[Conto] – O Substituto

O relógio já batia 22 horas quando Pedro acordou. Seus pés descalços e totalmente sujos, demonstravam uma longa caminhada, mas suas curtas lembranças não permitiam recordações, a única coisa que possuía era alguns jornais velhos, jogados ao seu lado e um único bilhete, dizendo: Desculpe-me!

Pedro olhou para o bilhete, virou-o novamente, mas somente essas palavras foram capazes de serem lidas; até tentou colocar o papel contra a luz, na tentativa de encontrar mais respostas, ou quem sabe, alguma outra anotação, porém, nada lhe foi revelado. Imaginou, talvez, que a falta dos óculos poderia ser a causa das poucas informações. Assim, numa tentativa frustrada, procurou nos bolsos de sua jaqueta, nos bolsos de sua calça, no chão próximo, mas nada encontrou, somente aquele bilhete e suas poucas lembranças.

Do outro lado, Joana preparava a cama de sua filha de 5 anos,  Marina, para que ela pudesse finalmente dormir.

– Mamãe, cadê o papai?
– O papai está trabalhando, Nina. Você sabe que ele sempre chega atrasado.
– É… ele nunca está aqui pra ler uma história pra mim…
– Mas sempre quando o papai chega, ele passa aqui para te dar um beijinho de boa noite.
– Eu sei! – respondia animada. Ele sempre acha que estou dormindo quando faz isso, mas eu sempre acordo pra dar um abraço nele.
– Ah, é? Não sabia disso! – respondia Joana com um sorriso nos lábios.
– Mas não conta pra ele, mamãe. Gosto de assustar ele.
– Não, não conto. Agora, vamos, deite-se e se cubra, para que eu possa ler uma história pra você.
– EBA!!! Do ursinho puffiiiiiiii!!!

Com uma força descomunal, Pedro tentou-se levantar e se colocar em chão firme, apoiou a mão esquerda no chão, virando o corpo, conseguiu trazer o joelho esquerdo, até que conseguiu sair do chão, com muita dificuldade. Mas o maior esforço foi tentar manter os olhos abertos, pois doíam com a insignificante luz daquele beco mal tratado; uma viela sem portas e que, provavelmente, levaria o nada a lugar algum. Com dificuldade, olhou para uma das extremidades do beco, depois para a outra e com a ajuda da parede seguiu rumo à extrema direita – não me pergunte o porquê da direita, simplesmente ele a achou mais conveniente.

Um, dois, três… dez passos foram suficientes para que conseguisse largar da parede e cambalear sozinho até a suposta rua principal. Mal conseguia distinguir se havia ou não movimentos a frente, supôs que não haveria muito, pois já era tarde e, normalmente, nessas horas as ruas ficavam desertas, pensou. Porém, chegando até a rua, pode ver que, na verdade, não havia movimentação alguma, aliás, estava completamente deserta; lojas fechadas, lixos largados, mais parecia uma cidade fantasma do que uma cidade.

Muitos dos papeis largados indicavam uma catástrofe, mas nenhum indicava quando isso havia ocorrido; e sem os óculos, ler seria muito complicado.

– Onde estão os óculos quando precisamos deles? – dizia, enquanto amassava e jogava o jornal de volta à rua.

Pedro continuou caminhando, tentando procurar algo que pudesse dizer onde estava; apesar de reconhecer as ruas que passara. Olhou daqui, olho dali, nada aberto, tudo fechado ou destruído, sem sinal de vida alguma. Não tendo outra alternativa, continuou caminhando, reconhecendo ruas, lugares e prédios. Ele sabia onde estava, estava próximo ao seu trabalho. Decidiu, então, seguir rumo ao lugar que poderia trazer algumas respostas; seguiu até seu laboratório. Tentando sempre manter contato com o que estava acontecendo, procurando entre os papeis, escombros e jornais, alguma informação adicional, seguindo os recortes até a entrada do laboratório.

Já na entrada, Pedro notou o mesmo descaso que havia nas ruas; móveis jogados, vasos quebrados, vidros estilhaçados, nada como deveria ser. A impressão que teve era que algum terremoto houvesse pego a cidade de jeito, mas logo mudou de ideia, pois se fosse um terremoto, muita coisa seria diferente. Tentando passar a porta de acesso, viu que esta ainda funcionava e bloqueava a entrada de pessoas estranhas. Assim, pegou seu cartão de acesso, passou e uma voz metálica confirmou sua passagem: Entre, doutor Pedro.

Como era de costume, não chegou a estranhar aquela voz, o que estranhou foi um barulho vindo detrás dos computadores, que ainda se mantinham ligados, o que, pra ele, foi uma surpresa; não pelos computadores, mas pela movimentação, pelo barulho, por saber que havia algo funcionando dentre toda aquela desgraça. Mais dois passos e ligou a luz central.

– Pedro?!? É voce?! – dizia o barulho atrás das máquinas.
– Sim, sou eu. – confirmou com um ar de suspeito. – Quem está aí?
– Como é possível!? Como pode ser você, Pedro?!
– Vamos! Saia daí e deixe-me vê-lo!

Aquele barulho tomou formas humanas, não de um jovem, mas de um senhor de aproximadamente 56 anos, longas barbas e um jaleco branco a cobri-lhe o peito.

– Sou eu, Irvin. Lembra-se de mim?!
– Mas é claro! Semana passada tínhamos conversado. Por que essa cara de espanto ao me ver?
– Ah, meu Deus! Pedro! Não acredito que seja você mesmo! – Irvin correu para abraçar o amigo; um abraço longo e duradouro, ao ponto de incomodar Pedro.
– Vamos, chega, Irvin. – afastando o amigo. – O que está acontecendo com essa cidade? Ainda hoje de manhã tudo parecia normal quando vim para cá.
– Hoje de manhã? Como pode? Está desse jeito desde o incidente, há uma semana!
– Qual incidente?
– Como pode não lembrar?
– Do que você está falando?! Que incidente? Lembro-me muito bem de estar hoje de manhã, como todas as manhãs, tomando um café com Joana e Marina, em minha casa.
– Pedro!? O que aconteceu com você? Não está se lembrando das coisas?
– Não sei ao certo… acordei ainda há pouco num beco qualquer, a alguns quarteirões daqui, mas não consigo me lembrar de como cheguei lá.

Pedro realmente não fazia ideia do que Irvin estava dizendo: Incidente, uma semana. Essas afirmações, para ele, eram novidades, tão absurdas que sua curiosidade estava mais aguçada do que nunca.

– Pedro, sente-se, pois acho que você não está nada bem. Anda falando bobagens, sonhando com Joana e Marina…
– Bobagens? – interrompeu. – Como bobagens? Estive esta manhã com elas, estás achando que não consigo nem me lembrar disso? – disse irritado.
– Lembrar, sim, mas estar com elas?
– Como assim, estar com elas?
– Pedro, se acalme. Vamos, sente-se! – conduziu, Irvin.
– Ok, estou sentado, agora me conte toda essa bobagem de uma semana e o incidente!
– Será preciso ir um pouco mais longe que isso, peço que ouça a história até seu final.

E, assim, Irvin contou toda a história para Pedro.

Enquanto isso, Joana acabara de ler a história do Ursinho Puff, indo até o final, mesmo sabendo que Marina já havia adormecido nas primeiras páginas. E, dando um beijo de boa noite, o que fez sem acordá-la, dirigiu-se à cozinha para arrumar o resto da louça do jantar, preparando, por fim, um prato para Pedro, que chegaria há qualquer instante.

– Eu tentei o quê?
– Sim, Pedro. Você lembra da teoria que lançou ha dois anos, que provava ser possível atravessar universos paralelos?
– Sim, lembro, claro! Ganhei prémios por isso. Mas nunca coloquei em prática essas teorias!
– Colocou, Pedro. Desde a morte de Joana e Marina, naquele acidente de carro, você vem tentando tornar a teoria possível. E ao que tudo indica, você teve sucesso, porém, seus cálculos estavam errados, e esses erros causaram o incidente. Veja as suas anotações. O campo electromagnético gerado destruiu, praticamente, todos os aparelhos eletrônicos, deixando boa parte da cidade sem energia alguma, somente alguns lugares permaneceram funcionais, o resto da cidade, que não dispunha de proteção alguma, transformou-se nisso que você viu.
– E você esteve aqui durante toda essa semana?
– Não, estive viajando quando soube, cheguei esta manhã. Tentei te contactar, mas não consegui, imaginei que você estivesse no laboratório, mas quando aqui cheguei, só encontrei suas anotações e este mural.

Toda aquela história parecia um absurdo, como seria possível tudo isso ter acontecido e ele nem se lembrar de como ocorreu, ou pelo menos, que ele havia sido o causador de toda aquela desgraça.

– Irvin, não estou entendendo. Hoje de manhã eu estive com minha família, eles estão vivos, saudáveis e em casa, tudo estava normal!
– Pedro, sei que é difícil aceitar, mas já se passaram doze meses, você precisa aceitar o que aconteceu.

Enquanto Irvin falava, Pedro folheava suas próprias anotações. Observava os cálculos e notas, tudo indicava que a possibilidade era, realmente, verdadeira, se não fosse um único problema que ele verificou em suas equações. Para que essa passagem fosse possível, aquele que viajasse precisaria de um objeto com as mesmas características; massa e dimensão iguais para a substituição.

– Substituição!? – pensou em voz alta, interrompendo Irvin.
– … Como?
– Ele trocou de lugar comigo, Irvin! Agora, eu estou preso neste universo desgraçado por ele, enquanto ele está lá, com a minha família!
– …

Do outro lado, Joana acabara de deixar a comida sobre a mesa, quando ouve a porta abrindo.

– Pedro? É voce?
– Sim, sou eu! – disse com o sorriso mais largo que pode.
– Boa noite, meu amor!

Pedro correu até os braços de Joana, abraçando-a como se fosse a primeira vez, beijando-a como nunca havia feito, até que segurou em seu braço e correu para o quarto de Nina. E sem se importar com as negativas de Joana, acendeu a luz.

– Minha filha, papai chegou. – falando bem baixo para não assustá-la.

O experimento mental de Shorödinger pode ser visto aqui: Gato de Schrödinger (em português)


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