já estava prestes a entrar no carro, quando se virou e viu que André também havia olhado. Ambos constrangidos, levantaram o braço e deram um aceno. Ana ao entrar no carro, antes de ligá-lo, soltou um leve sorriso e virou a chave. André, feliz por ver que Ana também havia olhado, virou-se e foi até seu carro, totalmente sorridente.

A viagem de André foi bem curta, verdade, mas seus pensamentos foram longe, levando-o a imaginar cenas que há muito não imaginava. Chegou ao ponto de quase errar a entrada de casa.

Aquela noite, André dormiu com o celular ao lado do travesseiro, confiante que ele poderia tocar a qualquer momento. Ana, praticamente do outro lado da cidade, havia feito o mesmo, colocara o celular bem ao lado de sua cama, pensando: – Ele poderá mandar uma mensagem. E assim, nesse clima de expectativas, ambos adormeceram tarde e esperançosos.


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