[Conto] Cotidiano

– Alô… Alô? Quem está falando???

Pela terceira vez que o telefone tocava e ninguém respondia, deixando Ulysses completamente insatisfeito com o dia que se arrastava para chegar às 18 horas, horário que sua amada chegaria em casa. Aliás, horário perfeito para um jantar romântico para comemorar os seus 7 anos de namoro, data esta que Ulysses nunca deixava de lembrar, ainda mais hoje que seria o grande dia do relacionamento dia em que Ulysses pediria a mão de sua amada em casamento. Apesar das muitas vezes ter visto a surpresa se espalhar pelo rosto de sua amada, quando descobria que era aquele o dia do aniversário de namoro, Ulysses gostava daquele esquecimento, achava bonito, carinhoso, sem contar que adorava a expressão do rosto de sua pretendente, mesmo que sempre fosse a mesma história: ando trabalhando muito, meu amor – dizia ela.

Durante toda a semana Ulysses fez os preparativos, cuidando dos mínimos detalhes do belíssimo jantar que iria preparar, fazendo o máximo de esforço para esconder os provimentos que poderiam colocar tudo a perder – até para um vizinho do prédio havia pedido que guardasse certos ingredientes. A dispensa do serviço foi pedida com antecedência, tudo estava como deveria ser: velas, música, banheira, até uma massagem ele havia preparado para aquela noite – nada poderia dar errado, pensava ele. E , realmente, se fosse pra dar, já teria dado. Mas tudo indicava que a noite seria perfeita: sexta-feira de inverno; chuva em São Paulo.

A hora escolhida para o pedido estava marcada para às 20 horas, como havia sido o de seu pai. Os mínimos detalhes foram revisto.

– Joelho aqui, mão ali, levantar a cabeça e o grande pedido – fez os ajustes repetidamente para nada dar errado.

E assim que Ulysses, durante o ensaio, retirou o anel do bolso pela última vez, sentiu uma alegria imensa ao imaginá-lo nas mãos de sua amada, cobiçando-o pelo belíssimo diamante que ostentava no topo de sua estrutura. E, por alguns instantes, imaginou estar sentado ao lado dela, ouvindo as histórias dos netos que um dia teriam. Viajando em seus pensamentos, Ulysses sentou-se na cadeira destinada a sua futura esposa, absorto em tais devaneios que até perdeu a noção dos segundos que escorriam.

– Nossa! Faltam 45 minutos e eu nem preparei a banheira!

Enquanto corria para o banheiro, Ulysses ouviu novamente o telefone tocar, mas deixou que tocasse, agora não era hora de atendê-lo, mesmo diante da insistência: uma, duas, três, quatro vezes tocara e nada de resposta, até que resolveu deixar a banheira enchendo e atendê-lo.

– Alô… Alô? Quem está falando???? – E mais uma vez, nada de resposta.

Irritado com aquela brincadeira sem graça, desligou o telefone e foi terminar os preparativos, faltando somente 15 minutos, preparou as velas e as acendeu, diminuindo a intensidade das luzes para deixar o ambiente mais romântico, propício para o pedido, e foi se arrumar, faltando somente 10 minutos para a grande entrada.

Escolheu uma calça jeans escura, uma bota rústica, uma camisa bem passada, espirrou um pouco do perfume e olhou o cabelo pela última vez antes de voltar para a sala de espera, conferindo os minutos que faltavam – 5 minutos dizia o relógio -, pensou até em sentar-se, mas preferiu ir até a cozinha e abrir a garrafa de vinho para que pudesse respirar um pouco, trazendo à tona o sabor de frutas que tanto ouvira existir naquela safra. – Hum… que delícia, dizia.

– Pronto, agora só falta a peça principal!

E admirando seu trabalho antes que tudo aquilo fosse desfeito, ouviu uma batida na porta, mais outra e uma última vez antes de abri-la. Porém, para sua surpresa, não era sua amada, mas um amigo seu, um daqueles chatos que nunca ligam.

– Não, hoje não. – dizia sem esperar que ele falasse alguma coisa.
– Calma Ulysses, só queria saber se você estava bem, tentei te ligar hoje cedo e ninguém atendeu.
– Como não? Atendi sim, mas como ninguém respondeu, desliguei.
– Nossa, pra mim estava mudo. Mas e aí? Quais as novas?
– Sério, Lucas, hoje não dá pra conversar, estou esperando minha namorada para um jantar, hoje faz 7 anos que estamos namorando e farei o pedido de casamento.
– Nossa! Sério?! Que legal! Mas…
– Sem mas, preciso que você vá embora, amanhã a gente conversa.
– Tudo bem. Então boa sorte.

E sem ao menos agradecer o amigo, fechou a porta repentinamente. Virando de costas, seguiu novamente até a cozinha para pegar a garrafa de vinho que logo mais traria um ar romântico para o jantar, que, aliás, já deveria ter começado há 10 minutos, mas pela falta da atriz principal, somente a vela era consumida pelo fogo incessante. E mais 10 minutos se passaram, Ulysses já estava ficando impaciente e preocupado com a demora, principalmente pelo fato de que ela nunca demorara mais do que 10 minutos para chegar em casa, pelo menos não sem ligar para avisar; uma hora passou e nada de notícias. Quando o relógio já batia 19 horas e 30 minutos, entra sua amada, repleta de sorrisos e animada como nunca.

– Olá, meu amor! – disse ela.
– Por onde você andou?
– Como assim? Estava trabalhando!
– Até essas horas? Sem ao menos ligar para avisar que iria se atrasar?
– Mas eu tentei te avisar…
– Ah, tentou sim! Tentou tanto que eu estou aqui te esperando!
– Amor, eu tentei te ligar, mas ninguém atendeu.
– Eu atendi uma ligação mas ninguém respondeu e, então, desliguei.
– Pois é, era eu!
– E por que não falou nada?
– Tentei, mas como não houve resposta, desliguei. Imaginei que você não havia voltado do escritório e a secretária eletrônica havia atendido.
– Pelo amor de Deus! Tu vem com essa desculpa? É isso?!
– Não é desculpa, ok! Não tenho motivos pra mentir pra você. Estava trabalhando, essa é a verdade, agora se você vai ter crise de ciúmes por que eu demorei, então deixa eu ir tomar um banho pois estou muito cansada pra discutir sem antes chegar em casa.
– É sempre assim, “estou cansada, estou cansada, estou cansada” – repetia Ulysses com uma voz de desdém.
– Quer saber? – quero, respondia – Quer mesmo? Estou de saco cheio dessas suas crises! Estou farta de toda a semana ter uma briga por causa desse teu ciúme doentio. FARTA! Ah, e isso sem falar nessa tua mania de querer tudo no lugar, de ter hora pra tudo! FARTA!!! E quer saber do que mais??? Pra mim chega! Isso mesmo… CHE-GA!!!
– Como assim, chega?
– Chega! Eu quero um tempo pra pensar…

Ulysses baixou os olhos, levantou o punho e viu as horas: exatamente 20 horas.


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