O Livro (parte 2)

Ainda na porta do prédio, Carlos encontrou Simone, colega de trabalho com quem havia saído algumas vezes.

– Carlos?
– Olá, Simone.
– Não vai trabalhar hoje?
– Quem me dera, mas acabei de ser demitido.
– Tá falando sério?
– Pois é. E isso só por uns atrasos, não pela falta de competência… bom, pelo menos isso foi o que me falaram.
– Nossa! Nunca imaginei que isso poderia acontecer. Você sempre foi bem visto no escritório, sempre bem elogiado. Como fizeram isso contigo?
– Não sei, Simone. Mas o jeito vai ser voltar pra casa e pensar em outras propostas.
– É… acredito que propostas não irão faltar.
– Também espero. Bom, vou indo, já que não vou ter que trabalhar hoje, aproveitarei pra descansar, pois a noite foi longa.
– Ok. Beijos e vê se liga pra gente marcar alguma coisa.
– Pode deixar. Beijos.

Carlos se interessava por Simone, mas não passava de um puro romance bobo de trabalho, nada que o fizesse levá-lo adiante. Sempre imaginava que um dia iria encontrar alguém… Alguém como as personagens do romances que tanto gostava, algo que trouxesse um mistério, uma paixão proibida, algo que pudesse despertar nele aquela vontade de imaginar cada cena como fazia nos livros, e Simone não era esse tipo de aventura, aliás, era uma menina comum para Carlos.

Mesmo assim, ainda pensando sobre a promessa de ligar qualquer dia desses, Carlos seguia seu caminho de retorno à casa, até que ao passar enfrente a uma livraria, decidiu parar pra poder verificar os novos lançamentos, ou quem sabe, adquirir um livro novo, pois já que estava desempregado, nada melhor que um bom livro pra matar o tempo, pensou.

Mas chegando à livraria, não encontrou nada que fosse de seu agrado, nada que tivesse o poder de despertar sua curiosidade. Alguns livros simples com história já manjada, outros nem tanto, como A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, mas não estava no clima de ler algo fantasioso. Seu livros prediletos eram os romances policiais, aqueles repletos de mistérios e com histórias palpáveis, não que não gostasse dos outros, mas esses eram sempre sua primeira escolha. E assim, ainda tentando encontrar algo que pudesse trazer algo novo, vasculhou as estantes, e até fez perguntas aos vendedores, mas nada que saltasse ao olhos.

Enquanto passeava pela livraria, olhando despretenciosamente para as prateleiras cheias de histórias, algumas reais, outras nem tanto, lembrou-se do livro que havia colocado em sua bolsa, aquele da noite passada. Aquele que continha poucas páginas pro final, tao poucas que aproveitou para ler ali mesmo, sentado em uma poltrona que aguardava um usuário.

Já sentado, puxou sua bolsa, pegou o livro e começou a leitura, ainda relembrando os últimos acontecimentos, antes de entrar pra valer no universo do autor. E, sentado ali mesmo, perto dos grandes livros da literatura nacional, lia o livro com uma vontade de dar inveja. Página a página, Carlos desvendava cada mistério, cada situação, e antes mesmo do final pretendido pelo autor, ele já sabia quem havia sido o assassino de Ana. Todo empolgado, terminou o livro e o deixou de lado como fazia com todos os livros que dispunha, coisa que aprendeu com o passar dos anos: Nunca guarde um livro, passe-o a diante, mais tarde descobriu o Projeto Livro Livre – O mundo é uma grande biblioteca, que veio para confirmar sua filosofia de leitor. E assim, deixando o livro sobre a poltrona, revivia a história que acabara de ler, sentindo um gostinho de vitória por ter desvendado os segredos ocultos pelo autor, antes mesmo que fosse revelado.

E envolto nesse sentimento, ficou sentado por alguns minutos, não dando atenção ao que as outras pessoas estavam fazendo, conversando ou lendo, somente olhava para a estante cheia de livros “intocáveis” à espera de um dono, até que pode ver um livro de capa vermelha, bem ao lado de grandes obras já produzidas por autores nacionais. Um livro de espessura média, mas não por isso despercebido em meio aosoutros. Curioso, levantou-se, pegou o livro na prateleira e voltou ao seu lugar, aonde não encontrou mais o livro que há minutos havia deixado sobre o acento.

Olhando bem para a capa do livro, à princípio havia gostado da ilustração, deixando, então, que a sinopse o apresentasse à história. Logo de cara, pode ver que era um livro de romance policial, que se passava em Londres, tendo dois personagens principais e uma trama envolvendo os pais de ambos. Só por esse pequeno universo, havia se interessado pela história. Ainda curioso por saber quem era o autor e sua trajetória, encontrou na orelha as informações que procurava, apesar de nunca ter ouvido falar de tal autor, interessou-se pela história e resolveu comprá-lo.

Saindo da livraria, feliz por ter adquirido um livro novo, ainda mais agora que o outro já havia sido completamente desvendado, Carlos seguiu para sua casa, aonde estaria esperando seu cachorro e, pelo que tinha lido, uma boa leitura durante a noite.

Em casa, quase não deu atenção a Mike – seu cachorro. Estava tão interessando em começar a ler que o máximo que pode fazer foi colocar comida, água e fazer um carinho despretensioso, que Mike logo viu não ser seu dia, hoje o dia seria novamente do novo livro de Carlos.

Preparando o ambiente para a leitura, Carlos, puxou a poltrona, ajeitou o abajur, pegou a sua xícara de chá e começou a ler: Prólogo:

“Barulhos de carros pelas ruas frias de uma sexta-feira londrina…”

Essa primeira frases deixou Carlos interessadíssimo, com vontade de ler mais e mais!

E assim foi, noite à dentro, lendo página a página: Capítulo Um, Capítulo Dois, Capítulo Três… até que, por força do sono, foi obrigado a parar no Capítulo Trinta e Cinco, sendo preciso deixar o livro de lado antes que passasse novamente a madrugada inteira acordado, pois apesar de ter perdido o emprego, ainda tinha a faculdade para terminar.

Banho, dentes escovados, um shots qualquer e cama. Carlos estava pronto pra pegar no sono quando se deparou imaginando a história que acabara de ler…

– E se Marie for a assassina? Não, não tem motivos pra isso, Michael é que tem todo esse mistério. Apesar que o pai de Johnatan também não é flor que se cheire, proibiu o namoro do filho…

Nesses pensamentos, Carlos adormeceu, imaginando as cenas do livro que havia acabado de ler, ansioso por descobrir a continuação daquele maravilhoso mistério.


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