[Minissérie] Uma semana – parte 1

Sexta-feira estressante no trabalho, ele tenta de tudo pra sair mais cedo; liga pra clientes, arruma as contas, vistoria os subordinados, Mas mesmo assim, parece que o trabalho gera mais trabalho; tudo o que ele queria era um emprego tranquilo e sustentável.

Meia noite e ele ainda não havia saído, resolvendo problemas que não eram dele, mas que não podiam ser deixados de lado, pois segunda-feira seria um dia de cão, e sabia que se sobrasse toda aquela papelada, cabeças iriam rolar, mesmo não sendo a dele, ainda assim, cabeças rolariam.

Somente lá pelas duas da manhã que conseguiu se ver livre daquela loucura. Deixando o belíssimo hall para trás, rumo ao estacionamento e, se nada desse errado, a uma semana sem problemas à beira mar.

Carro ligado, seguiu caminho pelo labirinto de concreto, deixando de lado carros e mais carros – parece que muitos ainda estão trabalhando – pensou. Mas após colocar seu cartão de identificação do estacionamento na máquina, ouviu o segurança dizer:

– Indo embora cedo, Doutor?

Essa pergunta o fez perceber algo que há muito nem imaginava, a verdade era que ele estava saindo mais cedo do que de costume; não era os outros que estavam trabalhando até tarde. Tamanha foi a surpresa que deixou de responder ao segurança, limitando-se a um simples aceno.

Na rua, teve uma certa tranquilidade, conseguindo relaxar ao som de Nina Simone; algo que não tinha costume de fazer, pois normalmente estava bêbado de sono quando saia do escritório. Aproveitando os poucos minutos que tinha até sua casa para curtir o tranquilo som de Nina.

– Porque todos os dias não são assim? – falou em voz alta como se estivesse conversando com o próprio carro, como naqueles velhos seriados onde o motorista e o carro eram amigos inseparáveis e o que tinham em suas mãos era apenas a pura aventura, nada daquela rotina estúpida que vivia todos os dias: casa-trabalho, trabalho-casa.

Quinze anos haviam se passado desde o dia que decidira seguir aquela vida, que hoje era amaldiçoada com muito louvor. No entanto, essa era a carreira que pagava suas contas, mantendo sua vida luxuosa: roupas caras, bela casa, um belo carro e uma bela conta bancária. Luxos que não haviam melhorado sua vida em nada, muito menos seus relacionamentos, pois só tinha olhos para o trabalho.

– Acredito que exista uma palavra pra descrever tais pessoas – imaginou.

Agora, entretanto, era a sua hora de sentar e relaxar. Nada de trabalho, celular ligado, somente uma casa à beira mar e uma rede preguiçosa pra deitar. Isso era tudo o que ele queria, não é atoa que havia separado pouca roupa pra viagem, colocando-a estrategicamente no porta malas para não perder tempo entre seu trabalho e sua casa na praia.

Semáforo atrás de semáforo, seguia seu caminho por entre os grandes prédios, cobertos de aço e concreto, que diminuíam com o passar dos quilômetros, deixando pra trás a correria e o transtorno da cidade grande. Seus pensamentos estavam voltados única e exclusivamente à rede, à areia e às previsões meteorológicas.

A cada quilometro era uma batalha vencida, o que  para muitos pode parecer uma bobagem, para ele, após 15 anos, esses passos davam a impressão de vitória, de que sua vida seguia um rumo diferente; um rumo novo até seu destino final, sem antes fazer uma ou duas paradas para aproveitar a noite, sem preocupação alguma, até sua última parada: a garagem de sua casa, a qual, após descer do carro, pode agradecer pelo dinheiro que havia investido, mesmo nunca tendo usufruído como deveria.

Mas dessa vez, jurou a si mesmo que seria diferente, que iria aproveitar cada minuto de sua estadia, cada momento como se fosse o único.

Fechou a porta do carro, e a primeira coisa que fez, antes mesmo de pegar sua mala, foi arrancar a bateria do  celular e jogá-lo no porta malas, bem no fundo, deixando-o ocupar, assim, todo o espaço que agora não era mais de sua mala, mas somente daquele aparelho eletrônico sem vida, sem ligação alguma com ele, deixando seu meio de comunicação fora da nova realidade, o que fez com uma vigorosa batida de porta!

– Agora sim, paz.

Essas palavras foram tão espontâneas que sentiu no peito um alívio que há muito não sentira, aquela sensação de vitória voltara a se instalar, e antes mesmo de entrar com o pé direito em sua tão sonhada casa, observou as estrelas que cobriam o céu, parando por alguns minutos para contemplar a quantidade excessiva que pairava sobre sua cabeça, tendo até a oportunidade de presenciar uma estrela cadente, que de pronto, levou-o a um pedido:

– Que essa semana seja única!

Após esses longos minutos, resolveu ultrapassar o batente da porta de entrada, na qual parou e fez questão de conferir duas vezes se entrara mesmo com o pé direito. E foi assim, rindo que entrou em casa, acendendo as luzes para verificar como andavam as coisas, no entanto, outra impressão não houve, senão a de que tudo estava em seu devido lugar, do mesmo jeito que havia deixado quando da última vez estivera ali. Mesmo o pó, que em dois anos acumularam, fora retirado pela faxineira, no mais, todo o resto estava em seu devido lugar: cadeiras, poltronas, mesa, quadros, até sua estante permanecera do mesmo jeito, contendo somente alguns livros que nunca lera, mas que eram essenciais para demonstrar um local mais aconchegante.

Assim, passando por cada cômodo e olhando suas posses, subiu as escadas; seu desejo era um belo banho e uma boa manhã de sono, pois a viagem apesar de prazeirosa havia sido longa, requerendo, portanto, um bom descanso ao som das ondas que teimavam em quebrar bem em frente a sua casa, liberando uma agradável fragrância de praia em seus aposentos, o qual fez questão de deixar a mostra com as janelas todas abertas.

Contemplando as estrelas sumirem com a forte luz que vinha do leste, já em sua cama adormeceu, num sono profundo, tendo do outro lado, morfeu como um pai ao receber o filho pródigo.


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