O Retorno

Boa noite, dizia Catarina quando se despediu de seus pais. Era tarde e ela precisava voltar pra casa. Apesar da solidão que aquele lugar trazia, sua vontade de morar sozinha era maior que seu desejo de solidão, maior que o medo de deixar seus pais sozinhos, ainda mais na idade que se encontravam; tão grande que seus medos foram supridos e logo que foi possível, aprontou as malas e seguiu rumo ao outro lado da cidade – um bairro nobre.

Seu trabalho era suficiente. Com ele conseguia pagar as contas e ainda se dar ao luxo de aproveitar coisas boas que a vida ainda poderia proporcionar. Tudo bem que não eram coisas absurdas, mas certos luxos que somente uma mulher sabe dar o real valor, tais como: bolsas, sapatos e roupas. Pequenas coisas, porém grandes conquistas que os estudos pagos puderam lhe fornecer.

Um último adeus e Catarina já estava a caminho de casa. Ligando o rádio, sintonizou em uma daquelas emissoras que transmitem conselho e recebem ligações para que você possa desabafar e procurar ajuda – não, não é religioso, antes que você me pergunte ou imagine, simplesmente um bate papo. E ligação entra, ligação sai… e assim foi durante os 15 primeiros minutos de estrada, nada que agregasse ou a fizesse pensar, somente pessoas criticando ou chorando suas mágoas sem a menor pretensão de resolvê-las. Mas foi aos exatos 22 minutos percorridos que entra uma voz diferente!

Boa noite ela dizia, mas ninguém respondia do outro lado da linha, até que Catarina, sorrindo, respondeu… – Boa noite. – e ao longe a voz retornava em um tom grave e preciso: – Imaginei que ninguém iria me responder.

À princípio, Catarina achou que fosse pura coincidência, nada fora do comum, porém, a voz da interlocutora havia desaparecido, sobrando somente aquela que iniciou a conversa com a “boa noite”. Nesse instante ela sentia um calafrio subindo sua espinha, percorrendo todas suas extremidades nervosas; o medo havia tomado conta.

Ainda sem resposta, a voz tentava uma comunicação, porém sem sucesso, pois Catarina estava atônita, trocando olhares com o rádio enquanto tentava não se distrair da estrada. Vez ou outra olhava para os lados, imaginando que pudesse haver alguém querendo pregar uma peça de mal gosto. Mas todas suas certezas foram por água abaixo quando percebeu estar sozinha na estrada.

– Olá, tudo bem? dizia a voz.

Confusa, tentava criar alguma explicação lógica para o que estava acontecendo, imaginando que poderia ser algum rádio amador ou, até mesmo, seu próprio celular ligado no viva-voz, mas este não poderia ser, pois estava desligado; já aquele teria grandes chances… Porém, como ela estaria se comunicando através do rádio? Seu lado racional aflorava a cada segundo, deixando-a tonta de tanto que pensava, tirando-a totalmente a noção de tempo e espaço, chegando ao ponto de esquecer que havia alguém conversando com ela.

– Psiu… Ainda por aí?
– Sim.
– Ah, que bom, pois pensei que havia te perdido.
– Perdido? Quem está completamente perdida sou eu!
– Mas por quê?
– Você ainda pergunta? Estou na estrada, ouvindo uma rádio, quando de repente entra você e, sei lá como isso é possível, estamos conversando!
– E o que isso tem a ver com estar ou não perdida? Você não está no teu carro, voltando pra sua casa?
– Co-como voce sabe que estou voltando pra casa? – como se algo lhe tivesse prendido a voz, Catarina arregalou seus olhos, completamente dominado pelo medo. – Vamos, me diga! Como sabe que estou voltando pra casa?
– Calma, Catarina, não fique assustada, tudo está como deveria ser.
– Não, não está, muito pelo contrário, estou é ficando louca, isso sim!

Com essas últimas palavras, Catarina encostou o carro no acostamento, mesmo estando a estrada deserta – nada poderia ser pior do que estava acontecendo -, desceu depressa, andava desconsoladamente de um lado pra outro, trocando olhares com o chão e seus próprios pés, fazendo perguntas a esmo: – Estou imaginando coisas, ouvindo vozes e, o que era pior, conversando com elas! – Catarina estava interagindo com a própria loucura enquanto a voz no rádio dizia:

– Não, Catarina, você não está louca, nem muito menos esquizofrénica.
– Como não? – nem o choro conteve seu estado. – Estou sim, estou no meio da estrada e ainda assim converso com você.
– Catarina, olhe para a frente e me diga o que vê.

O esforço que fez para levantar a cabeça e olhar em direção ao horizonte, foi descomunal, tão lento foi o movimento que conseguiu observar as pequenas ranhuras da estrada sob seus pés.

– Estou olhando, mas não sei pra onde tenho que enxergar.
– Respire com calma… Vamos.
– Sim. – uma… duas… três profundas inspirações foram suficientes para acalmá-la.
– E então, o que vê?
– Ve-vejo um caminhão vindo…
– Preste bem atenção. É um caminhão?

Catarina agora estava curiosa, já não dava tanta razão à loucura, estava sendo guiada pela emoção. Emoção de descobrir o que estava vendo.

– Calma! Não é um caminhão!
– Sim. E por que não?
– Não é porque há somente uma luz forte bem ao centro da estrada.
– Sim. Agora olha para trás, em direcção ao carro.

Ao virar-se, pôde ver seu carro totalmente destruído, arremessado para fora da estrada. Já seu corpo estava numa maca, repleto de pessoas ao lado que tentavam fazer massagem cardíaca, chegando a ouvir, sem compreender, algumas delas. Mas a última coisa que pôde ver e ouvir e ver foi:

– Hora da morte: meia noite e vinte e quatro minutos. – enquanto seu rosto era coberto por um lençol branco.

E a antiga voz dizia com bastante suavidade. – Venha, Catarina, está na hora de voltar pra casa.


Fatal error: Uncaught Exception: 12: REST API is deprecated for versions v2.1 and higher (12) thrown in /home/folhe034/public_html/wp-content/plugins/seo-facebook-comments/facebook/base_facebook.php on line 1273