[Minissérie] Uma semana – parte 2

Seu sono havia sido tão duradouro e pesado que 10 horas pareciam ter se passado em alguns minutos, mas nem por isso havia acordado cansado, como era de costume, muito pelo contrário, estava novo, revigorado. Nem mesmo o horário que marcava seu relógio – 16 horas – seria capaz de acabar com seu humor.

Levantou-se e nem se quer preparou o café, foi logo colocando sua bermuda, pronto para começar o dia. As escadas foram um leve obstáculo que venceu a passos largos; dois, quatro, seis, oito, dez degraus deixados pra trás, sala, e finalmente, o belo jardim, repleto de ar puro e maresia. Como uma criança na manhã de natal – louca para abrir os presentes – saiu pelo jardim a fora, contemplando o belo final de tarde que havia visto na meteorologia, sem se preocupar se estaria com o bronzeado característico de escritório ou se estava com a bermuda da moda, sua única preocupação era tocar, com seus pés machucados pelos sapatos de couro, a areia branca e macia daquela velha praia.

– Ahhhhhh… – Com um suspiro, sentiu a água fria tocar seus pés, fazendo-os afundar naquela areia.

A sensação era tão boa que ao dar o primeiro mergulho, seus pés estavam tão fincados na areia que foi necessário fazer uma grande força para retirá-los, seguindo correndo até as ondas brancas, aquelas que na noite anterior haviam levado-o até o mundo dos sonhos.

Uma, duas, três, quatro… lá pela sexta onda, tomou coragem e mergulhou como se estivesse nadando os 50 metros nado livre, permanecendo submerso até que seu fôlego não resistisse e o fizesse retornar à superfície, enchendo seus pulmões para mais alguns minutos de voo livre.

Uma pausa para observar o sol, virou o corpo para cima, boiando, pode ver o sol se despedindo carinhosamente de seu rosto, agradecendo-o por ter feito parte do grande espetáculo que havia feito especialmente pra ele. Assim, como se fosse o único espectador, ficou de pé e retribuiu com aplausos vigorosos – Bravo, bravo! – dizia ele.

Sua felicidade era tamanha que nem se importou para os poucos reais espectadores daquela momentânea loucura, que caminhavam pela praia sem entender o que estava acontecendo. Alguns até pararam para olhar em direção aos aplausos. Alguns riam, outros só observavam, mas nenhum sentiu a necessidade, ou obrigação, de ir até lá para verificar se estava tudo bem, se ele estava precisando de ajuda. Ele não estava preocupado com os outros, queria saber daquele momento, daquele único momento. E sob os olhares estranhos, seguiu a caminho de sua casa, sem sequer olhar para os lados, pouco se importando com as opiniões alheias.

Já com as falsas luzes acesas, correu até a cozinha pra preparar a primeira refeição do dia. Abriu a geladeira, olhou prateleira por prateleira e chegou a brilhante conclusão:

– Puta que p…! Esqueci das compras!

Afobado para aproveitar suas férias, esqueceu de fazer compras para a temporada. Nem pão havia em sua casa, muito menos arroz, ou qualquer coisa que pudesse ser preparada. O único resquício de alimento eram os farelos de um salgadinho que comprara no caminho.

Diante de tal situação, não havia outra escolha a não ser ir até o mercado mais próximo e comprar os mantimentos, ou então, sair para jantar, pois delivery estava fora de cogitação, ainda mais naquele lugar. Alguns minutos pensando, decidiu optar pelo mercado, além do mais, se saísse para jantar, mais cedo ou mais tarde seria preciso fazer compras, pois, mesmo sendo uma pessoa prática e objetiva, além do dinheiro disponível, ter alguns mantimentos em casa era providencial para um assalto à geladeira na calada da noite. Assim, subiu as escadas, pegando a primeira toalha que encontrou; secou-se. Vestindo a primeira bermuda que estava sobre a cama, estava pronto para seguir rumo às compras.

Apesar de sua casa não ser afastada do centro, distava somente 1 quilometro, preferiu ir de carro, além do mais, a noite já avançava, e mesmo que gostasse de uma bela caminhada noturna, voltar com as sacolas na mão não seria nada agradável, pois pretendia fazer compras pra semana inteira, a fim de evitar uma nova saída.

Chave na mão, camiseta na outra, entrou no carro e aguardou o portão abrir. Engatou a ré, e saiu com a maior tranquilidade possível. Sem pressa alguma de chegar a lugar algum, fez da ida às compras um passeio pela orla, admirando a lua que desenhava seus raios nas ondas do mar, imaginando o porquê de não ter trazido sua câmera para tirar algumas fotos, mas fez de tudo para que a imagem ficasse guardada em sua memória por um bom tempo, como seu porto seguro, aonde poderia voltar sempre que precisasse. E assim, foi até a entrada do mercado, onde constatou que, apesar de não ser alta temporada, havia muita gente por aqueles lados.

– Final de semana, talvez – disse.

Estacionou o carro assim que encontrou uma vaga e procurou um carrinho na porta de entrada, pensou em pegar somente uma cesta, mas não queria ter que voltar às compras, e assim, escolheu o maior carrinho disponível, sem antes vasculhar aquele que apresentasse melhor estrutura e que não tivesse uma daquelas malditas rodinhas tortas ou gastas que prejudicassem seu rolar; aquelas que sempre te fazem ficar com raiva do estabelecimento por não retirá-los de circulação. Mas com a sorte que estava, a procura foi curta e ele logo pode começar a caçar a comida.

– Boa noite.
– Boa noite para o Senhor. Seja bem-vindo ao nosso mercado. Espero que encontre tudo aquilo que procura – disse um rapaz que estava logo na entrada do estabelecimento.

Surpreso com aquela recepção, sentiu-se mais à vontade para circular pelos corredores, em busca dos melhores alimentos – até parecia um caçador atrás do jantar da família – olhava cada produto com olhos de lince, analisando a qualidade e validade do produto, pois as marcas com que estava acostumado não seriam encontradas com tanta facilidade, pelo menos não todas. E corredor após corredor, enchia seu carrinho. Totalmente satisfeito com as compras, seguiu em direção a um dos dois caixas.

Como havia imaginado pela quantidade de carros no estacionamento, o mercado estava lotado, tendo que esperar alguns clientes que, com carrinhos também lotados, passassem suas compras.

– Próximo… próximo, dizia a menina do caixa.

Sua vez já estava marcada após dois carrinhos, tempo suficiente para que ele verificasse as compras sem a menor pressa: óleo, macarrão, sal, arroz, pão, cerveja, refrigerante, água, suco, temperos, frutas, vegetais, verduras, carnes, frios, ovos, molhos, bolachas e….

– Vinho. Será? – falou em voz alta.

Pensando por alguns minutos se pegaria o vinho ou não, concluiu que não seria necessário, pois estava sozinho.

– É, vinho não será preciso – disse.

Mas uma delicada voz logo retrucou:

– Vinho é sempre bom, mesmo quando não se precisa dele.

Procurando essa doce voz, olhou de um lado e de outro até que virou-se para trás e pode ver aquela linda mulher, ainda envergonhada, pedindo desculpas.

– Desculpe, não queria me intrometer, mas não pude deixar de notar que você estava verificando suas compras. E não me contive quando você disse que o vinho não seria preciso.

Todo envergonhado por parecer um louco falando sozinho, disse:

– Verdade. Estou parecendo um louco falando sozinho.

Ela, abaixando a cabeça, mantendo seu sorriso acanhado bem ao alcance de seus olhos, disse:

– Eu também tenho essa mania, ainda mais tendo que esperar para ser chamada.
– Sim, essa espera acaba nos deixando um pouco avoados, forçando-nos a fazer coisas que normalmente fazemos sozinhos.

Dessa vez não houve uma resposta direta, mas uma confirmação com os olhos e um leve movimento com a cabeça, tranquilizando-o.

– Vinho, então?
– Mesmo quando não se precisa dele, disse.

Ele fechou a boca, pressionando os lábios, balançou a cabeça e foi rumo ao corredor de vinhos, não sem antes dar uma olhada para ela, que consentiu sua saída, dando a entender que guardaria suas compras até que ele voltasse.

Alguns minutos depois, voltou com duas garrafas na mão, ambas do mesmo vinho e da mesma safra. Porém, quando ao caixa chegou, aquela linda mulher estava a caminho do outro caixa, que havia sido liberado. Triste, colocou as garrafas no carrinho, mas percebeu que ela o observava atentamente.

– Próximo, disse a menina do caixa.

Ambos estavam sendo atendidos, praticamente ao mesmo tempo. Ele já estava colocando suas compras no carrinho quando ela ainda pagava as suas, mas como ela não havia comprado muita coisa, os dois saíram quase que ao mesmo momento, rumo ao estacionamento, formando uma fila indiana na porta do mercado.

– Boa noite, Senhores. Obrigado pela visita e voltem sempre.

Ela sorrindo disse:

– Sinto-me tão querida quando venho nesse supermecado, eles sempre nos tratam tão bem.
– Eu também. Dá até vontade de entrar de novo só pra ver se ele fala a mesma coisa.
– Quer entrar?! – disse empolgada.
– Entrar novamente? Assim, só pra ver a reação dele?
– Sim! Vamos?

Ele sem saber o que dizer, mas adorando a ideia, largou o carrinho na porta, ao lado do dela e juntos entraram novamente no mercado, e para o deleite de ambos, a mesma frase foi dita:

– Boa noite, Senhores…

Rindo compulsivamente, ela o puxou pelo braço, trazendo-o de volta aos carrinhos, o qual segurou com as duas mãos, dobrando o corpo para tentar conter o riso. Ele, porém, ria de sua atitude, encostando-se no carrinho, olhando para o alto, tentando conter duas lágrimas que saiam de seus olhos, durando somente alguns segundos até que o riso cessou. Ela esticando a mão, disse:

– Me chamo Ana.

Ele, segurando sua mão com toda a firme delicadeza que pode encontrar, disse:

– Muito prazer, Ana. André.

Ela ainda sob o efeito do riso, balançou a cabeça, confirmando que havia sido um prazer conhecê-lo.

Ambos ainda tomados pelos acessos de riso, despediram-se com um aceno de cabeça e um breve tchau e seguiram rumo a seus carros.

Algumas explicações devem ser dadas… Este conto tem a duração de 1 semana, portanto, será uma minissérie em 7 capítulos. No entanto, para evitar que o segundo dia ficasse com mais de 5 mil palavras, dividi ele em duas partes (espero) para que não fique uma leitura muito longa.
Espero a compreensão de todos!  :)
Ah, e amanhã teremos a continuação.
Obrigado!


Fatal error: Uncaught Exception: 12: REST API is deprecated for versions v2.1 and higher (12) thrown in /home/folhe034/public_html/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273