O Escritor

Barulhos de carros entravam pelas aberturas laterais da janela de um quarto fétido e mal conservado. Uma cama embaixo da escada e papeis soltos pelo assoalho demonstravam a preocupação de seu inquilino com a garrafa de whisky, sua eterna companheira.

Copos espalhados pelo pequeno cubículo davam a impressão de ter havido uma festa animada na noite anterior, porém, nenhum dos copos possuíam outras marcas que não fossem a dos dedos de seu possuidor. Esses mesmos copos sujos diziam que a luz do dia havia passado por aquele apartamento, como em tantos outros dias, sem ao menos ser notada.

Mesmo não sendo madrugada, acordou após um sonho estranho, no qual possuía a forma de um inseto monstruoso, tão horrendo que metamorfose alguma poderia ser a causa de tanta estranheza. Por alguns instantes chegou a pensar que a combinação de um péssimo whisky e filmes da madrugada, poderiam ter sido a causa, mas logo descartou a idéia do whisky, permanecendo com a dos filmes da madrugada, afinal, whisky era um relaxante e não um condutor de horrores. Enfim, não gastou muito do seu valioso tempo para analisar a situação.

Colocou-se sentado, escorregou a mão sobre o criado-mudo procurando os óculos, mas encontrou somente um copo tombado que logo veio ao chão e, com a mão sobre o joelho, levantou-se. Caminhou até a mesa mais próxima, puxou a garrafa de whisky. Enquanto seguia o caminho do banheiro, tomou seu primeiro gole da madrugada; aquele pequeno cochilo só havia sido suficiente para descansar o corpo, o sono foi curado com uma boa ducha e mais 3 goles.

Ele sempre preferiu a madrugada para escrever, acreditava que o clima noturno seria mais propício à imaginação, porém, nunca teve sucesso com seus textos, mas mesmo assim, continuava firme em sua busca pelas palavras certas; pelos títulos marcantes. Todos os dias, ao olhar-se no espelho, dizia: “Hoje será o dia que você mudará o mundo”. Mas tantas outras noites foram batalhas vencidas, nenhuma frase, nenhuma ideia chegava às folhas presas de sua máquina de escrever. A ideia certa era o almejado, nada além disso seria permitido, pensou ele. Sua vontade estava presa ao sucesso de um grande Romance policial ou um simples conto já seria o suficiente. Entretanto, somente ideias vagas, ideias já utilizadas chegavam a seus dedos. Digitou uma, duas, três linhas, mas a raiva o acabava consumindo, libertando a folha de sua máquina, deixando-a cair sobre o assoalho, era novamente tomado por outras “simples ideias”.

– Chega! Gritou ele.

Sua determinação era inversamente proporcional à vontade de mais um gole, que tomou enquanto seguia para a triste varanda daquele apartamento. A noite já consumia toda a cidade, seus ébrios habitantes caminhavam com dificuldade, sorrindo, apontando, bebendo. Aquela visão lembrava muito a sua situação, porém, ele acreditava que a bebida não era uma fuga, mas uma tentativa de libertar aqueles pensamentos que tanto buscava. Ainda, diante da varanda, conseguia enxergar, ao longe, a magra silhueta do parlamento às margens do rio tamisa, uma imagem difícil de não ser apreciada, pensou, porém, tão distante, assim como as palavras que buscava para seus rabiscos, e entre um gole e outro, ainda admirando a paisagem, tranquilas gotas da fina chuva molhavam as ruas londrinas: era sexta-feira.

Ele continuo ali, calado, observando a rua, seus personagens que cambaleavam por um muro e outro, buscando sempre uma inspiração, um algo que despertasse seus instintos literários, podendo levá-lo à glória. Essa sensação sempre fora seu combustível, sua alavanca para o pretendido sucesso: encontrar um simples momento que pudesse levá-lo a escrever durante horas e mais horas. Contudo, foi interrompido por um barulho forte na porta de seu prédio: BLAM! Surpreso com o barulho, esticou o pescoço para observar o que estava acontecendo. Olhando para baixo, pôde ver uma mulher toda arrumada, loira e de altura mediana, trazendo sua bolsa e casaco à mão, saindo do prédio com uma determinação que ele jamais vira ou teve. Seus passos eram firmes, determinados, objetivos, passos que ele acompanhou até onde não pôde mais enxergar. Sem reações, diante de tanta determinação que acabara de presenciar, a garrafa de whisky que trazia à mão soltou-se, e com uma lenta queda, reduzia-se a alguns pequenos pedaços ainda ensopados pela sua prisão.

Enquanto o líquido escorria pela pequena varanda, para fora do apartamento, antes mesmo de tocar a rua, que momentos atrás era palco para uma marcha imponente, ele, já sentado em sua cadeira, puxou uma nova folha, prendendo-a à máquina de escrever, onde, após alguns toques, pôde-se ler: PRÓLOGO.


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