Capítulo 29

Aquele achado se tornaria uma busca interminável pra Johnatan, porém, não vamos entrar em detalhes e estragar a história, voltemos ao que realmente interessa: o dia em que Christine convidou Johnatan para seu apartamento.

Christine havia trazido poucos homens para sua casa, no total, somente dois. Sim, ela não tinha muita experiência com homens, tudo culpa de sua timidez exacerbada. Christine queria, sonhava com situações, imaginava cada momento, cada ponto e vírgula de um encontro, mas isso não era suficiente, pois sua timidez a travaria na hora exata.

Uma certa vez, não há muito tempo, Christine conheceu um rapaz mediano – nem bonito, nem feio, mediano -, que lhe despertou desejos há muito adormecidos. Tudo começou como um conto de fadas: flores, bombons, jantares, um bom-dia inesperado… Mas, como uma boa construtora de castelos de areia, seu relacionamento não passou de poucas memórias.

E esse foi o primeiro homem que Christine convidou para seu apartamento. Johnatan foi o segundo.

Christine já imaginara o dia em que o convidaria para conhecer seu apartamento, não com segundas intenções, mas como amigo, como companheiro. Além do mais, ela não nutria uma paixão por seu amigo, apesar de ser carinhoso e prestativo. O dia do metrô, para ela, foi especial, ela havia descoberto coisas sobre seu amigo que nunca imaginara, conheceu sua família, seus sonhos e seus desamores. No entanto, muita coisa aconteceu até então, o que lhe trouxe, novamente, à dura realidade. E uma dessas foi a morte de sua mãe.

Christine não estava totalmente recuperada do acontecimento, fato este que lhe permitiu o convite, pois não gostaria de passar mais uma noite sozinha em seu pobre apartamento. Precisava de alguém, de um ombro amigo, de um companheiro, de alguém que lhe desse segurança, como naquele dia do metrô.

Esse foi o motivo que lhe impulsionou ao convite. Nada além disso. Não queria um romance, não queria beijos, não queria um amante. Queria um amigo.

Johnatan ainda observava o colar entre seus dedos atentos. Cada detalhe trazia-lhe momentos vividos, alguns não muito bons, outros de uma plenitude inigualável. Por algumas frações de segundo, olhava Christine que dormia tranqüila em sua cama. Pensou em acordá-la, mas sabia que não seria o melhor momento, aliás, tinha certeza que não seria a melhor hora.

Sentado em uma cadeira de canto com a colcha de retalhos jogada sobre suas pernas, Johnatan ainda segurava firme o colar, tinha-o preso à mão, parecia que nada lhe faria soltar aquela peça, e continuava a lembrar de momentos vividos, sua imaginação vagava livre nos pequenos flashs de suas lembranças.

O apartamento ganhou uma profundidade terrível, as paredes já não mantinham certa distância de Johnatan, os poucos raios de sol que teimavam entrar pelas frestas da cortina, pairavam inertes, o quarto abria espaço para a imaginação de Johnatan.

Ao longe ele podia ver uma jovem criança correndo livre pelo Central Park, sua mãe vinha logo atrás. O sorrido estampado no rosto do pequeno Johnatan era espontâneo, solto, carismático e suave. Sua mãe adorava passear pelo parque, gostava de ver seu filho se divertindo entre as poucas árvores naquele verdejante gravado.

Lilian, sua mãe, corria para seus braços. Seus longos cabelos castanhos balançavam ao vento daquela tarde de outono, enquanto Johnatan corria tentando se esconder atrás de alguma árvore, mas sua mãe sempre conseguia encontrá-lo – um abraço, a primeira visão do colar.

Era inverno, 7 anos se passaram. Johnatan já não trazia um sorriso infantil, algumas espinhas haviam lhe tirado a alegria de correr livremente. Como um bom adolescente, tinha vergonha de se expor, mas não para sua mãe. Lilian o amava, dava pra ver em seus olhos, em seu sorriso e em seu abraço. E, sozinho andava pelo mesmo parque, ainda enxergava ao longe aquela árvore onde havia se escondido certa vez.

– Sim! Não quero você se envolvendo com aquela mulher.

– Mas eu a amo!

– Amor… amor… É tudo o que vocês procuram, não?

– E porque eu não posso ficar com ela, algum motivo em especial?

– Sim. Não queremos que isso aconteça! Obedeça seus pais!

Já era final de tarde quando Johnatan, Richard, seu pai, e Lilian discutiam na sala de estar da sua casa. Seu pai não queria que Johnatan namorasse Julia; sua mãe, sentada ao canto da sala, ouvia tudo, mas não disse nada, estava compenetrada e um objeto que carregava nas mãos…

– Tudo bem, se é isso que vocês querem, então não tenho mais o que fazer aqui. Não serei uma marionete, vou sair, viver, sumir dessa vidinha imposta que Você, pai, quer pra mim.

… sua mãe levantou-se, trazia nas mãos um colar – uma lágrima, a segunda visão do colar.

Desde aquela briga, Johnatan nunca mais viu aquele colar, até o dia de hoje. Seus pensamentos ainda vagavam na imensidão do apartamento. A luz do sol já não estava tão forte. A noite caminhava para o seu início, e ao longe…

– Johnatan?

Christine acabará de acordar. Ainda espreguiçava na cama, toda preguiçosa, fazia barulhos difíceis de serem compreendidos.

– Desculpa, acabei dormindo.

Johnatan voltara de seus sonhos em uma fração de segundos, não havia reparado que havia se passado horas desde seu achado. Ainda estava absorto em seus pensamento, mas o apartamento voltara ao seu espaço normal, as imagens sumiam nas paredes como sombras à luz.

– Você dormiu?

– Acredito que não.

Sem entender, Christine colocou-se sentada, esfregava os olhos para poder observar melhor Johnatan que ainda estava sentado e olhando para as impressões de suas lembranças na parede.

– Johnatan!? Está tudo bem?

Aquelas palavras soaram como um despertador, trazendo Johnatan ao quarto de Christine, e com uma brusca virada, olha Christine sentada na cama a olhar.

– Sim, está tudo bem. Aliás, está com fome?

– Um pouco. Mas porque não dormiu?

– Lembranças… Lembranças…

– Do quê?

– Meus pais.

Christine já estava se levantando. Seu olhar era de preocupação. Colocou seu chinelo e foi de encontro a seu amigo, ajoelhou perto da cadeira onde Johnatan estava e segurou sua mão.

– Quer conversar?

Johnatan estava muito cansado, já não dormia há mais de 24 horas, seus olhos estavam pesados, mas ainda assim, olhava Christine. Queria lhe perguntar do colar, mas suas palavras pararam antes de chegar aos lábios, o máximo que se pode ouvir foi alguns murmúrios.

– Venha, deite na cama, você está muito cansado, precisa dormir.

Christine tirou a colcha de retalhos que cobria as pernas de Johnatan e ajudou a levantá-lo e, depois de cinco passos, colocou-o na cama. Christine cobria seu amigo, que já estava, praticamente, dormindo. Afastou-se, pegou a colcha de retalhos e trouxe até o pé da cama, onde a colocou para poder esquentar um pouco mais o corpo de Johnatan. Foi quando conseguiu ver algo na mão de Johnatan.

O colar já não estava mais preso entre seus dedos, sua mão afrouxara como se quisesse lhe mostrar alguma coisa. Christine se aproximou e pode ver o colar na mão de Johnatan. Perplexa, puxou o colar suavemente, desvencilhando-o da mão de seu algoz, que tanto lhe apertara. Olhou-o por alguns instante, sem entender o motivo que fez Johnatan segurá-lo por tanto tempo, deixando-o com uma marcas na mão, dois MMs.

Christine tentou perguntar a Johnatan, mas ele já estava dormindo e não conseguiria responder mais nada. Tentando entender, Christine levantou-se, foi até o armário onde havia guardado o colar certa vez e o depositou em uma caixinha de jóias.

Por um momento, sentiu-se violada, mas algum motivo haveria pra tudo isso, porém não seria agora que ela descobriria.

Virou-se para Johnatan que já dormia esparramado na cama que antes serviu de berço para ela, e com poucas palavras, pegou uma toalha que estava pendurada em uma cadeira e dirigiu-se ao banheiro, sem antes virar e olhar, novamente, Johnatan, que respirava suavemente, como uma criança que corre livremente nos gramados verdejantes do Central Park.


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