O Livro (parte 1)

A chuva que castigava sua janela há duas horas, havia cessado, permitindo sossego a seu cão e a si mesmo, pois a tremedeira demonstrada pelo animal era perturbadora, sendo impossível a leitura de um livro, ato que tanto gostava de fazer nessas noites chuvosas.

Ele sempre imaginava que o barulho da chuva era convidativo, proporcionando um ambiente favorável para a imaginação, algo que prezava tanto na hora de ler.

Por noites, pedia a noção da hora, deixando a história percorrer todo o seu imaginário, vivendo cada palavra como se reais fossem, chegando ao absurdo de passar noites em claro lendo os livros, imaginando as cenas e criando falas pessoais, dando uma outra versão aos fatos. Mas sempre tinha que voltar ao mundo real, deixar a imaginação de lado e continuar com a vida conturbada que levava; faculdade, estágio, casa e estudos. Não era atoa que suas horas de leitura se resumiam a poucas, ou muitas, horas noturnas.

E assim, ele passava suas madrugadas, em companhia de seu cachorro, lendo durante horas. E hoje não foi diferente, louco pra desvendar o mistério que se escondia atrás de cada página não lida, buscava-as com voracidade, indo mais a fundo na história, imaginando, virando página a página, buscando pistas e pequenos detalhes deixados pelo autor, na tentativa de desvendar o caso antes dele.

Quando as horas já haviam se passado por completo, trazendo um novo dia, não teve opção senão largar o livro, faltando poucas páginas pro final, e ir se arrumar pra mais um dia corriqueiro que tanto odiava, mas era preciso, precisava ganhar sua vida e sem os estudos e o trabalho, não conseguiria fazer isso. Mas antes de sair, pegou seu livro e o colocou na mochila, pensando que teria algum tempo entre uma atividade e outra.

O dia na faculdade foi tranquilo, sem aulas interessantes. Deixando, então, levar-se nos braços de Morfeu para uma cochilada merecida, ao embalo da cansada voz de seu professor de economia, adormeceu tão profundamente que perdeu o resto das aulas, acordando somente com o cutucar de um amigo que já estava de saída.

– Acorda! Tu só perdeu todas as aulas hoje, tá a fim de perder o estágio também?

Assustado, levantou-se sem entender o que estava acontecendo, demorando alguns segundos pra entender o que havia acontecido.

– Todas as aulas? disse.
– Sim, só todas.

Insatisfeito, pegou sua mochila, jogou nas costas e saiu rumo ao estágio. Pelo menos nesse não poderia se atrasar, pois como havia recebido várias advertências de seu chefe, mais uma poderia significar sua demissão, e ser demitido nessa altura do campeonato, seria como jogar fora 4 anos de estudos. E tudo isso promovido pelo amor à leitura que tinha e pelas poucas horas que dispunha para ler.

Ônibus lotado, calor infernal, mochila pesada, parecia que tudo estava indo de mau a pior. E eis que chega, mais uma vez atrasado no estágio. Não deu nem tempo de colocar sua mochila sobre a mesa e é chamado pelo seu chefe.

– Carlos, poderia vir até a minha sala?

Esse convite não tinha cara nenhuma de ser coisa boa, e Carlos sabia disso.

– Carlos, sei que a vida não tem sido muito fácil pra você, mas como eu havia lhe avisado, gostaria que o Senhor passasse no setor de RH.

Ele sabia que a notícia não era boa, mas daí ser demitido de forma tão direta, foi como se tivesse levado um tapa na cara.

– Mas o Senhor sabe que eu cumpro todos os meus compromissos aqui no escritório, fico até depois do horário para poder cumprir. Será que não pode ser somente uma advertência?
– Outra? Se eu te der mais uma será 6 advertências em menos de 3 meses de trabalho. E mesmo que você cumpra com os teus deveres, não justifica ter um tratamento privilegiado.
– Mas…
– Carlos, minha decisão é final. Terei o maior prazer em te indicar pra outros lugares, pois sei que você é competente, e acredito que essa demissão possa lhe servir como uma lição.

Carlos viu que discutir seria desnecessário, e que o melhor seria pegar suas coisas e voltar pra casa, pensando no que poderia fazer pra pagar suas contas.E mesmo triste pelo que havia acontecido, Carlos imaginou que talvez sua devoção pelos livros fosse algo que deveria ignorar, deixar para as horas que realmente não fossem atrapalhar na sua vida social, devendo focar seus esforços nos estudos e trabalho. Porém, apesar de tudo isso, lá no fundo, sabia que a leitura era sua grande paixão e que parar com isso não o ajudaria em nada.

As portas do elevador se abriram. A espera de ser convidado, viu que não havia acessorista naquele horário, e como se convidado fosse, olhou mais uma vez para trás, focando bem as portas de entrada do escritório e agradeceu, de certa forma, por deixar pra trás aquele emprego sufocante, porém lucrativo.

Sua última visão foi ver a porta fechando, tendo tempo somente de apertar o térreo antes que as portas se fechassem.

(continua…)


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