Em seu Tempo

Muitas histórias já foram contadas, poucas percebidas e nenhuma delas foi vivida por este que escreve. Não há pretensão alguma para a narrativa que passo a escrever. Talvez muitos de vocês já ouviram, sentiram, presenciaram ou até achem que essa história não passe de uma brincadeira; de uma loucura de um simples escritor. Mas… o que um escritor pode fazer  quando a loucura que vê está bem diante de seus olhos? Escrever… escrever… e escrever aquilo que não estava muito longe de sua percepção.

Nunca fui bom para lembrar de números. Minha vida sempre foi repleta de letras, palavras e frases, mas números… Não, esse não era o meu forte. No entanto, aquele horário martela minhas lembranças como um ponteiro de relógio ao anunciar os segundo passado. Tic, tac; tic, tac; tic, tac. E no relógio, três horas da manhã de uma noite estranha.

O frio percorria as finas frestas da janela semi-aberta. A sala estava imersa em uma gélida atmosfera que somente a lareira e um cálice de vinho poderiam me ajudar a suportar. A velha tapeçaria ainda isolava o frio do piso de mármore, que por muitas vezes pensei em trocar por algo mais humano, mais aconchegante; mais quente. Mas a vaidade cobria meus desejos de algo aconchegante. Permanecendo duro, frio e voluptuoso, o mármore dominava a decoração daquela nem tão humilde sala.

O dia não havia sido dos melhores. Muitos papéis, clientes chatos e uma longa discussão com a futura esposa; um perfeito dia para ficar sozinho e aproveitar os pequenos prazeres da vida. Afinal, nada melhor que uma boa música, um bom vinho e 10 minutos diante da madeira a crepitar na lareira. Dez minutos foi o tempo suficiente para esvaziar o primeiro cálice de vinho e esquentar o corpo, que já estava apto para voltar à varanda do 17º andar. E lá, do alto de meus 37 longos e trabalhados anos, a visão não poderia ser diferente do que muita gente já estava acostumada a ver: prédios, casebres, pontes e pequenas discussões a janelas fechadas no prédio vizinho. Situações que, se fosse pintor, poderiam ser imortalizadas em um pedaço qualquer de papel ou, se fosse mais ousado, em tinta óleo. Faria tanto sentido, porque assistia tudo como se nada mais pudesse me afetar, bastava virar as costas e voltar pro meu vinho que tudo não passaria de uma fotografia amarelada guardada em uma gaveta empoeirada de uma escrivaninha.

Uma pausa pra mais um trago. Um mal necessário naquele frio.

De volta à lareira, apoiei o cálice de vinho na mesinha de apoio. Estiquei o braço à procura de um livro qualquer, algo que pudesse espairecer as ideias. O objetivo era deixar os problemas de lado para poder entender tudo o que havia acontecido até os meus 37 anos de idade. Porém nem os livros estavam querendo me ajudar, por mais que vasculhasse, não encontrei nada, nem um panfleto para me distrair. Olhei em volta, busquei algo que pudesse ser lida sem necessidade de raciocínio, e na terceira tentativa, virando o rosto o máximo que pude, encontrei um antigo diário do meu avô; se é que poderíamos chamar assim. Um livro que há muitos anos estava exposto nas prateleiras da minha pequena biblioteca, mas que nunca havia tido curiosidade em lê-lo. Talvez tenha sido a correria do dia a dia que acabaram por mantê-lo afastado ou teria sido um simples desleixo? Não saberia dizer ao certo, porém, como em um passe de mágica, meus olhos não avistaram outro livro. Somente aquele. Era como se nada mais existisse naquela estante a não ser aquele velho diário. Surrado e tão distante.

No entanto, mesmo cansado e sem vontade de levantar, algumas lembranças de meu avô me conduziram à estante; sentimentos que foram esquecidos, situações vividas, momentos compartilhados. Toda uma vida passava diante de meus olhos enquanto andava até àquela específica prateleira (a quarta de baixo pra cima). O frio que atacava meu peito já não incomodava tanto. Minha atenção estava voltada ao diário, a sua belíssima capa preta de couro presa por um simples cordão. Segurei-o com tanta força e atenção que ao voltar para a lareira, esbarrei na mesinha de apoio, derrubando o cálice de vinho. O choque foi tão intenso que, antes mesmo do cálice encostar no chão, o vinho já corria livre pelo carpete, molhando o mármore frio diante da lareira. Corri para tentar evitar que o cálice batesse no mármore, pois seria o fim de uma longa parceria, mas meus esforços foram em vão… O cálice encostou no mármore e logo quebrou em vários pedaços que se misturaram com o vinho esparramado. Por alguns minutos, permaneci imóvel diante do vinho e dos cacos de vidro a se encontrarem. Uma imagem que também ficaria ótima ao lado da visão da varanda. Depois de contemplar a pintura por esses breves minutos, preferi deixá-la exposta ao invés de privá-la de uma segunda olhada mais tarde.

Agachei-me para pegar a garrafa de vinho que estava ao lado da poltrona, saquei a rolha para que a garrafa ficasse completamente vulnerável aos meus lábios e sorvi o mais um trago antes de sentar e abrir o diário; motivo de tanta confusão.

Já nas primeiras páginas pude notar o nome de meu avô e o ano de 1949. Provavelmente o ano escolhido para suas narrativas. Fiz um breve cálculo e constatei que ele tinha 34 anos ao escrever naquelas páginas. A curiosidade foi tamanha que corri até a última página pra descobrir o intervalo em que essas anotações foram feitas. Cinco anos. O ano era de 1954. Dia 02 de outubro. E continham uma simples indagação: “Sonho?”. O que será que aconteceu nessa data? O que o fez parar de escrever? Minha curiosidade aumentava a cada pergunta não respondida, tendo como auge a pergunta: Por que ele não descreveu o sonho?

Como escritor, sempre gostei de ouvir histórias e de ler contos que houvessem algo de interessante. No entanto, ter a oportunidade de ler os relatos de meu avô seria algo ainda mais desejado. Algo que pudesse me conectar aos meus antepassados, aos seus desejos, a suas fantasias, seus medos. Ah, porquê não houve um prolongamento, por quê? Minha vontade crescia a cada instante, meus dedos, sedentos por um pedaço de história, já vasculhavam as páginas numa rapidez estonteante. Já nas primeiras páginas pude ver as angústias de um homem que ainda aprendia a ser pai de três filhos, que aprendia a ser homem. Não faltou muito pra que eu pudesse juntar os pontos e ver que as suas angústias eram as mesmas que as minhas. Suas palavras poderiam ser as minhas palavras escritas em uma folha de papel qualquer ou em alguma tela de computador. A sensação foi de total conforto, de alívio por ser tão parecido com ele; de saber que não era o único dessa família com tais dúvidas.

Uma página atrás da outra as palavras passaram como um filme. Cenas do dia a dia ilustravam seus anseios de tal forma que as horas passavam como se segundos fossem. A leitura estava tão gostosa que o dia estava amanhecendo e a garrafa de vinho ainda permanecia parada sobre a mesa aguardando a última golada. Porém, não só a manhã havia chegado, durante a madrugada inteira, só o vinho tinha me feito companhia e meu estômago ansiava por algum alimento. E assim, deixando o último gole para ser tomado junto à cama, peguei o diário e segui rumo ao Café mais próximo de casa para comer e terminar a leitura.

No café, pedi um café com leite para continuar a leitura. Chegando à última página, no último dia, estava lá aquela enigmática palavra: “Sonho?”. Não havia mais nada, somente aquela palavra. Não havia história que levasse a entender o que havia acontecido, nem mesmo uma breve explicação, só aquela palavra. A frustração tomou conto de mim… Minha decepção foi tanta por não conseguir entender aquelas palavras, que fechei o diário rapidamente e larguei ele sobre o balcão.

-Leitura entediante?

Um senhor de aproximadamente 30 e poucos anos, que aparentemente estivera sentado ao meu lado, fez a pergunta.

-Não, de forma alguma. É que… – Fui interrompido por suas palavras.
-Bonito diário. É teu?
-Não.

Minha resposta foi tão rápida que não tive tempo nem de me perguntar o porquê de tantas perguntas. Apesar que aquela situação não havia me deixado preocupado. De certa forma, aquela conversa era o que eu precisava para desabafar a minha frustração.

-E por que tanta raiva do pobre caderno?
-Não é raiva, só descontentamento.
-Leu algo que não gostaria de ter lido.
-Também não é isso. O descontentamento veio por não haver mais nada a ser lido.
-Não entendo.
-Veja você mesmo.

E assim, abri o diário e mostrei as últimas palavras àquele senhor.

-Veja. Foram 5 anos escrevendo para terminá-lo com uma palavra?
-Hum… Então como ele deveria ter terminado?
-Contando o sonho e não deixando isso no ar.
-Mas ele deve ter tido seus motivos, não acha?
-Sim. Talvez.
-Exato. Talvez ele tenha deixado esse sonho pra uma outra hora e decidiu nunca mais escrevê-lo. Ou então, que não era a hora certa para contá-lo.

Por mais estranho que isso possa parecer, aquela conversa estava me deixando mais calmo e tranquilo. Talvez aquele sonho tenha sido um simples desabafo. Uma vontade que deveria ser esquecida. Afinal, ele era pai e esposo.

-Não fique assim. Não tente descobrir os motivos, apenas saiba que não era a hora certa de acontecer. Quem sabe um dia você ainda não descubra o que aconteceu naquele sonho?

Após essas palavras, o Senhor virou, pegou sua xícara de café, sorveu o último gole e, sem olhar pra mim, levantou-se. Pegou sua boina e seguiu rumo à porta. Porém, antes de continuar sua viagem, virou-se para minha direção e com um sorriso fraternal disse:

-Não se preocupe. Tudo em seu tempo, meu neto.

E ao vê-lo sair, acordei em minha antiga poltrona.


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