Capítulo 35

As escadas foram um simples obstáculo para Johnatan, porém para Christine, cada degrau parecia um abismo. Sendo, praticamente arrastada por Johnatan, Christine, com suas pernas mais curtas, tentava se desvencilhar, sem sucesso, das mãos de Johnatan.

Pelas ruas, Christine ainda tentava seguir os passos de seu amigo, mas a idéia de Johnatan havia lhe dado tanto ânimo quanto uma força descomunal. Praticamente, arrastava Christine pelos metros vencidos.

– Johnatan! – gritou Christine – Pare!

Quase não ouvindo, Johnatan ainda continuava em seus pensamentos. Planejava a viagem, imaginava os momentos, tentava sentir o cheiro das árvores do Central Park. Tudo isso numa fração de segundos, que impossibilitou-o de ouvir Christine quase aos berros.

– Johnatan!!!

Desta vez, Christine usou todas as suas forças para trazer Johnatan de volta à realidade. Porém, não houve forças que pudessem tirar as imagens de sua cabeça. As ruas, as pessoas, os lugares, os cheiros. Ah, os cheiros…. só a lembrança daquela flor – o seu aroma, lhe trazia imagens, cenas, situações que, há muito esquecidas, habitavam seu imaginário.

Johnatan viajava em suas lembranças, em seus sentimentos. Cada situação dava-lhe uma sensação diferente, seus olhos seguiam as ruas de Londres como se já alí houvessem passado várias vezes. Não precisava raciocinar, não era necessário estar presente de corpo e alma, bastava o corpo, ou melhor, seus pés, que percorriam as ruas como se em piloto automático estivessem. Nada parecia fazer-lhe parar.

Totalmente desesperada e descabelada, Christine não viu outra solução senão utilizar sua bolsa como nunca havia utilizado, e, assim, com uma forte pancada na cabeça de Johnatan, Christine conseguiu chamar sua atenção.

– Puta q… – conteve-se Johnatan. – O que foi isso?!

Recolocando a bolsa no seu devido lugar, Christine arrumava o cabelo enquanto Johnatan virava-se para saber o que havia acontecido.

– Não acredito que você me acertou com uma bolsa!

– Uma bolsa não, A bolsa. – com um sorriso nos lábios.

– E por quê fez isso?!

Johnatan ainda esfregava o lugar que Christine havia acertado. Seu olhos ainda estavam miúdos por causa da dor que sentia, mas mesmo assim, olhava, ainda mantinha uma feição de surpresa.

– Oras, você não parou.

– Poxa, precisava bater tão forte? Por quê não me chamou?

– Ahn!? Estou gritando faz tanto tempo, mas você parece ter se perdido nos seus pensamentos!

Com cara de culpado, Johnatan, agora, não mais esfregava a cabeça, a dor havia ido embora, dando lugar àquela velha cara de culpado, enquanto  coçava a cabeça.

– É… hum… Desculpa. Acho que estava mesmo distante.

– Distante?! Você estava completamente ausente!

– Verdade. É que a idéia de voltar pra cidade que nasci, fez-me lembrar de coisas que há muito tempo havia esquecido.

– Sei…

Christine ainda não estava completamente conformada com aquela situação. Apesar de saber ser necessária a viagem, a idéia de Johnatan voltar para sua casa, seus amigos, sua família, não lhe agradava muito, ainda mais agora que estava sozinha, sem amigos e sem família, não queria perder seu único companheiro, seu único amigo. Talvez fosse isso que lhe impediu de concordar com a viagem, em primeiro lugar.

Johnatan sabendo que algo a incomodava, perguntou:

– O que está acontecendo? Você parece não ter gostado da idéia.

– Cla-Claro que gostei. Por quê não gostaria? – tentando esconder seus sentimentos.

– Também não entendo o por que. Acredito que lá iremos descobrir muita coisa a respeito do que vem acontecendo em sua vida e, por incrível que pareça, na minha também.

– Eu sei, disso não tenho dúvidas, mas…

– Mas o quê? – curioso, Johnatan perguntou.

– Mas… nada. Vamos, está ficando tarde e é bem provável que não encontremos o banco em tempo.

A curiosidade de Johnatan foi mais forte, precisava, queria saber o que estava acontecendo. Christine nunca havia demonstrado tanta impaciência quanto agora.

– Não, pode parando. Venha, sente aqui.

Johnatan trouxe Christine até um banco próximo e sentaram-se.

– O que está acontecendo? Você não quer ir viajar? Está com medo do que poderemos encontrar? O que houve, Chris?

Pela primeira vez, Johnatan chamou-na pelo apelido. Christine assustou-se. Sentada no banco, olhava Johnatan, seus olhos percorriam suas feições, seus gestos, seus lábios… Por um momento, sua vontade era beijá-lo intensamente, seus olhos o devoravam, suas mãos suavam frio…

Pára! – pensou. Não posso! Ele é um amigo, e, mesmo que não fosse, ele poderia não querer, seria ridículo. As imagens passavam por sua cabeça como um filme sendo avançado: milhões de imagens em um único segundo. Talvez fosse o momento – dizia. Quem sabe a carência ou seu  jeito de falar – conteve-se.

Christine sentia o sangue borbulhar, subindo rapidamente para seu rosto, não havia jeito de esconder aquela vermelhidão que, agora, já fazia parte de seu rosto. Impaciente, suas pernas suavemente buscavam o melhor jeito para se acomodarem. Mas já era tarde, a suavidade de seus movimentos chamaram a atenção Johnatan, que logo percebeu seu incômodo e, novamente, fez-lhe a pergunta.

– Está tudo be…

– Tudo Ótimo! – interrompeu.

– Uhum… – duvidou, Johnatan.

– Sim, está tudo bem, só estava pensando nessa loucura que você quer fazer.

– Loucura? Mas achei que você gostaria de saber o que houve com a sua mãe e, principalmente, a razão de ambos os colares serem idênticos.

– Sim, quero saber de tudo isso, mas…

– Não! Esse já é o segundo “mas” que você me dá, só hoje. O que tem por trás desse “mas”? Mas o quê?

Christine havia se perdido de tal forma que nem imaginou em alguma desculpa para dar, ainda mais agora que seus sentimentos estavam tão confusos, em relação a Johnatan e a tudo que havia acontecido, que acabou revelando o real motivo dos seus “mas”.

– Tenho medo, Johnatan.

– Medo? Do quê? Da viagem?

– Não da viagem propriamente dita, mas das conseqüências que ela trará.

– A verdade. Só vejo essa conseqüência. Qual outra seria possível?

– Não é só isso! – levantando-se do banco e dando as costas a Johnatan.

– Então me diga! – ainda sentado.

– Deixa pra lá. Vamos antes que o banco feche.

– Pro inferno com o banco. O que está acontecendo, Chris?

O apelido novamente, essa palavra era a chave perfeita, capaz de abrir uma porta, uma porta proibida que Christine preferia deixar fechada.

Johnatan levantou-se do banco, segurou Christine pelo braço e virou-a, deixando ambos frente a frente, mais próximos do que jamais estiveram. Seus olhos se encontraram, Christine estava pronta, totalmente entregue, completamente solta em seus braços. Porém Johnatan não compartilhava das mesmas idéias, mesmo que há muito houvesse imaginado se esse momento iria chegar, mas, agora, envolvido pela negação de Christine,  recuou, virando-se para o outro lado, deixando-a parada onde haviam se encarado.

– Parece que você não está disposta a me falar o motivo dessa sua preocupação. O que eu fiz pra você ficar assim, tão insegura?

Christine virou-se novamente, e baixinho disse:

– Você acabou de fazer.

– O que você disse? – virando-se para encarar Christine.

Porém, Christine já estava caminhando para seu apartamento, sem ao menos olhar para trás, deixando Johnatan e o banco sozinhos.

– Chris? Christine?!

Johnatan olhava Christine caminhando lentamente com seus ombros baixos, porém com a cabeça erguida. Ele sabia que algo havia lhe incomodado, mas não fazia idéia do real motivo. O máximo que conseguiu foram dois passos, não para acompanhá-la, mas para o banco que antes havia sido palco para tamanha explosão de sentimentos.


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